qua, 12 de agosto de 2026

‘Vira-lata’ resgatada vira perita da Polícia Científica de São Paulo

Savana passou por treinamento e detecta sangue humano

O que era para ser apenas um resgate se transformou em uma história de parceria e inovação na ciência forense. Encontrada em situação de abandono e desnutrição, a vira-lata Savana virou perita da Polícia Científica de São Paulo, especializada na detecção de sangue humano em locais de crime.

Ela foi adotada ainda filhote pelo perito criminal João Henrique Machado, em São José dos Campos. A princípio, seria encaminhada a um programa de adoção, mas suas habilidades incomuns chamaram a atenção do tutor, que já atuava com biodetecção usando cães. Disposta, sociável e com um faro aguçado, Savana foi treinada ao lado de Mani, o primeiro cão perito da Polícia Científica do estado, e hoje integra oficialmente a equipe de campo.

Treinada ao longo de dois anos, Savana é capaz de identificar sangue humano mesmo quando o vestígio não é visível ou foi parcialmente removido. Segundo Machado, ela já atua de forma independente em casos de crimes contra a vida e passa por testes frequentes para manter sua eficácia.

“As atividades incluem obediência, recreação e detecção em ambientes diversos, como roupas, veículos e áreas abertas. O objetivo é simular situações reais da perícia criminal”, explica o perito.

Além da precisão, o uso de cães representa economia para o Estado. A técnica tradicional utiliza luminol, um reagente químico caro, que pode ter eficácia reduzida em locais muito iluminados ou grandes extensões. Já os cães conseguem apontar com mais assertividade e exclusivamente sangue humano.

“O cão orienta o perito sobre onde concentrar o trabalho. Isso melhora a qualidade do exame e reduz a perda de amostras importantes”, afirma Machado. Em um dos casos, Mani localizou manchas em um carro seis meses após o crime. Já em outro, encontrou vestígios em uma camiseta usada há mais de um ano.

A rotina dos cães é acompanhada de perto. Para evitar vícios ou condicionamentos, o treinamento é feito com amostras variadas, respeitando mudanças naturais do sangue ao longo do tempo. “O sangue de hoje não é o mesmo daqui 30 dias. Os cães são preparados para essas nuances”, explica.

Projeto pioneiro

O uso de cães farejadores na perícia científica ainda é inédito no Brasil. Formado em medicina veterinária, Machado desenvolve um projeto de mestrado na Unifesp de São José dos Campos, com o objetivo de criar um protocolo de treinamento e uso dos cães pelas equipes periciais.

A expectativa é que, no futuro, cada núcleo da Polícia Científica do Estado conte com seu próprio cão perito. A seleção dos animais, no entanto, é criteriosa: precisam ter foco, disposição, alto nível de energia e fácil socialização. Cães agressivos ou de grande porte não são indicados.

Enquanto isso, Savana e Mani seguem lado a lado com o tutor, que se emociona ao falar da relação com os animais. “A gente diz que o cão sente falta do tutor, mas no meu caso sou eu quem fica ansioso quando estou longe dela”, brinca Machado.

Mais do que uma ferramenta técnica, Savana representa o elo entre ciência, sensibilidade e resgate — uma história em que a inteligência canina se une à perícia humana para fortalecer a investigação criminal em São Paulo. Por  Bia Menegildo / Gazeta de Rio Preto

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