Quando um paciente sofre um insulto cerebral grave, como um traumatismo cranioencefálico (TCE), uma hemorragia subaracnoide (HSA) aneurismática ou um AVC hemorrágico, o atendimento realizado nos primeiros momentos pode ser determinante para a evolução do quadro.
Além da lesão provocada pelo próprio evento, o cérebro pode sofrer novas agressões ao longo das horas seguintes, chamadas de lesões cerebrais secundárias, que podem agravar a condição clínica e aumentar o risco de sequelas.
Foi justamente sobre esse período — entre o primeiro atendimento e a chegada ao hospital de referência — que se debruçou o Simpósio de Manejo ao Paciente Neurocrítico, promovido pela Funfarme, em parceria com a Famerp, nos dias 18 e 19 de setembro, no Centro de Convenções da Famerp.
Referência regional para casos neurológicos de alta complexidade, o Hospital de Base conta com 20 leitos exclusivos para pacientes neurocríticos, além de equipe especializada e estrutura para o atendimento desses casos.
Cuidado começa antes da chegada ao hospital
Segundo a neurointensivista da UTI Neurológica do HB, Gisele Oliveira, há medidas que podem ser adotadas já no primeiro atendimento para proteger o cérebro do paciente enquanto ele aguarda a transferência para um serviço especializado.
“O nosso objetivo é treinar os profissionais que estão na ponta para que eles saibam o que podem fazer para proteger o cérebro desse paciente enquanto o encaminhamento não acontece”, explica.
Entre os conteúdos abordados estiveram avaliação neurológica objetiva e seriada, reconhecimento precoce da deterioração clínica, neuroimagem, prevenção da lesão cerebral secundária e ventilação mecânica. O treinamento também discutiu medidas que fazem parte do cuidado ao paciente neurocrítico, como o posicionamento adequado.
A proposta também incluiu o aprimoramento da comunicação entre as equipes que realizam o primeiro atendimento e os profissionais especializados que recebem o paciente. Informações clínicas precisas podem auxiliar neurologistas e neurocirurgiões na avaliação do caso e na definição da conduta durante o processo de transferência.
Experiência real mostra importância da agilidade
A história de Rafaela Rodrigues, de 30 anos, ajuda a mostrar, na prática, a complexidade de um caso de traumatismo craniano grave e a importância do atendimento rápido.
Em junho deste ano, Rafaela sofreu um acidente e foi encaminhada ao Hospital de Base com traumatismo cranioencefálico (TCE) grave. Ela precisou ser intubada, permaneceu em ventilação mecânica e sedada, foi submetida à monitorização da pressão intracraniana e enfrentou uma pneumonia grave. O despertar foi lento e também foi necessária a realização de uma traqueostomia. Ao todo, a paciente permaneceu 18 dias em coma.
Hoje, Rafaela está bem. Como não se lembra de grande parte do que aconteceu, sua percepção sobre o período de atendimento é baseada principalmente nos relatos da família e das médicas que acompanharam seu caso.
“Não me lembro do que aconteceu, tudo o que sei foi o que as médicas e a minha família me contaram. Mas sei que desde o começo fui muito bem cuidada e amparada. E sou muito grata a isso”, conta.
Segundo a médica neurointensivista Andressa Paulino, a rapidez no encaminhamento de Rafaela ao Hospital de Base foi um fator primordial para a evolução positiva do caso.
Para as especialistas, situações como essa reforçam a importância de que o paciente neurocrítico seja identificado rapidamente e receba, desde os primeiros cuidados, as medidas necessárias para preservar sua condição neurológica até a chegada ao serviço de referência.
Capacitação para toda a rede
O simpósio contou com aulas teóricas, discussão de casos clínicos e treinamento em comunicação estruturada. A programação partiu de conceitos de neuroanatomia, neurofisiologia e semiologia e avançou para o manejo dos principais diagnósticos recebidos pelo Hospital de Base.
A iniciativa buscou aproximar a experiência do centro especializado dos profissionais que atuam nos diferentes pontos da rede de atendimento.
Para o médico Márcio Queiroz, intensivista e coordenador da UTI Neurológica do Hospital de Base, compartilhar o conhecimento adquirido ao longo de sua trajetória na instituição é uma das razões que o mantém ligado ao hospital.
“É com extrema felicidade e alegria que estou aqui, podendo dividir tudo o que a gente tem aprendido ao longo de tantos anos no Hospital de Base. Fiz minha residência em Clínica Médica e, depois, em Terapia Intensiva, aqui na instituição. Aprendi muito nessa trajetória, e poder transmitir esse conhecimento, para mim, é um dos motivos que me mantém aqui até hoje.”
“A Funfarme entende que seu papel como instituição de referência vai além de oferecer atendimento de alta complexidade. Também temos a responsabilidade de compartilhar conhecimento e contribuir para a qualificação dos profissionais de toda a região. Este simpósio representa exatamente isso: levar a experiência do Hospital de Base para quem está na ponta, fortalecendo a rede e proporcionando ao paciente um cuidado mais qualificado desde os primeiros momentos”, afirma Dr. Horácio Ramalho, diretor executivo da Funfarme.
Com a iniciativa, Funfarme e Famerp buscaram fortalecer a integração entre os serviços de saúde da região e qualificar o atendimento ao paciente neurocrítico desde os primeiros momentos, contribuindo para que ele chegasse ao serviço especializado nas melhores condições possíveis.













