O aumento das anomalias térmicas e a maior frequência de eventos climáticos extremos estão alterando de forma irreversível a distribuição de doenças infecciosas no Brasil e no exterior. A perda das barreiras naturais de temperatura tem permitido que vetores e patógenos alcancem regiões historicamente protegidas pelo clima frio, além de favorecer o surgimento de fungos resistentes.
Expansão geográfica da dengue e influência do clima
Historicamente concentrado em áreas mais quentes, o Aedes aegypti encontrou no aquecimento global condições propícias para se fixar no Sul do Brasil e em países do Hemisfério Norte. Um estudo da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) aponta que, entre 2006 e 2024, o número de microrregiões brasileiras com nível epidêmico de dengue saltou de 110 para 292, alcançando 54% do território nacional.
Especialistas ressaltam que o aumento de temperatura altera todas as fases do ciclo do mosquito:
- Desenvolvimento e ovos: Ovos resistentes podem permanecer viáveis por anos no ambiente e eclodem com a combinação de calor e umidade, muitas vezes carregando o vírus transmitido pela fêmea.
- Metabolismo dos adultos: Em temperaturas mais altas, o mosquito acelera o batimento das asas, gastando mais energia e aumentando a frequência de picadas para se alimentar.
O fenômeno também é registrado globalmente, com o maior surto da história dos Estados Unidos continentais e registros de casos autóctones na França e na Itália.
Disseminação de arboviroses e impactos de eventos extremos
Mudanças nos padrões de chuva e temperatura também impulsionaram o espalhamento de outras infecções pelo país:
- Febre do Oropouche: Anteriormente restrita à Amazônia, a doença registrou milhares de casos distribuídos em mais de 20 estados e no Distrito Federal, associada às alterações climáticas e à degradação ambiental.
- Leptospirose e doenças gastrointestinais: Enchentes extremas, a exemplo das registradas no Rio Grande do Sul, misturam águas de enxurradas a esgotos, aumentando casos de leptospirose, hepatite A e infecções bacterianas.
- Hantavirose e queimadas: A ocorrência de secas e incêndios florestais força o deslocamento de roedores silvestres para áreas residenciais. A síndrome cardiopulmonar provocada pelo vírus atinge taxa de letalidade próxima de 40% no Brasil.
Adaptação fúngica e resistência a medicamentos
Outro alerta emitido por pesquisadores diz respeito ao comportamento dos fungos ambientais. Tradicionalmente incapazes de prosperar na temperatura do corpo humano (37 °C), algumas espécies têm se adaptado às temperaturas médias globais mais elevadas, superando essa barreira de proteção do organismo.
- Candida auris: Identificado em ambientes de terapia intensiva, o superfungo é altamente resistente a temperaturas e desinfetantes, apresentando elevadas taxas de letalidade em pacientes imunodeprimidos.
- Trichophyton indotineae: Fungo causador de infecções dermatológicas que já emergiu com resistência aos tratamentos convencionais.
O uso intensivo de fungicidas na agricultura — intensificado para proteger lavouras fragilizadas por intempéries climáticas — acelera a seleção de cepas resistentes, enquanto alterações de umidade expandem a presença de fungos como o Aspergillus para novas regiões do país.













