Alunos ocupam Universidade Brasil que é investigada pela PF por vendas de vagas em medicina

Estudantes afirmam que não estão conseguindo começar o internato, que corresponde ao período dos últimos anos do curso de medicina.

Alunos da Universidade Brasil, alvo da Operação Vagatomia que investiga desde setembro do ano passado uma organização criminosa suspeita de vender vagas e cometer fraudes no Fies, Prouni e Revalida, estão acampados na instituição como forma de protesto.

Segundo os universitários, a ação está sendo feita porque cerca de 500 estudantes não estão conseguindo começar o internato, que corresponde ao período dos últimos anos do curso de medicina, no qual o aluno tem um estágio automático em hospitais para aprender disciplinas básicas.

Um vídeo feito pelos manifestantes mostra pais e estudantes reunidos no campus de Fernandópolis/SP. Com cartazes e nariz de palhaço, eles gritam a palavra “internato”.

“Pediram para gente esperar porque os contratos do ano passado tinham vencido e que no mês de janeiro eles estariam renovados. Disseram para virmos no dia 27 de janeiro, que as aulas começariam, mas eles disseram que não tinham contrato. Estamos lutando pelo internado, porque não temos lugar para ficar no quinto e sexto ano. Não temos respeito deles, eles nos tratam como bandidos”, afirma a estudante Fabielli Mioto.

Os estudantes afirmam que as mensalidades, de pouco mais de R$ 9 mil por mês, estão sendo quitadas regularmente. Contudo, eles não estão recebendo uma contrapartida da Universidade Brasil.

“A gente luta por direito que deveríamos ter. Nós passamos por vestibular. Agora, estamos tendo que implorar por um direito que é nosso, de educação, de ter um hospital-escola para poder treinar o que aprendemos. Nos sentimos muito mal por tudo que está ocorrendo”, afirma o universitário Maurício Caramel.

Eles também dizem que a situação está ainda mais complicada para os estudantes que têm Financiamento Estudantil (Fies).

“A faculdade perdeu o direito da comissão de investigação do Fies e eles não estavam querendo montar uma nova para renovação dos contratos. Nós fomos até o Ministério Público e conseguimos fazer com que eles remontassem a comissão, porque precisamos fazer o aditamento para começar a estudar. Eles estão cobrando mensalidade de alunos que têm 100% do Fies”, afirma a aluna Stefani Cristina de Andrade Santos.

Em relação ao Fies, o Ministério Público Federal (MPF) fez um documento recomendando que a instituição conclua a análise de todos os pedidos de aditamentos do financiamento no prazo máximo de dez dias úteis.

Ao MPF, os alunos contaram que, sem esse aditamento, a universidade está realizando cobranças indevidas.

Quem veio transferido de outra universidade e está no último ano não consegue validar o primeiro ano de internato, feito em outras cidades, mesmo estando matriculado regularmente na Universidade Brasil.

“A situação está caótica. Nós somos alunos de transferência e fizemos uma prova no dia 8 de dezembro. Saiu a classificação, fizemos as disciplinas que a universidade nos pediu e depois fomos deslocados para os campus para ingressarmos ao internato. Nós iniciamos o internato e agora a universidade diz que não tem validade”, diz Naiara de Lima Araújo.

Depois que a operação Vagatomia foi deflagrada pela Polícia Federal, alguns estudantes dizem que passaram a ser ameaçados.

“A gente fica com medo. A própria faculdade nos ameaça em lives dizendo que cortará nosso vínculo. Não sabemos o que fazer. Estamos desesperados”, afirma um aluno que preferiu não ter a identidade revelada.

Outros universitários afirmam que terminaram o curso de medicina ano passado, mas, até agora, ninguém conseguiu pegar o diploma.

“A gente está parado em casa, esperando a colação de grau, mas já cumprimos a carga horária da matriz curricular que a universidade forneceu. Estamos passando por problemas psicológicos por causa da pressão que a faculdade está fazendo”, diz outro aluno que não quis se identificar.

Em nota, a Universidade Brasil esclareceu que as atividades já começaram em 27 de janeiro com a submissão da avaliação, pelos professores, dos alunos postulantes ao internato no curso de medicina, sobretudo para alocação consentânea com conhecimento averiguado.

A instituição disse que os alunos que já foram avaliados e que estejam regularmente matriculados iniciarão suas atividades a partir de segunda-feira, dia 3 de fevereiro.

A universidade ressalta ainda que “colaborará irrestritamente com a identificação dos responsáveis pelas irregularidades durante os protestos, que se justificam pela insatisfação com a firme posição desta Instituição de Ensino em obstar a matrícula no regime de internato daqueles alunos que não satisfizeram os requisitos avaliatórios objetivos postos e intentam, desta forma lastimável, obter sua matrícula.”

Vagatomia

A operação Vagatomia foi deflagrada no dia 3 de setembro de 2019. De acordo com o Ministério Público Federal, o esquema era liderado pelo antigo reitor, José Fernando Pinto da Costa, e pelo seu filho Sthefano Bruno Pinto da Costa, ex-CEO do estabelecimento de ensino.

Ambos foram presos, mas José Fernando foi solto no dia 26 de setembro após o STJ conceder habeas corpus. O filho dele também está em liberdade.

O comércio de vagas contava com a atuação de assessores educacionais sem vínculo formal com a universidade, responsáveis pela captação de alunos interessados em comprar o ingresso. Áudios relevam como funcionava o esquema.

Já as fraudes envolvendo a concessão de financiamento público eram feitas com a inserção de dados falsos no sistema eletrônico do Ministério da Educação, o SisFIES.

Segundo as investigações, os estudantes de medicina se inscreviam no Fies informando outro curso, com menor exigência de requisitos, e depois solicitavam a transferência para medicina.

Pessoas denunciadas

O Ministério Público Federal denunciou 32 pessoas suspeitas de integrar o esquema de venda de vagas no curso de medicina na Universidade Brasil. As investigações apontam que os prejuízos para a União cheguem a R$ 500 milhões.

Os envolvidos cobravam até R$ 120 mil por aluno para garantir a matrícula sem processo seletivo e para enquadrar no programa de financiamento estudantil pessoas que não teriam direito ao benefício. Os suspeitos usavam o dinheiro para levar uma vida de luxo, enquanto na universidade faltavam itens básicos como papel higiênico.

Os 32 envolvidos foram denunciados por integrar organização criminosa, e 20 deles também são acusados de estelionato contra a União e inserção de dados falsos em sistema de informações da administração pública com o fim de obter vantagem indevida.

O MPF ajuizou ainda outras duas denúncias contra parte do grupo pelos crimes de falsidade ideológica e fraude processual, devido às tentativas de obstruir as investigações.

FONTE: Informações | g1.globo.com

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