Você é hipocondríaco?

Você conhece alguém que sabe tudo a respeito de doenças e medicamentos? Que está sempre atualizado sobre novos medicamentos e preparado para distribuir diagnósticos para qualquer um que tiver uma reclamação de saúde? Ou alguém que se sente constantemente doente? Qualquer mudança de temperatura no corpo, já é motivo de preocupação? Pessoas assim, sofrem de um mal chamado hipocondria.

Enquanto pessoas comuns não ligam para pequenas dores, quem é hipocondríaco interpreta fenômenos habituais de maneira particular, normalmente exagerada. De acordo com Atílio Bombana, psiquiatra e coordenador do Programa de Atendimento a Estudos de Somatização da Unifesp, essas pessoas passam boa parte do tempo coçando, apalpando, analisando ou dando atenção específica ao corpo.

“Eles têm um interesse exagerado pelo próprio corpo, funcionando de forma até autoerótica e autoagressiva. Sofrem com medo de ser portadores de alguma doença importante, que está ligada a algo sério”, explica. A hipocondria é um distúrbio psiquiátrico caracterizado pela hipervalorização de sintomas absolutamente normais, fazendo o indivíduo acreditar que é portador de uma doença. “A hipocondria varia de pessoa para pessoa.

Alguns pacientes descrevem mais sensações como dores, arrepios até queimações, e outros parecem se preocupar mais com a aparência de algo no corpo (algo está torto, está estranho). Essas sensações são altamente desgastantes e angustiantes, e quando começa a pesquisa (verdadeira peregrinação) nos médicos, ele tem uma negativa quanto a estar doente, nunca aceita e isso piora ainda mais a situação já que desenvolve um sentimento de impotência e sentimento de que ‘não acham o que eu tenho’”, afirma a psicóloga Karina Rodrigues.

Ansiedade é problema

A hipocondria está associada ao Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC), à depressão ou à ansiedade. Para o psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, Breno Rosostolato, a obsessão é uma alteração no pensamento que cria impulso, imagens, cenas e dúvidas que invadem a consciência.

“São ideias impulsivas experimentadas como intrusiva e inapropriadas, que se manifestam de forma quase involuntária, repetitiva, persistente e, normalmente, absurdas. É muito comum o hipocondríaco se automedicar e buscar remédios para curar suposta doença. Em alguns casos, estocam medicamentos em casa para se sentirem mais seguros e algumas pessoas ficam pesquisando remédios novos para sua doença.

A pessoa possui o discernimento de que esses pensamentos são reais, reconhecem os excessos e exageros, mas mesmo o juízo crítico não é suficiente para acabar com as atitudes compulsivas”, revela. Rosostolato alerta que pessoas que sofrem da doença valorizam demais o corpo e a saúde ou tem dificuldade de lidar com mudanças e limitações. “São pessoas que apresentam uma ansiedade muito intensa e medos recorrentes, apresentam, também, uma maneira mais negativa de encarrar a vida e são pessimistas”, diz.

Os sintomas

Os especialistas garantem que os sintomas mais temidos são dores no peito, o que poderia levar a um processo de infarto; sede crônica, muitas vezes associada à diabetes; perdas ocasionais de memória e vir a sofrer do mal de Alzheimer; dificuldade para respirar, relacionada pelo hipocondríaco à doenças cardiovasculares; dores crônicas de cabeça; e tosses constantes, que são associadas à presença de tumores, meningite, tuberculose ou câncer.

Problemas no sistema digestivo ou no intestino também são reclamações bastante frequentes. “A pessoa acredita que está com uma doença séria e sente os sintomas. Os exames não apontam nada e o paciente se recusa a aceitar que não está doente e aí muda constantemente de médico. No entanto, o paciente sofre muito e não faz isso para chamar a atenção.

A angustia é muito alta e normalmente vem acompanhada de muito choro e desesperança de que nunca irá sarar. Isso acaba muitas vezes fazendo com que o paciente desenvolva também a síndrome do pânico porque acredita que irá morrer, por exemplo”, afirma psicóloga Karina Rodrigues.

Psicoterapia é uma forma de tratamento

O tratamento aconselhado para o hipocondríaco é a psicoterapia, que incentiva , em um primeiro momento, a conscientização e a aceitação do paciente de que precisa de ajuda e, em um segundo momento, buscar as raízes da hipocondria, que são situações de vida mal resolvidas do indivíduo. “A hipnose clínica pode auxiliar neste processo de elucidação dos conflitos e revelar detalhes importantes para se compreender a história da pessoa.

Desta maneira, o objetivo não é atingir a cura, mas o controle do medo e, principalmente, dar condições para a pessoa não fantasiar situações de doenças diante dos problemas que podem surgir na vida pessoal. Encarar a realidade e reconhecer os limites é muito importante para as pessoas que sofrem desse mal. Resgatar a alegria da pessoa e o prazer em viver é o fator principal para não se preocupar com a morte” firma o psicólogo e professor da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo, Breno Rosostolato.

O paciente apresenta algumas crenças porque sente dentro de si uma angústia e uma ansiedade, que não consegue colocar para fora. “Pode ser um bullying que sofreu na escola, pode ser a separação mal sucedida dos pais, pode ser um sentimento de inferioridade. Tive uma paciente que narrava dores crônicas nos seios, garantia que eram dores e incômodos insuportáveis e que com certeza tinha câncer ou algo muito grave.

Durante o seu tratamento ficou claro que ela vivia em função de ‘amamentar’ todos a sua volta. Não fazia nada para si, mas estava sempre correndo para ajudar os outros, sem ligar para as suas necessidades. Trabalhamos essa necessidade dela de ser mãe de todos e em pouquíssimas sessões, os sintomas, que já duravam 16 anos, sumiram e não voltaram mais”, relata a psicóloga Karina Rodrigues.

O hipocondríaco precisa ser ouvido. “Para quem convive com um, a indicação é ter paciência para ouvir as reclamações, sem se deixar levar. Não é preciso ir ao médico toda hora. Só de serem ouvidos, eles já se sentem melhor”, firma o psiquiatra e coordenador do Programa de Atendimento a Estudos de Somatização da Unifesp, Atílio Bombana.
Relação tensa com médicos

A relação entre médico e paciente hipocondríaco pode ser bastante difícil. “Eles tendem a procurar os médicos e a repetirem as mesmas reclamações no consultório. São detalhistas, sofredores e repetitivos. Não se convencem do que o médico fala. É preciso repetir, esmiuçar cada assunto e isso pode gerar uma relação problemática entre o profissional e o paciente.

Quando a relação com o médico entra em uma fase de desconforto, com o paciente sempre duvidando de sua palavra, não raro, os profissionais vão ficando cada vez mais inseguros em não encontrar o que ele relata e acabam solicitando exames cada vez mais invasivos e até mesmo cirurgias sem necessidade”, afirma o coordenador do Programa de Atendimento a Estudos de Somatização da Unifesp, o psiquiatra Atílio Bombana.

O aposentado D. L. G, 79 anos, conta que hoje se sente melhor, mas já se automedicou e também medicou muitos amigos. “Sempre me senti doente e ia atrás de médicos. Cada vez que um profissional dizia que eu podia ter tal coisa, eu já tentava descobrir outras pessoas que tinham, e daí pra frente os sintomas entravam na minha vida. Na minha época não tinha tanta informação como hoje, com a internet.

Hoje, percebi que muitas das minhas doenças estavam apenas na minha cabeça. Bastava eu pensar ou ouvir alguém dizer algo, que corria para o médico ou para a farmácia. Tenho certeza que várias vezes a secretária do meu médico disse que ele não tinha horário, mas, na verdade, ele não tinha mais o que me falar. Fui me curando aos poucos, ainda não estou 100%, e nem sei se terei tempo de estar, já que tenho 79 anos, mas me sinto menos neurótico”, relata.

 

Juliana Ribeiro – Diário da Região

 

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