Um ano após tragédia, moradores ainda temem linha férrea em Rio Preto

Morador teve casa atingida e ainda tem o imóvel, mas não morará mais lá. Descarrilamento de vagões invadiu casas e matou oito pessoas há um ano.

Uma das maiores tragédias ferroviárias do Brasil, o descarrilamento que matou oito pessoas emSão José do Rio Preto (SP) completa nesta segunda-feira (24) um ano. Desde o acidente muita coisa mudou no trecho do bairro Jardim Conceição, como a reforma da linha férrea e a demolição das casas atingidas, mas uma coisa ainda continua: a insegurança de morar no local da tragédia.

O gerente Marcos Marconi Silva, de 50 anos, é um dos poucos moradores que ainda continuam com uma casa no bairro. A residência dele foi parcialmente atingida pelos vagões no dia do acidente, e por pouco não atingiu a mulher e o filho dele. “Minha esposa e meu filho estavam no quarto e o vagão invadiu o quintal e parou a três metros de onde eles estavam. Eu não estava no local no dia, mas assim que cheguei o pessoal estava retirando vítimas, corpos, e eu ajudei a retirar entulhos, no que pude”, diz.

Um ano depois do desastre, Marconi ainda mora no mesmo bairro, em uma casa afastada a 50 metros de onde aconteceu o acidente. O aluguel da nova residência é pago até o fim deste ano pela ALL, concessionária que administra a ferrovia. A casa atingida está abandonada e o plano é de não voltar. “Não tem ninguém morando na casa atingida, não está interditada, mas vou colocar a venda o imóvel, já teve invasão de vândalos, tive desvalorização. Mas não dá para retornar, minha mulher tem trauma, não tem mais os vizinhos, vai se sentir insegura e a tristeza de morar aqui. Ela e meu filho, que presenciaram tudo, não gostariam de voltar para a casa. Meu filho diz que se for entrar no fundo de casa ele vai se lembrar de tudo”, afirma.

Mesmo sem perder parentes, o trauma na família de Marconi foi grande. Segundo ele, a mulher não gosta mais de passar pelo local e ainda vive a base de calmantes e que só a buzina do trem já a deixa preocupada. “Eram todos vizinhos, todos amigos nossos, as crianças que morreram sempre eu via brincando na rua. A gente se reunia com o pessoal e isso é coisa que acabou, vão se passar 10 anos eu vou passar por aqui e vou relembrar os destroços, as casas destruídas. É um trauma que vai ficar”, diz.

Quem mora próximo ao local da tragédia afirma que vive com medo de acontecer algum acidente novamente. O comerciante Marcelo Roberto Lopes da Silva mora a cerca de 100 metros do acidente e era amigo próximo de uma das famílias atingidas pelo vagão. Três casas foram atingidas e em uma delas estava sendo realizado um churrasco. “Foi muito triste, uma cena desesperadora, destroços, povo gritando, cena de filme de terror. Conhecia várias vítimas, minha filha ia brincar sempre com as crianças na piscina de uma das casas atingidas. Eu e ela poderíamos estar no local no dia do acidente. Eles sempre faziam churrasco de domingo e sempre me chamavam”, afirma.

Ele afirma ter medo de morar próximo a linha férrea e do trecho onde aconteceu o acidente. Apesar das melhorias feitas na linha férrea pela concessionária após a tragédia, ele afirma que ainda tem medo quando o trem passa.  “Tenho medo sim, ainda mais se acontecer um acidente com vagão de combustível. Mas nesse caso o vagão era de milho, mas também invadiu as casas. É muito perigoso, moro no quarteirão da frente do acidente, se o acidente fosse uns 100 metros mais para frente, poderia ter atingido minha casa”, afirma.

Se para quem não perdeu nenhum parente a tragédia ficou marcada, para quem perdeu familiares o acidente ainda causa muita comoção. A aposentada Luzia Dias da Silva diz que lembra todo dia daquele 24 de novembro. Ela estava em uma das casas atingidas pelo trem que descarrilou e sobreviveu. “Esse ano não foi fácil. Perdi cinco pessoas, um filho, duas noras, uma neta e uma bisneta. A bisneta com dois anos, a neta com 16, todas novas, com um futuro pela frente”, afirma.

Toda vez que ela tem de falar sobre a tragédia, a emoção toma conta da aposentada, que teve apenas ferimentos nos braços e na cabeça. Ela estava na casa onde havia uma reunião familiar na hora do acidente. “Não consigo esquecer, pode passar os anos, a gente não esquece. E toda fez a  gente fica emocionada. Nada mudou no local e nada vai mudar, o trem não vai sair de lá. Não pode deixar do jeito que está”, diz.

Indenizações
Em relação às indenizações, a ALL, América Latina Logística, afirma que já pagou 98% dos valores para as famílias. Na semana passada, ficou definido entre representantes da empresa e o Ministério Público que a ALL terá de pagar também R$ 2,5 milhões em uma indenização comunitária para entidades de Rio Preto.

Os gastos da empresa com indenizações chegam a R$ 10 milhões.  “Fechamos um termo no montante de R$ 2,5 milhões e vamos desembolsar esse valor em até 18 meses. O valor será para trabalhos filantrópicos que o MP nos apresentou. Essa indenização não tem nada a ver com as famílias. O valor total pago pelas famílias é de R$ 3 milhões. O conjunto de todas as indenizações são de R$ 10 milhões, em obras de segurança também”, afirma Pedro Roberto Oliveira Almeida, diretor de relações institucionais e jurídicas da ALL.

Além disso, a ALL fica responsável pela contratação da equipe técnica que vai realizar os trabalhos.  Grande parte deste valor, pelo menos 70%, deve ser pago no ano que vem e parte dessa indenização vai ser destinada ao Hospital Ielar. “Houve uma grave agressão à comunidade e ela precisa ser reparada. A reparação nesse caso, como não é possível trazer de volta as pessoas, é possível pagar um valor que se reverta em benefícios para a comunidade”, afirma o defensor público Júlio Tanone.

Causa do acidente
Para a ANTT, Agência Nacional de Transporte Terrestre, o trem estava acima da velocidade permitida no trecho no momento do acidente. Laudos da perícia também dizem que problemas na estrutura da malha ferroviária contribuíram para o descarrilamento.

O maquinista da composição prestou depoimento neste mês para a Polícia Federal e, de acordo com o depoimento, ele afirmou que estava a 44 km/h, mas achava que aquela era velocidade normal para o trecho. A velocidade máxima permitida no trecho, que é urbano e tem cruzamento em nível, é de 25 km/h – segundo a ANTT.

Em posicionamentos anteriores,  a ALL (América Latina Logística) “esclarece que o maquinista prestou todos os esclarecimentos à Policia Federal, reiterando que a composição trafegava dentro do limite de velocidade de segurança do trecho. O maquinista encontra-se afastado das suas funções por licença médica”, disse a nota.

A ALL também reiterou na época, em nota, que “o trecho onde ocorreu o descarrilamento estava em condições adequadas de manutenção e segurança, apresentando  nível superior ao exigido pela Agência Reguladora. O laudo realizado pelo Instituto de Criminalista e demais Órgãos Técnicos Especializados comprovaram que a causa do descarrilamento não se relacionou  à velocidade da composição, e sim ao colapso imprevisível do solo”.

Relembre o caso
Nove composições carregadas com milho descarrilaram por volta das 17h do domingo, 24 de novembro de 2013, no Jardim Conceição, em Rio Preto, atingindo duas casas e afetando outras duas. Foram confirmadas oito mortes, entre os mortos duas crianças (de 2 e 6 anos), quatro mulheres (uma delas grávida) e dois homens. Outras sete pessoas foram socorridas pelas equipes de resgate do Corpo de Bombeiros e do Serviço de Atendimento Médico de Urgência (Samu) e encaminhadas para o Hospital de Base e a Santa Casa da cidade.

Em nota ao G1, na época, a ALL disse que  “a concessionária responsável pela operação no trecho lamenta profundamente a fatalidade ocorrida e se solidariza às famílias e vitimas, a quem dará todo suporte e apoio. G1

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