Transtorno mental: o isolamento não é a cura do paciente dependente químico

“Não é a doença que deve estar em pauta, e sim o indivíduo”, dispara o coordenador da rede de saúde mental, Reinaldo Carvalho

 

O Caps AD (Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas) – “Sabina Antonio de Oliveira” conta atualmente com mais de 300 pacientes ativos, sendo que em um ano, o órgão atendeu 612 pacientes.

 
Neste ano, o Caps AD atendeu na questão psicológica, 614 pacientes. Já com consultas psiquiátricas, o órgão atendeu 729 pessoas. Os pacientes com os casos mais graves possuem tratamento intensificado, das 8h às 17h. Em média por dia, o Caps atende de 15 a 20 pessoas.

 
De acordo com o coordenador da rede de saúde mental de Votuporanga, Reinaldo Carvalho, o Caps AD visa tratar o transtorno mental, não necessariamente de dependente químico.

 

O transtorno mental provém também da dependência química, sendo que essa é entendida como uma mudança de comportamento. “Os dependentes químicos normalmente têm comportamentos não aceitos para a sociedade, ou seja, fazendo com que em torno disso surja o isolamento”.

 
Totalmente contra a forma de tratamento para dependentes químicos ser o isolamento, Reinaldo declarou como essa proposta começou no mundo. “Em 1820, essa proposta de isolar o indivíduo que não tem condições de conviver em sociedade gerou a reforma psiquiátrica”.

 

A Reforma Psiquiátrica
Segundo Reinaldo, a Reforma Psiquiátrica pretendia construir um novo estatuto social para o doente mental, que lhe garanta cidadania, o respeito a seus direitos e sua individualidade, promovendo seu resgate da capacidade de participar do universo das trocas sociais, de bens, palavras e afetos e sua cidadania, inclusos aí não só seus direitos como seus deveres como cidadão. Já no Brasil, a reforma psiquiátrica foi adotada na década de 1980, ou seja, é uma reforma recente. “Quando essa reforma chegou ao Brasil, os grandes manicômios já existiam, e com isso, também surgiu o movimento da luta antimanicomial – que nasce marcada pela ideia de defesa dos direitos humanos e de resgate da cidadania dos que carregam transtornos mentais”.

 
Essa Reforma Psiquiátrica é mais do que denunciar os manicômios como instituições de violência, e propõe a construção de uma rede de serviços e estratégias territoriais e comunitárias, solidárias, inclusivas e libertárias.
Diante disso, nasceu o Caps, que começou a tratar de transtornos mentais. “Com o nascimento do Caps, surge também uma sequência histórica de vários serviços para substituir o manicômio”.

 
Para o coordenador da rede de saúde mental, alguém que estiver em tratamento e vivendo isoladamente, não conseguirá mais conviver em sociedade. “O Caps é uma reabilitação psicossocial, que visa cuidar da falta de habilidade que o indivíduo tem de se socializar, isso inclui a falta de socialização da população com o indivíduo também. A maioria das pessoas pensa que o dependente químico é um drogado que precisa se manter distante da sociedade”.

 
O coordenador detalhou que na década de 2000, aparece uma lei que regulamentava os serviços de saúde sobre os direitos dos portadores de transtornos mentais. Aparecendo também a criação de mais serviços que não tirassem os pacientes do convívio social.

 

Caps AD
Em 2006 saiu uma portaria do Caps AD – portaria mais recente, que trata das necessidades do indivíduo que possui transtorno mental. O Caps AD toma uma proporção maior, é vinculado a várias coisas, entre elas o fechamento da cracolândia. “Ultimamente, as pessoas estavam tratando a dependência química como se ela fosse virar uma pandemia, influenciando no seu âmbito comportamental, prejudicando o indivíduo a arrumar um emprego. A sociedade não consegue enxergar que o Caps resulta tratar do afeto do indivíduo, do trabalho, da família, amigos. A maioria dos profissionais que lidam com isso não pensa no indivíduo por si só, não querem saber o porquê de ele usar drogas, eles querem saber de tratar da doença e não do próprio indivíduo. Aqui no Caps, a gente trata do indivíduo”.

 
No Caps AD, o paciente encontra a família adequada, o tratamento adequado, uma religião. “O que atrapalha muito o entendimento é a questão de que as pessoas não conseguem visualizar a doença, o modelo da doença. Não é a doença que deve estar em pauta, e sim o indivíduo”, afirma Reinaldo.

 
Segundo Reinaldo, no Caps AD, o indivíduo está protegido do mundo das drogas, ele compartilha a necessidade da angústia. Para ele, a população entenderá em breve, a forma desse tipo de tratamento. O órgão é um equipamento de função básica, que deve ser escolhido, escutado, e deve ser um local que acolhe o indivíduo em seu momento de necessidade.

 
Os tipos de tratamentos que são realizados no Caps AD são: acolhimento, terapia – de acordo com a necessidade do paciente para inseri-lo novamente a um convívio social. No órgão, os profissionais proporcionam ao paciente o tratamento de consulta individual, consulta médica, tratamento com psicólogos, psiquiatras, oficinas de artesanato, atendimento em grupos, entre outros. “As pessoas não conseguem entender que o tratamento não está somente no remédio. É claro que o remédio é fundamental em certo ponto, mas não sabem o que realmente é necessário ao paciente”.

 
O órgão não tem um custo ao paciente ativo, segundo Reinaldo, o Ministério da Saúde, propôs um recurso financeiro com um repasse de R$ 58 mil mensais, em que são disponibilizados para arcar com as despesas em geral dos pacientes, salários dos funcionários, estabilização do órgão, etc. Para ele ainda, o recurso é pouco.
Normalmente, o Caps AD atende mais os pacientes adultos, mas o órgão também proporciona um dia da semana, a quarta-feira, para atender a população adolescente. De acordo com Reinaldo, o ECA (Estatuto da Criança e do Adolescente) não permite a intervenção para que o dependente químico adolescente conviva com o paciente adulto. “Mesmo existindo o Caps Infantil, que acolhe as necessidades das crianças, eles encaminham o adolescente que possui esse transtorno mental para o Caps AD”.

 
Para o coordenador, apenas um dia da semana disponibilizado para atender o adolescente é pouco, e que está cada vez mais precoce a população jovem entrando no mundo das drogas.

 
“Há 12 anos eu trabalho com isso, com o transtorno mental, e nunca vi a população jovem procurar tanto a gente como está procurando atualmente. O que acontece também é que a Vara da Infância e Juventude acha que o tratamento é penalizar o indivíduo”.

 
De acordo com Reinaldo, o dependente químico não tem ao certo, um tempo adequado para ficar se tratando no Caps. Depende da complexidade do caso de cada paciente, “tem paciente que fica um mês, outro seis meses, outro três anos, isso varia muito”.

 
Atualmente, quando o paciente precisa ser internado de imediato, ele não fica mais tanto tempo na clínica. O tempo adequado é de 15 a 30 dias, sendo este, o período de desintoxicação. Quando ele cumpre esse tempo, há o retorno para o Caps, e depois ele recebe a alta.

 
Reinaldo Carvalho deixou claro que não é contra a internação compulsória, mas que prefere que o paciente crie um vínculo com o profissional da área, para que ele possa se sentir confortável e para que o profissional consiga reajustá-lo ao convívio social.

 
Já no caso do alcoólatra, o coordenador declarou que ele estranha a convivência com o dependente químico. “Fica uma situação rival, as necessidades do perfil de cada um são diferentes, mas não conseguem ver o outro como alguém que precisa de ajuda”, finaliza.

 

 

Paola Munhoz – Diário de Votuporanga

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password