Mas qual é a dimensão da seca chilena e qual o papel das mudanças climáticas em tudo isso?
Segundo a meteorologista María Alejandra Bustos, embora tenham sido observadas secas comparáveis à atual no Chile, como as dos anos 1998, 1988, 1968 e 1924, a grande diferença é que essa crise hídrica ocorre durante um período de 10 anos secos consecutivos.
“Isso faz com que ele tenha características mais agudas. E, além disso, a frequência desses eventos tem aumentado”, disse Bustos à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.
O pesquisador do Escritório de Mudanças Climáticas do Chile acrescenta que “a tendência média de precipitação entre 1961-2018 diminuiu em 23 mm por década para todo o país, uma queda particularmente concentrada nas zonas central e sul”.
Em relação à importância das chamadas mudanças climáticas para a escassez de água no Chile, existem diferentes posições.
María Alejandra Bustos afirma que, enquanto o Centro de Ciência do Clima e da Resiliência, conhecido como (CR) 2, ressalta que cerca de um quarto do déficit de chuvas é atribuível à mudança climática antrópica, existem outras publicações – como uma recentemente desenvolvida pela Fundação Chile – que determina que, dentre as causas, apenas 12% dessa queda pode ser explicada por esse fator.
Mesmo assim, há uma coincidência no fato de que a desertificação esteja avançando nos solos do norte, centro e sul do Chile. Esse fenômeno – que tem a ver com a degradação do solo – afeta a produtividade, a biodiversidade e o ecossistema como um todo.
Segundo um relatório recente publicado pelo Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC), a desertificação afeta 2,7 milhões de pessoas em todo o mundo.
Na investigação, chamada “Mudança climática e terra”, há um capítulo especial sobre o Chile, que afirma que a erosão do solo afeta 84% do território da região de Coquimbo, 57% do território de Valparaíso e 37% do solo na área de O’higgins.
Francisco Meza foi o único chileno que participou da elaboração do relatório. O pesquisador, do Centro de Mudança Global da Universidade Católica do Chile, diz que o processo de desertificação está avançando por duas razões.
“Primeiro, porque vemos sinais de erosão e perda de capacidade produtiva da terra, e também porque estamos passando por uma seca muito importante. Foi o que mais nos impactou nos últimos dez anos”, disse ele à BBC News Mundo.
Agora, há quem afirme que os limites do deserto de Atacama – o mais seco do mundo – esteja se movendo para o sul.
Com base em um relatório chamado Atlas de Mudanças Climáticas da Zona Árida do Chile, a meteorologista María Alejandra Bustos diz que, enquanto a zona central do Chile sempre teve um “regime semi-árido”, as tendências do regime de aridez mostram um avanço do limite do deserto em direção ao sul”.
Francisco Meza, entretanto, diz que o deserto está avançando “porque estamos experimentando uma tendência muito forte de aridez e porque vemos padrões muito acentuados de degradação da terra”.
No entanto, ele esclarece que esse avanço não é físico. “Não é que as areias estejam se movendo para o sul”, diz ele.
Para o acadêmico, essa desertificação não tem apenas a ver com fatores climáticos. O manuseio inadequado da terra – como a exploração excessiva e a falta de medidas de restauração – também é um ponto fundamental na explicação da degradação.
“Quando a terra é degradada dessa maneira, a riqueza das espécies é empobrecida, então você perde a diversidade e o ecossistema é enfraquecido”, explica Meza.
Obras de irrigação e investimento
Atualmente, existem 56 municípios sob um decreto de escassez de água em cinco regiões do Chile: Coquimbo, Valparaíso e Metropolitana, O’Higgins e Maule. Mais de 100 localidades, entretanto, foram declaradas zonas de emergência agrícola.
Segundo o governo, os fluxos fluviais nessas áreas têm déficits de até 84% em comparação com as médias históricas. “As mudanças climáticas chegaram para ficar e temos que agir”, disse o ministro da Agricultura do Chile, Antonio Walker.
O ministro acrescenta que “a desertificação é uma realidade e o grande desafio agora é como lidar com esses solos degradados e transformá-los em matéria orgânica e de alto carbono”.
Para fazer isso, Walker diz que grandes obras de irrigação devem ser produzidas. “Não construímos a infraestrutura de irrigação para tirar proveito da água. Precisamos fazer reservatórios, uma nova institucionalidade da água, tratar esgotos, entre outras ações”, diz ele.
“Esta é uma estação muito difícil, e a seca é mais grave do que a de 1968, porque, com a mesma pluviosidade, temos uma agricultura, uma economia e uma população muito maiores”, acrescenta o ministro.
Mas, até que esses investimentos sejam feitos, a verdade é que produtores e fazendeiros como Aldo Norman não encontrarão uma solução a longo prazo.
A única saída, diz Norman, é migrar para o sul ou desistir da criação de gado. “Não vamos aguentar mais um ano seco”, lamenta.
FONTE: Informações | BBC NEWS