Santa Casa recebe até oito casos por mês de grávidas dependentes químicas

Médicos do hospital alertam sobre a importância em se falar destes casos, que aumentaram consideravelmente nos últimos anos na cidade

O abuso de drogas durante a gestação é um problema muito grave tanto para a mãe como para o recém-nascido. Em Votuporanga, a Santa Casa chega a receber quase oito casos ao mês, de mulheres grávidas que sofrem de alguma dependência química.

“Vivemos hoje com esta doença endêmica em nosso meio social, onde deparamos com 1 a 2 casos por semana desta condição em nossas enfermarias”, informa o médico pediatra Antônio Seba Júnior, que também é presidente do Comitê de Perinatologia do hospital.

Há muitos fatores envolvidos nas consequências tanto para a mãe como para a criança. “Notamos que este problema vem crescendo muito, com importantíssimas complicações médicas, sociais e psicológicas, que envolve todos os profissionais destas áreas e que necessita de abordagem mais ampla, rápida e eficaz”, diz Seba.

 

Perigos para o bebê

Quando a mãe é usuária de droga, para o recém-nascido, há maior risco de parto prematuro, restrição de crescimento intra-útero, baixo peso ao nascimento, crescimento físico inadequado, distúrbios cognitivos e neurológicos permanentes. Há também casos de Síndrome de Abstinência Aguda no período neonatal imediato, com sintomas graves como crises convulsivas, apneia, dificuldades para alimentação e ruptura prematura de membranas amnióticas evoluindo para Septicemia.

“Com frequência alta, há concomitância com doenças sexualmente transmissíveis (DST), como HIV, Sífilis e Hepatite B ou C. A Síndrome de Abstinência ocorre com qualquer droga, principalmente com Heroína e Cocaína”, relata o médico pediatra.

O médico ainda informa que no pré-natal, é importante a detecção inicial do problema, para posterior acompanhamento médico, social e psicológico. É essencial também a detecção de DSTs, apoio psicológico e acompanhamento periódico de consultas (geralmente negligenciadas pela paciente).

“A Santa Casa de Votuporanga vem continuamente se aperfeiçoando a esta grave, preocupante e crescente condição clínica, com importantes sequelas tanto para a gestante como para o recém-nascido, através de assistência peri e intraparto eficaz, cuidados especializados com equipe pediátrica e de UTI Neonatal, assistência psicológica e social com encaminhamento às autoridades judiciais competentes (Juizado da Infância e Juventude)”.

 

Perigos para a mãe

O médico ginecologista e obstetra Fernando Faria alerta que a mãe também sofre com a dependência, e a equipe médica tem que ter muita cautela.

“Em caso de atendimento de gestante sabidamente dependente química, uma atenção especial é necessária. Fazemos uma avaliação criteriosa da vitalidade fetal e rastreamento de malformações, atenção especial para quadros de abstinência que são comuns nestes casos, além de apoio psicológico”, esclarece.

Nos casos em que o atendimento é realizado em virtude do nascimento, os recém-nascidos normalmente são abordados com cuidados intensivos para enfrentar crises de abstinências importantes, comuns nestes quadros.

“Mesmo quando as crianças nascem bem, necessitam de atenção especial, pois costumam apresentar como intercorrências graves crises de abstinência, com tremores, agitação psicomotora, crises convulsivas, dificuldades para alimentação, perda de peso acima do padrão normal, entre outras”, diz Faria.

 

Comitê

Na Santa Casa de Votuporanga existe o Comitê de Perinatologia, que é composto por uma equipe multidisciplinar com médicos (pediatra e ginecologista), enfermeiros, psicóloga, ouvidora, fisioterapia, gerente de atendimento, entre outros. O Comitê desenvolve ações de melhoria e assistência, pensando nas pacientes na rede de assistência do município ou em atendimentos no hospital.

“Em relação aos cuidados de assistência às pacientes com histórico de envolvimento com drogas, buscamos orientação e capacitação relacionada à parte médica e jurídica, e confeccionamos um protocolo de atendimento especifico, buscando assegurar um atendimento humanizado, seguro e assertivo”, diz a ouvidora Andrea S. Boiati..

“Trabalhamos verdadeiramente integrados entre equipes (hospital, Secretaria de Saúde, Conselho Tutelar e Ministério Publico) para que a paciente e o recém-nascido tenham todo o atendimento, encaminhamento e informações possíveis”.

 

Secretaria de Saúde investe em programas de acompanhamento para essas mães

De acordo com a Secretaria de Saúde de Votuporanga, em 2013, sete gestantes apresentaram dependência química no Pré-Natal na cidade. Como as Unidades de Saúde trabalham com pacientes de uma área conhecida, com todas as famílias cadastradas e acompanhadas por agentes comunitários de saúde, se em um caso específico, a mulher for sabidamente uma usuária e/ou dependente química, é realizado um comunicado ao Comitê de mortalidade materno-infantil.

“Uma comissão de profissionais técnicos de vários serviços se articulam para apoiar a Unidade de Saúde na realização desse Pré-Natal: Caps – AD (Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas), SAE – DST/Aids (Serviço de Atendimento Especializado), AME, Santa Casa, Creas, Cras, Prosad (Programa de Saúde do Adolescente) e Serviço de Acolhimento”, informa a secretaria.

A secretaria alerta que com esse trabalho, no ano passado, nenhuma destas gestantes dependentes químicas evolui para óbito materno-fetal ou infantil. Após o nascimento, a criança também foi incluída em um programa de acompanhamento para o crescimento e desenvolvimento.

“Além de investir na Estratégia da Saúde da Família, que também favorece a identificação do problema da dependência química, e no Caps – AD, serviço especializado nos diversos tratamentos e abordagens, investimos em estratégias de prevenção trabalhadas com famílias, escolas e comunidades que buscam o desenvolvimento saudável e seguro de crianças e jovens”, conta a secretária de saúde Fabiana Parma.

Fabiana ainda alerta que certos fatores de risco deixam essas mulheres em vulnerabilidade para iniciar o uso de drogas. “Processos biológicos, traços de personalidade, transtornos mentais, negligência e abuso na família, falta de vínculo com a escola e com a comunidade, normas sociais propícias e ambiente favorável ao uso, crescimento em comunidades marginalizadas e carentes são alguns exemplo de como estas mulheres podem cair neste mundo”.

Esse trabalho de prevenção da secretaria é feito também em parceria com as entidades que recebem recursos públicos da saúde: Comunidade Nova Vida, Associação Antialcoólica, Amor Exigente, Comunidade São Francisco de Assis, objetivando promover em crianças e jovens o bem estar emocional, habilidades sociais, forte apego aos pais, vínculo com a escola e com comunidades bem preparadas.

Todas as Unidades de Saúde do município realizam gratuitamente o teste de gravidez na urina, durante todo o horário de funcionamento, para mulheres que apresentam atraso menstrual. Caso o resultado dê positivo, a equipe de enfermagem do acolhimento já realiza um cadastro desta paciente e solicita os exames complementares necessários para o retorno com o médico. Isabela Jardinetti/O Jornal

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