Região de Rio Preto tem 5,6 mil foragidos

Na esteira do ex-médico Roger Abdelmassih, que ficou três anos foragido no Paraguai para se desvencilhar da condenação por estupro e só foi capturado na última semana, 5,6 mil escaparam da cadeia na região de Rio Preto e hoje seguem livres. Entre eles estão condenados pela Justiça ou acusados pelo Ministério Público de crimes graves, como homicídios (260), narcotráfico (499), estupradores (31) e corrupção. Muitos guardam vínculos estreitos com o PCC e o Comando Vermelho (CV).

Os números foram fornecidos pelo Departamento de Polícia Judiciária do Interior (Deinter-5) com base na Lei de Acesso à Informação. Incluem foragidos dos últimos dez anos. Enquanto não são capturados, muitos deles permanecem no crime, principalmente o tráfico de drogas. Celso Rodrigo Carneiro, 32 anos, réu em quatro processos por tráfico em Catanduva, fugiu com outros 25 presos da carceragem da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Rio Preto em setembro de 2012.

A maior fuga da história da carceragem foi motivada por uma suposta distração do carcereiro. A maioria seria recapturada, mas Celso fugiu para Pedro Juan Caballero, Paraguai. Em pouco tempo se tornaria fornecedor de drogas e armas para Carlos Henrique dos Santos Gravini, uma das lideranças do CV que, mesmo preso no complexo de Bangu, controlava o tráfico na favela Cidade Alta, zona norte carioca. O esquema foi desvendado pela Polícia Federal na Operação São Domingos, deflagrada em março deste ano.

A droga e o armamento eram levados em carros e caminhões até um depósito em Catanduva, de onde acabavam despachados para o Rio de Janeiro. “Vai 115 de fumo”, escreveu Celso para Gravini, em mensagem de celular, em julho de 2013. “Ah valeu irmão e munição também!”, respondeu Gravini. Em outro contato, dessa vez com Warlen Pereira Matos, “embaixador” do CV em Catanduva, esse pergunta a Celso se parte da droga ficaria no Noroeste paulista ou se tudo iria para o Rio: “Ai vc vai tira aki,, ou vai td pra la”, perguntou Warlen.

“E tudo pra laaaa”

O carregamento, 155 quilos de maconha e 360 cartuchos de munição para fuzil, foi apreendido em julho do ano passado na região de Catanduva, a caminho do Rio de Janeiro. Warlen seria preso em março último. Celso permanece no tráfico, baseado no Paraguai. A PF suspeita que o país vizinho também abrigue Gilson Torres, um dos líderes do PCC na região que comandava o tráfico em Catanduva ao lado do irmão, Gilberto. Ambos foram alvo da PF na Operação Gravata, de 2012. Só Gilberto e a mulher foram detidos no início do ano em Ribeirão Preto, após um ano e meio foragidos.

Outro poderoso traficante foragido ligado ao PCC é Juliano Alves Domingues, 36 anos. Em janeiro de 2011, ele foi alvo de investigação da Delegacia de Investigações Sobre Entorpecentes (Dise), suspeito de chefiar um esquema de distribuição de cocaína em Rio Preto. Juliano Gordão, como é conhecido, foi gerente do tráfico comandado por Mário Sérgio da Costa, o Esquerda, um dos líderes do PCC no Estado. Com a morte do patrão, em 2007, ele assumiu o controle do comércio de drogas e enriqueceu – morava em condomínio fechado em Rio Preto. Quando a Dise desencadeou a operação, Juliano conseguiu escapar. Nunca mais foi visto.

Latrocínio

Saber que um dos assassinos do filho – vítima de latrocínio (roubo seguido de morte) ocorrido há seis anos em Mirassolândia – está solto incomoda o comerciante Antonio Freitas Assunção Filho, 53 anos. Quatro homens e uma mulher invadiram o sítio dele, levaram R$ 15 mil em dinheiro e cheques e agrediram o comerciante e o filho dele, Juliano, então com 28 anos, com socos, facadas e pauladas. Antes de saírem, um deles deu sete tiros de pistola contra os dois. Juliano não resistiu. Em 2010, o grupo foi preso, exceto Everton Junio dos Santos, 33 anos, que nunca foi capturado.

“É uma justiça que não é total. Ele precisa ser punido pelo mal que fez. Saber que ele está solto machuca muito”, afirma Antonio. A Polícia Civil diz investigar o paradeiro de todos os foragidos, sem exceção. “Todos deixam rastros na fuga. Uma hora ou outra surge uma pista e conseguimos a recaptura”, afirma o delegado-assistente do Deinter-5, Raymundo Cortizzo Sobrinho.

Merendeira teme reencontrar ex-marido

A merendeira Maria Aparecida Rosa, 42 anos, teme reencontrar o ex-marido e repetir as cenas de horror que viveu com ele por 18 anos. Seu pesadelo começou em 1989, quando se casou com o sitiante Ary Hernandez Castijo na pequena Pedranópolis, próxima a Fernandópolis. Levada para o sítio, não sairia de lá até maio de 2008, quando a Polícia Civil invadiu a propriedade e libertou a mulher.

Nesse tempo todo, era submetida a trabalhos forçados – como ordenhar 100 litros de leite em um único dia – e proibida de deixar o local. Também não poderia ter contato com a família, sob pena de chicotadas e ameaças armadas. O cárcere só teve fim quando a mãe, Adelaide de Oliveira Lima, soube que a filha corria sério risco de morte. Tomou coragem e procurou a polícia. Ary foi preso em flagrante no sítio.

À polícia, a mulher disse ter perdido a conta das surras que levou do violento marido. Também era obrigada por Ary a manter relações sexuais com ele. As duas filhas do casal presenciaram boa parte das agressões e relataram tudo à polícia. Em dezembro de 2008, o sitiante ganhou na Justiça o direito de responder ao processo em liberdade. No ano seguinte, o juiz da 1ª Vara Criminal de Fernandópolis, Evandro Pelarin, o condenou a 44 anos e seis meses de prisão por estupro, constrangimento ilegal, atentado violento ao pudor e redução à condição análoga à escravidão.

Em 2010, o Tribunal de Justiça manteve a condenação, exceto para o crime de redução à condição de escravidão. “Privada da liberdade de autodeterminação, a vítima se sentiu e foi realmente constrangida psicologicamente, pois, aterrorizada com as constantes ameaças e ainda temendo pelas filhas, não tinha coragem para sair de casa”, escreveu o desembargador do TJ Fernando Torres Garcia.

Com a decisão do Tribunal, a Justiça determinou a prisão de Ary em setembro do ano passado. Mas ele não foi mais encontrado. “Ele visitava minha filha mais nova, mas desde março de 2013 sumiu”, diz Maria. Ela disse temer por alguma reação violenta do ex-marido. “Tenho medo que ele volte. Enquanto ele não aparecer, tá bom.” Procurado na última quinta-feira, o advogado de Ary, Gesus Grecco, não foi localizado.

Assassina fugiu após pizza na cadeia

Algumas pizzas livraram Eliane Bento de Souza, 37 anos, de pagar a pesada pena imposta a ela pela Justiça por mandar matar o próprio marido, em 2010: 27 anos de prisão por homicídio qualificado. Era noite do dia 9 de outubro de 2011 quando um grupo de presas da cadeia feminina de Santa Adélia pediu para a carcereira encomendar três pizzas, sabores portuguesa, quatro queijos e calabresa. Quando ela abriu o portão de acesso às detentas, foi rendida e trancada na cela.

Com o molho de chaves em mãos, nove das 33 presas da cadeia abriram os demais portões e fugiram. Oito seriam capturadas nos meses seguintes, menos Eliane, que estava presa preventivamente, à espera do julgamento que só veio a ocorrer neste ano, em Rio Preto.

O encanador Heliezer Elias de Castro, 34, era casado com Eliane havia 15 anos e tinha três filhos. Ele foi morto com um tiro na cabeça, em um cruzamento do bairro Dom Lafayette, zona norte, no início da noite de 13 de julho de 2010. Eliane estava no carro na hora do assassinato e disse inicialmente à polícia que ele reagiu a um assalto. Um dia depois do enterro dele, ela foi presa.

As investigações apontaram que a viúva prometeu R$ 5 mil a quatro rapazes em troca da morte do marido – todos também foram condenados. O objetivo dela, segundo a polícia, era ter acesso aos R$ 30 mil do seguro de vida dele. “Fica a sensação de impunidade, já que, mesmo condenada, ela está livre por aí”, afirma a tia de Heliezer, Jandira Oliveira, 56 anos. “Se o Roger Abdelmassih, que é rico, foi preso, ela também vai ser um dia”, diz a tia.

Foragido ameaça família da vítima

Um exemplo de como o assassinato de uma pessoa pode afetar a vida todos que estão ao redor é a morte de Aline Camila da Silva Barboza, de 23 anos. A jovem foi morta a facadas em um apartamento no Parque das Nações, em Votuporanga, no dia 16 de fevereiro deste ano. O único suspeito é João Henrique Rodrigues Cassiano, de 19 anos, conhecido por “Buiú”. Ex-marido da vítima, Buiú estava com ciúmes de Aline, que nos seis meses anteriores ao crime manteve um relacionamento amoroso com Marcos Paulo da Silva Araújo, de 22 anos. Aline recebeu cerca de 15 facadas e despencou da janela do apartamento, que fica a nove metros do solo.

Durante vários dias após o crime Buiú e Marcos Paulo trocaram mensagens com ameaças por meio de suas páginas do Facebook. O suspeito, inclusive, admitiu ser o culpado pela morte e ameaçou o namorado de Aline. “Marcos Paulo ‘vo volta pra buscar vc’ (…) Talarico não tem vez”. Talarico seria gíria para homem que “rouba” a mulher de outro. Buiú nunca foi preso pelo homicídio. Desde então é considerado foragido, já que tem contra si um mandado de prisão preventiva. A família de Aline afirma que ele tem feito ameaças constantes, sendo visto por diversas vezes a rondar a casa que a jovem morava.

Com medo, a irmã S., de 33 anos, precisou mudar de Votuporanga com toda a família. “Ele deixou um bilhete na casa da minha outra irmã, falando que a Aline era vagabunda e que tinha a matado mesmo. No bilhete estava escrito também que ele vai voltar dentro de três anos para me matar, assim como meu marido, minha mãe, minha filha de 12 anos e o Marcos Paulo”, conta a irmã de Aline.

Ex-prefeito é réu em 39 processos

Há três anos o ex-prefeito de Severínia Mário Lúcio Lucatelli foge da cadeia. Babão, como é conhecido na cidade, tem contra si dois mandados de prisão, expedidos em processos judiciais decorrentes de corrupção em seu governo, que durou de 1997 a 2000. Em um deles, foi condenado pelo Tribunal de Justiça a quatro anos e dez meses de prisão, em regime semiaberto, por crime de responsabilidade de prefeitos. Em maio e junho de 1997, Babão teria comprado combustível para os veículos da prefeitura com dispensa de licitação, no valor total, não corrigido, de R$ 3,7 mil.

No outro crime pelo qual é procurado, o ex-prefeito foi condenado a dois anos e nove meses de prisão em regime semiaberto por crime de responsabilidade de prefeitos e fraude à lei de licitações. Ele teria fraudado um certame na modalidade carta-convite para recuperar a lagoa de tratamento de esgoto da cidade. Segundo o TJ, uma empresa “fantasma” venceu a licitação.

Babão responde ainda a outras dez ações criminais por desvio de dinheiro público e mais 28 ações por improbidade administrativa. Em 15 dessas últimas, foi condenado a ressarcir R$ 860 mil aos cofres públicos e a pagar R$ 599 mil em multas, um total de R$ 1,45 milhão. Mas até agora nada foi pago. Ele também foi investigado pela CPI do Narcotráfico da Assembleia Legislativa em 2000, por suspeita de lavar dinheiro do tráfico, mas nada foi provado. A suspeita entre os moradores de Severínia é de que o ex-prefeito esteja no oeste da Bahia. Diarioweb

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