Rapaz velado vivo acha história muito ‘louca’

Um dia após ser confundido com um rapaz morto e “velado” pela família por engano, o jovem Ewerton dos Santos, 23 anos, já estava de volta ao galpão abandonado da Fepasa, em Mirassol, onde nos últimos dois anos divide espaço com mais seis andarilhos. Tímido e educado, ele conversou com a reportagem e disse que “foi uma história muito louca”.

O jovem admite ser usuário de entorpecentes e esteve internado outras duas vezes. Na última segunda-feira à noite deixou o hospital de Mirassol, após três dias se recuperando de uma pneumonia. “Não aguentei a abstinência e disse para a enfermeira que iria sair, e saí”, disse. Era o início da confusão.

No manhã do dia seguinte, os bombeiros atenderam uma ocorrência no centro de Mirassol após um rapaz passar mal. Era Lucas Guilherme Casemiro, 18 anos, que não resistiu e acabou morrendo. Natural de Getulina, próximo a Lins, ele estava na cidade desde o final de semana visitando a mãe e o irmão mais velho.

Quando morreu, Lucas estava sem documentos e uma atendente acabou o identificando equivocadamente como sendo Ewerton, que é bastante conhecido na cidade por frequentar programas sociais. Depois o corpo encaminhado ao IML (Instituto Médico Legal) para autópsia.

“Me ligaram por volta das 10h40 na empresa dizendo que meu filho tinha morrido. Você fica transtornado”, lembra Adauto dos Santos, 52 anos, pai de Ewerton. Ele confirma que foi ao IML e, ainda abalado, teria até ajudado a carregar a maca com o corpo. “Na hora olhei, parecia muito ele, o nariz é igual”, disse.

“A gente tinha conversado um dia antes, estava tudo certo. Dai, na terça-feira ela me ligou e disse que não precisa mais da vaga, que o filho tinha fugido do hospital e tinha morrido”, lembra a diretora do departamento de ação social de Mirassol, Maria José Sacchi. “Estranhamos a história, mas ia fazer o quê?”

Segundo ela, na quarta-feira pela manhã uma assistente social do centro encontrou um andarilho que convive com Ewerton e disse que ele estava vivo, que o morto que estava sendo velado não era ele. “Ficamos surpresos, daí foram rodar a cidade e acharam ele cruzando o pontilhão”, afirma Maria José.

Ewerton foi colocado no carro e levado até o velório. Ficou aguardando na esquina enquanto assistentes sociais foram chamar a família. Lá dentro estavam o pai a mãe e alguns conhecidos “Cheguei e a mãe dele estava sentada ao lado do caixão. Na hora que olhei vi que não era o filho dela”, recorda Maria José.

Desfeito o engano, depois de 13 horas o velório foi interrompido e todos encaminhados para a delegacia. Foi o delegado Eder Galavoti Rodrigues quem lembrou que, no dia anterior, terça-feira, a mãe de Lucas Casemiro havia registrado um boletim de ocorrência por desaparecimento. A família então foi acionada e reconheceu o corpo.

Por 20 minutos

A responsável pela cemitério Simone Cristina de Souza, 39 anos, disse que “por 20 minutos” o corpo de Lucas não foi sepultado pela família errada. “O enterro era para as 13 horas, mas por volta das 12h40 a assistente social me ligou dizendo que quem estava sendo velado não era o Ewerton, que ele estava vivo”, lembra. “Daí paramos tudo”, completa.

Ainda segundo Cristina, em onze anos trabalhando no cemitério essa é a primeira vez que isso acontece. “Não lembro de uma história assim, que a família velou por tanto tempo o corpo e não percebeu. É muito estranho”, disse. Na funerária São Pedro, que preparou o corpo para o velório, o agente Antonio Vanderlei Marcelino, 63 anos, disse que nunca aconteceu caso semelhante. “Tenho 44 anos de papa-defunto e nunca vi isso”, afirmou.

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