Quatro parentes solicitam a guarda de menina maltratada em Araçatuba

Irmãos da avó materna também entraram na Justiça pedindo a guarda. Além deles, o pai e a avó materna já haviam ingressado com o pedido

Os dois irmãos da avó materna da menina que supostamente foi torturada pelo padrasto Maurício Moraes Scaranello, em Araçatuba (SP), entraram nesta terça-feira (7) na Justiça com o pedido de guarda da criança, que continua em um abrigo sob cuidados do Conselho Tutelar. Além deles, o pai e a avó materna já haviam pedido na Justiça para ficar com a guarda da menina. Com isso, quatro pessoas brigam pela guarda da criança. A Justiça ainda analisa os casos.

Segundo o advogado do pai, Vitor Donisete Biffe, a vistoria na casa de Anderson Luiz de Souza, de 35 anos, já foi realizada para saber se a menina terá condições de ir para a casa do pai. “Segundo o pai, deu tudo certo na vistoria. Acredito que esta ação dos irmãos é uma tentativa de manter a criança perto da mãe. Não vejo motivo de tirar do pai a guarda e passar para um parente mais distante”, afirma o advogado. Anderson entrou com pedido de guarda da criança no último dia 30 de setembro.

O empresário de 35 anos, preso por suspeita de maltratar a enteada de dois anos em Araçatuba, foi transferido da penitenciária de Andradina (SP) para o presídio de Presidente Venceslau (SP) nesta segunda-feira (6). A mudança de presídio foi definida pela Secretaria de Administração Penitenciária (SAP), por conta da grande repercussão do caso. O advogado do empresário deve entrar com pedido de habeas corpus, já que o relaxamento de prisão e a liberdade provisória foram negados pela Justiça.

O pai da menina maltratada pelo padrasto visitou a filha no último fim de semana em um abrigo cuidado pelo Conselho Tutelar. O funileiro Anderson Luiz de Souza, de 35 anos, disse que a menina ainda aparenta estar traumatizada com o que aconteceu. “Ela está bem melhor, mas um pouco traumatizada ainda. Ela está bem mais quieta do que o normal, mas ela não perguntou a razão de estar no abrigo”, afirmou.

Segundo o juiz da vara da Infância e da Juventude, Adeilson Ferreira Negri, serão necessários estudos para saber o destino da criança. “O pedido do pai, primeiro eu determinei uma realização de estudo psicossocial, um breve estudo e da avó também, vou precisar do estudo porque o caso requer cuidados maiores antes de se conceder a guarda pra A ou para B”, explica Adeilson.

Casal foi indiciado por tortura
A Polícia Civil concluiu na sexta-feira (3) o inquérito que investiga os maus-tratos. O caso será encaminhado ao Ministério Público e, a partir de agora, os promotores vão continuar as investigações e devem intimar novamente o casal e testemunhas para definir qual será o futuro do empresário e da mãe. Os dois foram indiciados pelos crimes de tortura e por guardar material considerado pornográfico da criança. A polícia não descarta a possibilidade de pedir a prisão de Sara de Andrade Ferreira, de 21 anos. Ela nega ter participado dos vídeos em que a criança é maltratada.

Na semana passada, a polícia divulgou novos vídeos da criança sendo maltratada pelo padrasto. Em um deles, ela aparece amarrada pelas pernas com fita adesiva. Maurício fala para a menina andar e ri quando ela cai no chão. Em outro vídeo, o empresário grita e assusta a menina, que estava cochilando. Ele também tenta abrir à força os olhos da criança.

Outra gravação mostra a menina dormindo no carro, presa pelo cinto de segurança. Como a cabeça dela balança de um lado para o outro, por causa do movimento do carro, o padrasto brinca falando que a menina ficou com sono após tomar uísque. Desta vez, quem está filmando é a mãe da menina, a jovem Sara de Andrade Ferreira, de 21 anos.

A mãe perdeu a guarda da filha depois que que um laudo da perícia feita no computador e nos celulares do casal mostrou que ela também participava de alguns vídeos.

Scaranello já prestou depoimento duas vezes. Segundo informações da delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher, Luciana Pistori, o padrasto disse, em depoimento, que os vídeos faziam parte de uma brincadeira. “O padrasto disse que era tudo uma brincadeira e em nenhum momento ele queria judiar da criança. Acho que ele tinha consciência das atitudes que tomou”, afirmou.

‘Senti muita raiva’
Em entrevista à reportagem da TV TEM, Sara disse que não sabia o que o padrasto fazia com a filha. “Tudo que estão falando tem me magoado, porque ninguém conhece meu coração, as pessoas estão falando que eu sabia dos vídeos, eu não sabia de maneira nenhuma. Foi um susto pra mim, demonstra que eu não conhecia a pessoa com quem eu morava. Tudo isso está sendo um choque pra mim. Os vídeos têm sido um choque pra mim, procuro nem ver televisão porque isso me magoa demais.”

Ela afirmou que também ficou surpresa quando viu os vídeos. “Na hora em que vi os vídeos senti muita raiva, porque até então eu confiava nele, eu deixava minha filha com ele. Nunca imaginei que isso ia acontecer, que ia vim da parte dele. O que ele fez não é certo, por mais que ele julgue que é uma brincadeira. Lógico que ele errou, ele está totalmente errado, tanto que está onde está”, disse.

Scaranello foi preso na casa onde mora, em um condomínio de luxo em Araçatuba (SP). A polícia disse que a menina estava trancada sozinha dentro de um quarto e que encontrou fotos da enteada nua no celular dele.

A mãe da menina também negou que tenha havido qualquer tipo de abuso contra a filha. “Um dia, depois de dar banho na minha filha, pedi pro meu marido tirar foto dela porque o celular dele tem resolução melhor que o meu. Eu tenho certeza que as mães que ficam me julgando, me chamando disso e daquilo, eu quero saber qual mãe que nunca tirou foto da sua filha pelada assim que saiu do banho ou tirou foto da sua filha porque ela tá fazendo umas poses. Tá todo mundo falando que eu sou um monstro, que é um absurdo, qual mãe que nunca fez isso?”, questionou.

Tapa na testa
A polícia divulgou na quinta-feira (2) mais vídeos da menina gravados pelo padrasto. Em um deles a criança chora pedindo mamadeira, mas o empresário se recusa e diz que só vai dar se ela o chamar de “papai”. No outro, o empresário canta uma música e ao final dá um tapa na testa da menina. (Veja as duas cenas ao lado)

Segundo informações da delegada titular da Delegacia de Defesa da Mulher, Luciana Pistori, o padrasto disse, em depoimento, que os vídeos faziam parte de uma brincadeira. “O padrasto disse que era tudo uma brincadeira e em nenhum momento ele queria judiar da criança. Acho que ele tinha consciência das atitudes que tomou”, afirmou.

Denúncia anônima
O caso foi descoberto no dia 26, quando o empresário foi preso na casa onde mora, em um condomínio de luxo em Araçatuba (SP), após uma denúncia anônima. Segundo a denúncia, Scaranello usava cola de forte aderência para manter a menina sentada.

A polícia também encontrou no celular do empresário vídeos onde ele impede a criança de dormir e dá cebola à menina dizendo ser maçã.

O laudo do Instituto Médico Legal, divulgado na quarta-feira (1º), apontou que a menina teve lesões causadas por cola de alta adesão. O documento confirma o teor da denúncia que levou à prisão do empresário. Mas, em depoimento à polícia ao ser preso, ele afirmou que a existência de cola na menina era fruto de um “acidente”.

O laudo traz informações detalhadas das partes do corpo da menina atingidas pela cola e atesta também que ela não sofreu nenhum tipo de abuso sexual. O resultado foi anexado ao inquérito. G1

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