Profissão perigo: pintores se arriscam nas alturas

Observar a cidade dos pontos mais altos, ver o pôr do sol de ângulos privilegiados, transformar paredes com rachaduras e pinturas desgastadas em murais bem acabados, bonitos de se ver. Estes são os principais motivos que atraem os profissionais que pintam edifícios ou outros locais de grande altitude. Medo de cair? Tontura? Isto não existe para eles.

 

Claro que tudo é feito com responsabilidade, técnica e muita, mas muita segurança. “Comecei a trabalhar no alto quando tinha 17 anos. Estávamos em uma obra, em Brodowski, e perguntaram quem tinha coragem de pintar a caixa d´água. Eu fui e, desde então, atuar nas alturas para mim é um prazer”, conta Ednei Cleber Soares da Silva, o Clebinho, hoje com 36 anos.

 

Ele conheceu a cadeira de madeira com gancho, antigo equipamento usado pelos pintores de edifícios e passou a atuar em torres e prédios. Há sete anos chegou a Votuporanga; trabalhou como eletricista em manutenção de postes de luz e energia e depois, já utilizando a cadeirinha de ferro, pintou o Edifício Nogueira. “Um dia, observei um pessoal descendo na cadeirinha de ferro e decidi fazer só aquilo. Deixei o emprego de eletricista e fui pintar nas alturas. Como não estudei muito, pensei que o melhor jeito de ganhar a vida era arriscando-a. Nunca tive medo, para mim não existe risco. Quem sente medo da primeira vez não deve nunca mais fazer esse tipo de trabalho”, explica Clebinho.

 

Ele afirma que o local mais alto em que trabalhou foi um edifício de vinte andares, em São José do Rio Preto. “Mas tenho equipamento para trabalhar com até cem metros de altura”.

Os materiais utilizados por ele, além dos rolos e das tintas, são a cadeira de ferro, cordas que suportam até três mil quilos e cinto paraquedista. “São equipamentos certificados pelo Inmetro (Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia) e revisados anualmente. Antes de começar a pintar, amarro a corda em cima do prédio em três pontos diferentes. Não há riscos. Qualquer pessoa no chão corre muito mais riscos do que eu, como o de ser atropelado, por exemplo. O único perigo que eu vejo é o de um avião bater em mim”, brinca Clebinho.

 

Etapas

Antes de pintar um edifício, Clebinho analisa as paredes e a parte de cima onde as cordas de segurança serão amarradas. “Chego bem cedinho, preparo as cordas, faço o trabalho e já deixo o equipamento pronto para o dia seguinte. Em primeiro lugar, desço lavando as paredes com a espátula, depois tapo os buracos e as trincas, faço a ‘queima’ das paredes, pintando apenas onde há manchas.

 

Em seguida, passo o fundo preparador e o selador e, por último, duas ou três demãos de tinta. O que mais me fascina é observar as mudanças em todos os processos”, salienta Clebinho.

 

 

Adrenalina

Alcides Terra Machado, o Terrinha, 53, trabalha há mais ou menos 25 anos nas alturas. É um dos pioneiros desse tipo de atividade em Votuporanga. “Comecei por necessidade e gostei da sensação de risco, da adrenalina. Pintei quase todos os edifícios existentes na cidade. No início, não usávamos equipamentos de segurança, era só a corda de nó. Também não existia fiscalização, como ocorre hoje”, lembra Terrinha.

Ele relata que perdeu um ajudante e amigo há 20 anos, que sofreu uma queda do 14◦ andar, por falta de segurança. “Ele caiu em um fio de alta tensão. Foi trágico; fiquei um mês sem voltar ao local da obra. Se usássemos equipamentos de segurança, isso não teria ocorrido. Hoje é totalmente diferente, os materiais são 100% confiáveis, possuímos seguro de vida e os próprios edifícios contratam somente quem trabalha dentro da lei”.

 

 

Legislação

 

Norma estabelece medidas de proteção para trabalhos acima de 2 metros do nível inferior

 

Em março deste ano foi aprovada a Norma Regulamentadora número 35, referente a trabalho em altura, definido como toda atividade executada acima de 2 m do nível inferior onde haja risco de queda. A norma estabelece os requisitos mínimos e as medidas de proteção para o trabalho em altura, envolvendo seu planejamento, a organização e a execução.

 

A NR também faz referência às responsabilidades do empregador e do trabalhador. Caberá ao empregador a promoção de um programa para capacitação dos trabalhadores que realizem trabalho em altura. Segundo a norma, trabalhador capacitado para o trabalho em altura é aquele que foi submetido e aprovado em treinamento, teórico e prático, com carga horária mínima de oito horas.

 

O conteúdo deve, no mínimo, incluir normas e regulamentos aplicáveis ao trabalho em altura, análise de risco e condições impeditivas, equipamentos de proteção individual, acidentes típicos e condutas em situações de emergência.

Caberá ao empregador avaliar o estado de saúde dos trabalhadores que exercem atividades em altura, além de garantir a implementação das medidas de proteção estabelecidas na NR 35 e desenvolver procedimentos para as atividades rotineiras de trabalho em altura. Já o trabalhador terá a obrigação de cumprir as disposições legais e regulamentares sobre trabalho em altura, inclusive os procedimentos expedidos pelo empregador.

 

Deverá também colaborar com o empregador na implementação da norma, zelar pela sua segurança e saúde e a de outras pessoas que possam ser afetadas por suas ações ou omissões no trabalho e também poderá exercer o direito de recusa à atividade sempre que se constatar evidências de riscos a si ou a outros.

As obrigações gerais da NR-35 entram em vigor seis meses após sua publicação. A obrigatoriedade de treinamento e capacitação ofertadas pelo empregador entram em vigor 12 meses após. A portaria traz também a criação da Comissão Nacional Tripartite Temática (CNTT) da NR-35, com o objetivo de acompanhar a implantação da nova regulamentação.

 

Ancoragens

A Portaria 318, da Secretaria de Inspeção do Trabalho, publicada no Diário Oficial da União em maio, alterou três itens sobre segurança das ancoragens da Norma Regulamentadora nº 18, que trata das condições e meio ambiente na indústria da construção civil.

 

O primeiro item, 18.15.56.1, diz que “nas edificações com, no mínimo, quatro pavimentos ou altura de 12m a partir do nível do térreo, devem ser instalados dispositivos destinados à ancoragem de equipamentos de sustentação de andaimes e de cabos de segurança para o uso de proteção individual a serem utilizados nos serviços de limpeza, manutenção e restauração de fachadas”. Já o item 56.2 determina a carga suportada pelos pontos de ancoragem. No texto antigo, o valor era de 1.200 kgf (quilogramas-força). Com esta alteração, passa a ser 1.500 kgf.

O novo texto também cria o item 18.15.56.5, no qual são apresentadas as informações que os aparelhos de ancoragem devem possuir, sendo estas: a razão social do fabricante e o CNPJ, indicação da carga de 1.500 kgf, material de constituição e número de fabricação ou de série. Este último componente entrará em vigor em seis meses, se aplicando somente a projetos aprovados após o prazo estipulado.

 

O acidente mais comum entre as ancoragens era o rompimento de amarração de andaimes ou das cadeiras suspensas. Texto e fotos : Ester Alkimim – Revista Casa Nova

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