Preso dentro de casa, Waldemar é torturado

Dia 31 de março marca o início de um dos períodos mais importantes da história do Brasil, o conhecido Golpe de 1964

No começo da década de 1960, o país atravessava uma profunda agitação política. Depois da renúncia do presidente Jânio Quadros, em 1961, assumiu seu vice, João Goulart, o Jango.

Faziam parte de seus planos as reformas de base, que pretendiam reduzir as desigualdades sociais. O perfil de Jango logo preocupou as elites, que temiam uma alteração social que ameaçasse seu poder econômico. Entre as medidas adotadas para enfraquecer o então presidente está a adoção do parlamentarismo, que, em 1961 e 1962, atribuiu funções do Executivo ao Congresso, dominado na época por representantes das elites. O regime presidencialista foi restabelecido em 1963 após um plebiscito.
A crise econômica e a instabilidade política se propagavam. Jango propôs, então, reformas constitucionais que aceleraram a reação das elites, criando as condições para o golpe de 64. 
Em 31 de março daquele ano, os militares iniciam a tomada do poder e a deposição de Jango. No dia 2 de abril, o presidente João Goulart partiu de Brasília para Porto Alegre e Ranieri Mazilli assumiu a presidência interinamente. Dois dias depois, João Goulart se exilou no Uruguai.
Depoimento

 Waldemar Andreu, 69 anos, é um retrato da ditadura militar. Foi preso dentro de sua casa, em Votuporanga, e levado para centro de tortura em São Paulo. 
Nascido em 6 de novembro de 1944, em Bálsamo, Waldemar tinha 9 anos quando veio morar e Votuporanga. Sempre foi envolvido com o movimento estudantil. 
“Nós apoiávamos o governo de João Goulart, que era trabalhista. Jango falava em reforma. Então, os militares resolveram derrubar o governo”, contou Waldemar.
Segundo ele, depois que tomou o poder, o Exército proibiu reuniões públicas, as instituições democráticas foram fechadas e as lideranças presas. “Em Votuporanga, os militares tinham ordem de prender os comunistas. Procuraram os jovens nas praças, escolas e levaram muita gente. Dircinho Longo, Christovam De Haro e Dimas Casemiro eram alguns deles”.
Alguns jovens se abrigaram em um sítio para fugir da prisão. Depois, voltaram e ficaram calados. “Eram momentos de perseguição e vigilância. Não podíamos fazer reuniões em casa”, explicou.
Neste período, o PCdoB (Partido Comunista do Brasil) foi organizado clandestinamente na cidade, entre os anos de 65/66. “A palavra de ordem era derrubar a ditadura. Começaram a organizar pichações e manifestos. Entre 68/69 partiram para a luta armada”, disse Waldemar, que foi para São Paulo em 1969, onde participou de vários grupos.
No ano de 1970, voltou para Votuporanga com a intenção de recrutar militantes. Aqui, foi preso pelo DOI-CODI (Destacamento de Operações de Informações – Centro de Operações de Defesa Interna), dentro de sua casa, localizada na rua São Paulo, e levado para um centro de tortura na capital. Lá, conheceu as máquinas de tortura, uma cadeira de choque de 800 volts; a cadeira de dragão, que também servia para choques; e o pau de arara.
Depois, foi encaminhado para o Dops (Departamento de Ordem Política e Social) para o registro das acusações. Pediram a pena de morte para Waldemar. “Todas as acusações eram forjadas e quem eles matavam, sumiam com o corpo. Na auditoria militar apuraram meu caso, que foi desclassificado. Eu já tinha três anos e oito meses de prisão. No julgamento, fui condenado a sete. A promotoria recorreu e o Supremo Tribunal Militar mandou julgar novamente. Desta vez, fui condenado a um ano, a promotoria recorreu novamente, e me deram dois anos. Como eu já tinha ficado preso mais de três, recebi a condicional. Diziam que eu tinha feito uma viagem para a China”, contou.

De volta a Votuporanga, teve dificuldades para arrumar emprego e precisou trabalhar por conta própria. “Foi muito difícil, tudo o que eu tinha de documento, foi levado, precisei refazer tudo. As pessoas fugiam da gente, até os amigos. Eu tinha que ter saído daqui, mas meus pais eram idosos e achei necessário ficar perto deles”.
Waldemar diz que tudo valeu a pena. “A gente lutava por mais, mas o governo democrático foi nossa vitória”, concluiu. Leidiane Sabino/A Cidade

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