Orlando Ribeiro: Desarrumados

Dizem que quando várias mulheres se juntam, reina a fofoca. Mas, verdade seja dita, quando os barbados se danam a falar nas mesas dos botecos, sai cada papagaiada! Encontrei-me, dia desses, com um amigo da velha infância. Como não sou lá de beber, apenas lhe fiz companhia e ofereci meus ouvidos.

Tudo ia bem, até que ele desandou a falar sobre o casamento. Sobre o casamento não, sobre a esposa. Reclamou que, para sua excelentíssima companheira, ele era o líder de uma verdadeira quadrilha de desarrumados.

 

Não que ele fosse mais bagunçado que os filhos, mas, sim, porque ele “dava exemplos”. O jornal espalhado pela casa, coisas deixadas sobre a mesinha da sala, sapatos esquecidos na porta da cozinha. “Essas coisinhas miúdas, muito diferente dos meus filhos, que deixam nuvens de roupa e de brinquedos por onde passam”, reclamou.

 

O pior de tudo é que quando estava me preparando para defender a esposa, que, aliás, nem conheço, descobri que ele não era o único a ser alvo de tão graves acusações. Eu estava no mesmo barco. Minha mulher também não pensa muito diferente. Pensando bem, quase todas as mulheres acham que os seus maridos são uma lástima em matéria de organização doméstica. Elas não entendem que, na verdade, não é que nós homens sejamos bagunceiros.

 

É que nossa concepção de “tudo bem arrumadinho” é mais distinta do que a das mulheres. Vide, por exemplo, nossa caixa de pesca. Tudo organizadinho: anzóis por tamanho, chumbadas por peso, linhas por espessura, etc. Fala verdade, não é um primor de organização?Por isso, jamais perdi um pintado de 20 quilos nas minhas pescarias (mas isso é assunto para outro dia).
Assim, seria justo nos chamar de bagunceiro só por causa de meias usadas esquecidas ao lado da cama? Ora, elas não estão lá em caráter definitivo. É apenas uma situação provisória. Uma hora (talvez, um dia), vamos tirá-las de lá e colocá-las no cesto de roupas sujas do banheiro. Ou seja, não é uma questão de desarrumação, é só uma questão de tempo. O problema é que o conceito feminino de arrumação é transcendental.

Posso até concordar que meias e cuecas (credo) usadas no chão possa ser uma coisa horrível, mas, se forem jornais, capas de CD ou livros, não pode ser algo tão grave assim, como elas vivem reclamando. O mito de que homem é desarrumado tem de ser banido. Mulheres, ouçam bem: Nós não desarrumamos nem mais, nem menos do que as senhoras. Simplesmente, desarrumamos diferente de vocês. Ou vocês acham que a gente nunca espiou a caixinha de bijuterias ou o estojo de unha, com aquele monte de alicatinhos, vidros de esmalte e lixas, sem nenhuma organização?

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