‘Não me solte, sou viciado e devedor’, diz menino a juiz

Em dia de repórter, juiz de Fernandópolis escreve reportagem especial para O Jornal sobre drama de menor dependente químico

Um adolescente. 15 anos. Uma faca na mão. Entra em uma mercearia. Pula o balcão. Ameaça a proprietária. Quer dinheiro. Rápido. A mulher reage e grita. O adolescente, assustado, corre. Sem nada levar. Instantes depois, a polícia o prende.
Acusado de roubo tentado, é apresentado ao Judiciário. Na audiência, confessa o fato, integralmente. A lei permite a soltura. Porém, ao lhe ser proposta a liberdade, mediante condições, o rapaz, surpreendentemente, diz ao juiz, em outras palavras, o seguinte:
“Doutor, por favor, não me solte. Eu sou viciado e devedor. Fumo cinco, seis cigarros por dia. Não consigo ficar sem a maconha. Não uso outras drogas. Devo quase 200 reais. Se o senhor me soltar, eu vou tentar roubar de novo para pagar minha dívida. E depois de pagá-la, vou fazer mais dívidas, pois não consigo ficar sem fumar maconha, e vou voltar pro crime”.
A mãe “de criação”, ao lado do filho, só chora. Uma senhorinha doente. Entrou na sala de bengala. Amparada pelo segurança do Fórum. Diz ao juiz que o filho se tornou violento depois que começou a usar maconha. Relata medo, se o filho voltar pra casa. Aumenta o choro e se desespera, olhando para o filho numa dor cortante, como a implorar-lhe para não viver aquela situação.
O menor é mantido preso até a próxima audiência. Nesse meio tempo, aciona-se o Estado para disponibilizar uma clínica de recuperação ao rapaz. A Procuradora do Estado, que tem um trabalho destacado na região, empenha-se no caso. A vaga chega. O Conselho Tutelar, neste exato momento, leva o adolescente para o local de tratamento.
Um processo encerrado. Mais um. Não muito diferente de outros. Daquilo que se tem, todos os dias, no Judiciário. Talvez, a diferença recaia na sinceridade do adolescente, que reconheceu sua fraqueza, sua escravidão à substância entorpecente. A se destacar também o perigo da maconha. Uma droga abordada, hoje em dia, como inofensiva, como algo que “faz menos mal que cigarro”. Uma falácia. A maconha está devastando a juventude, principalmente, a juventude pobre, que recorre ao crime para sustentar o consumo dessa droga. Basta acompanhar a rotina de uma Vara de Infância e Juventude.
Nenhum juiz julga com amor na ponta da caneta. Igualmente, nenhum juiz julga com raiva no coração. Em processos, juiz não é feitor benemérito, nem justiceiro da sociedade. O juiz é a voz da lei. Nada mais, nada menos. Mas, como todo ser humano, também se comove e se encoleriza.
O confissão da verdade, quando misturada à fragilidade que todo ser humano carrega, é sim comovente. Pois, em regra, ninguém quer admitir seus próprios erros, seus medos. Por outro lado, o ser humano que recepciona a verdade, a expressão genuína de uma pessoa desabada, ainda que só naquele instante, não fica imune aos sentimentos, principalmente, diante de seus próprios fantasmas, que começam a lhe perturbar, como se ali houvesse um espelho. Talvez, no dia do julgamento final, muitos poderão pedir também um “não me solte”. Deixe-me preso ao mundo. Perfeição não há.
Pedindo vênia aos amigos, pelos devaneios, devemos lutar contra os justiçamentos. Quem amarra um ladrão a um poste, achando que faz justiça, não se olha no espelho. Quem bate palma à justiça “pelas próprias mãos” não teme o seu próprio julgamento. A lei, e somente a lei, deve ser a baliza de nossa justiça. A lei não é perfeita, longe disso, e nunca terá essa utopia, pois é uma obra humana, sempre inacabada. Mas é na lei que se encontram as melhores medidas das coisas, a definição de justiça.
Se o rapaz deste caso um dia se recuperar, foi a lei brasileira que o fez. Não foi um poste, nem um formigueiro. Pois a lei manda recuperar o viciado. A lei não excomunga o ser humano da sociedade.
E se há cólera nisso tudo, ela se volta contra a droga. Essa substância maligna que tem pervertido e escravizado seres humanos de todas as idades e classes sociais. Devemos lutar para aperfeiçoar a lei. Para que não flertemos com as drogas. Para que a lei nos ajude a afastar esse mal de nosso meio.
Essa é uma história real. Esse é um texto que retrata sentimentos reais. De quem confessa no banco dos réus e na cadeira de um julgador. Evandro Pelarin – Especial para O Jornal

 

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