Lindo gesto: as sete vidas de Roberval

O coração de Roberval de Souza Loncarovici Danoel, de 19 anos, agora bate em São Paulo, o fígado funciona em São José dos Campos, o rim esquerdo e o pâncreas em Rio Preto e os pulmões também respiram na capital paulista.

Ao todo, os órgãos do jovem vão ajudar pelo menos sete pessoas, acontecimento raríssimo no Hospital de Base (HB). Vítima de traumatismo craniano causado por acidente de trânsito, a família autorizou a retirada dos dois rins, coração, córneas, fígado, pâncreas, pulmões e ossos, todos saudáveis.

A família, moradora de Valentim Gentil, mesmo diante da dor da perda não hesitou em assinar o documento para transformar a vida de desconhecidos que aguardavam angustiados na fila do transplante. Roberval teve traumatismo craniano após carro em que estava, um Gol, ser atingido na traseira por um Vectra à 1h35 de domingo, na rodovia Euclides da Cunha (SP-320), em Votuporanga. Ele foi a única vítima fatal.

Há um mês o jovem havia manifestado o desejo de ser doador de órgãos. A revelação ocorreu após ele doar sangue e fazer o cadastro para ceder medula óssea, conta a mãe, Eliana Donizete de Souza Danoel, 44. “Disse para ele que o nosso sangue (O+) poderia ajudar muita gente. Ele concordou com ideia, doou, fez o cadastro da medula e disse que queria ser um doador de órgãos. Fizemos o desejo dele”.

Roberval trabalhava como almoxarife em uma empresa de Valentim Gentil, mas o sonho era de ser desenhista de mangás, prática que até então tinha como hobby. Era incentivado pelo pai, que trabalha como pintor de letreiro. “Ele tinha o dom para o desenho. Sempre quis fazer isso, porém, pretendia continuar no emprego até conseguir tirar a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e comprar um carro”, afirma a mãe.

A mãe diz que espera que um pouco a dedicação que tinha no trabalho e disposição para a musculação (outro hobby do jovem) seja compartilhada entre os que receberem os órgãos. “Meu filho era um trabalhador que ajudava nas contas e ainda na construção de nossa casa porque dizia que não queria ver a gente morando de aluguel. Tinha um espírito solidário, portanto, acho que o desejo dele ajudar outras pessoas mesmo depois da morte foi realizado”.

Um dos beneficiados pelos órgãos foi Mauro Rosa Sacheti, 38 anos, morador de Aparecida D’Oeste. Depois de dois anos de espera ele ganhou ontem um novo rim esquerdo e um pâncreas. O paciente perdeu um rim e parte do pâncreas por conta de uma diabete descoberta tardiamente. Nos últimos 24 meses, ficou sem trabalhar por causa da doença e convivia com as sessões de hemodiálise, realizadas três vezes por semana em Fernandópolis.

“A vida dele mudou radicalmente. Não conseguia mais fazer muita coisa. Agora tenho esperança de que tudo voltará ao normal. É uma pena que isso tenha acontecido por conta de uma tragédia, mas somos muito gratos pelo doador”, diz Josefa da Silva Pacheco, 73, mãe de Mauro.

Além do rim esquerdo e pâncreas, as córneas também ficaram em Rio Preto e foram encaminhadas ao banco de córneas do HB. Coração e Pulmões foram de avião para o Incor de São Paulo. O fígado, foi transplantado na tarde de ontem em um homem de 27 anos, na Santa Casa de São José dos Campos. O receptor é de São Sebastião e sofria de cirrose hepática provocada por hepatite C. Os ossos, foram destinados ao Banco de Ossos de Marília. Já o rim direito, levado ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto.

Doação múltipla é uma raridade

O médico João Fernando Pícolo, coordenador do Serviço de Procura de Órgãos e Tecidos (Spot), afirma que doações de seis órgãos, ossos e córneas da mesma pessoa é coisa rara no Hospital de Base (HB) porque geralmente os doadores têm fraturas que impossibilitam o aproveitamento do órgão.

No caso de Roberval de Souza Loncarovici Danoel, 19, a morte ocorreu por traumatismo craniano, mas o restante do corpo não foi afetado. “Na grande maioria dos casos ou o doador sofreu alguma lesão em outros órgãos ou o órgão já não serve para transplantes. No caso dele, não houve lesão nenhuma nos órgãos e todos estavam saudáveis. Só não aproveitamos a pele porque não temos como retirar por aqui. Isso é raro. Não me lembro de outro acontecimento semelhante”, disse.

Ao todo, foram doados dois rins, coração, córneas, fígado, pâncreas, pulmões e ossos. Essa a foi a segunda captação de coração e pulmão da história do HB. Médicos do Instituto do Coração (InCor) do Hospital das Clínicas de São Paulo vieram de avião retirar o órgão e o coração. O InCor é o único que realizar transplantes de pulmão. Elton Rodrigues – diarioweb

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