Fim da parceria entre Sesc e Prefeitura traz tensão ao FIT

O recente anúncio do desligamento do Sesc do Festival Internacional de Teatro (FIT), de Rio Preto, só faz aumenta o clima de insegurança em relação à 14ª edição do evento, a ser realizada de 16 a 27 de julho. Quem vai bancar a maior fatia de investimentos? Quem serão os curadores e como serão escolhidos? Quem vai assumir a coordenação? Qual o tamanho do prejuízo à programação? A seis meses do evento, perguntas como essas, por enquanto, não têm respostas.

Independentemente de quem é o “mocinho” ou “bandido” da história, a parceria entre Sesc e Prefeitura fortalecia o FIT. Desde 1992, além do aporte financeiro, a instituição oferecia sua estrutura física e a expertise de seus profissionais, viabilizando apresentações de grupos renomados do Brasil e do exterior.

Um desses grupos é o Club Noir, de São Paulo, comandado pelo dramaturgo e diretor Roberto Alvim, que foi curador do festival de Rio Preto em 2010. Em todas as ocasiões em que ele participou, foi convidado pelo Sesc. “É uma notícia muito triste. O FIT talvez seja o festival mais corajoso e arrojado do País, porque não está ligado aos moldes comerciais. Certamente, a saída do Sesc é uma grande perda”, lamenta.

Kil Abreu, jornalista, crítico e pesquisador de teatro, que foi curador em 2012, prefere não avaliar. “O que posso dizer com segurança é que a participação do Sesc não se dá apenas através de recursos financeiros. Pelo que se pode perceber na dinâmica do festival, o Sesc tomou para si também a tarefa de colaborar com as diretrizes artísticas, e em bases bastante exigentes se o ponto de vista for o da provocação estética. O que todos nós certamente esperamos é que os organizadores não percam isso de vista.”

Como a credibilidade da Prefeitura na seara cultural não é das melhores, muitas pessoas temem um declínio mais íngreme neste ano. Em 2013, o Diário já havia divulgado que mudanças de dinâmica e formato afetavam a imagem do FIT de forma negativa diante do público e dos próprios artistas.

Jorge Vermelho, ator, diretor e fundador da Cia. Azul Celeste, que dirigiu o festival de 2001 a 2009, afirma que a atitude do Sesc era esperada por conta do desmantelamento progressivo das políticas públicas da cidade.

“Há indícios de muitas irregularidades no FIT e o Sesc, entidade idônea que é, não pode ter sua marca vinculada a um projeto que não apresente transparência, tanto em questões orçamentárias como nas relações institucionais. É óbvio que o FIT caminha para o fim. Com a saída do Sesc, esse processo será acelerado”, acredita.

Para Vermelho, mais importante do que realizar o festival e contabilizar os espectadores é a forma da realização. “Atualmente, tudo o que fica a cargo da Prefeitura na organização do FIT tem qualidade baixíssima. Os grupos e a imprensa percebem e comentam isso. Já está divulgado em rede nacional que o FIT despencou”, alfineta.

A opinião não é unânime entre os artistas locais. É o caso de Homero Ferreira, ator, diretor e dramaturgo, que participou do FIT em 2013 com a peça “Cheiro de Carne” e inscreveu “Longos Anos”, texto inédito da comopanhia, para a edição deste ano.

“Prefiro não criar expectativas, nem boas nem ruins. Há muito tempo o FIT não atende aos anseios da classe artística local. Por isso, não me parece que haverá uma grande transformação desta vez.”

Cachês

Em meio às novas incertezas quanto à mostra de 2014, problemas antigos também rondam a organização. Um deles é a falta de pagamento de cachês para grupos que participaram do festival em 2012. Carlos Canhameiro, ator e diretor da Cia. Les Commediens Tropicales, de São Paulo, é um dos que alegam pendências com a Prefeitura. Ele diz que teria de receber R$ 11,1 mil por três apresentações de “(VerTer)” e uma atividade formativa. Entretanto, até hoje faltariam R$ 3,8 mil.

“Alguém da secretaria de Cultura me ligou dizendo que efetuaria o pagamento logo após a término da edição 2013. O que não ocorreu”, diz. Ao Diário, o secretário de Cultura, Alexandre Costa, nega ter conhecimento do caso.
“Como nosso representante jurídico é a Cooperativa Paulista de Teatro, estamos em busca de uma ação para o pagamento com juros do que foi acordado por contrato. Sei que irá demorar séculos. Mas é o caminho”, afirma Canhameiro.

Abreu tentou intervir, sem sucesso. Segundo ele, foram feitas várias tentativas de contato, por telefone e e-mail, nunca respondidos. “Entendo que, ainda que não seja responsabilidade dos curadores cuidar de pagamentos, temos o compromisso ético de garantir que os artistas indicados por nós para compor a grade do festival recebam seus honorários.”

Saída do Sesc permanece ‘obscura’

Os motivos pelos quais o Sesc rompeu a parceria com a Prefeitura para a realização do Festival Internacional de Teatro em 2014 ainda permanecem obscuros. Em entrevista por e-mail, no fim do ano passado, o gerente do Sesc Rio Preto, Sebastião Martins, disse que a instituição recebeu uma correspondência da Secretaria Municipal de Comunicação Social, que apresentava condições para sua participação em 2014.

“Em resposta à Prefeitura, o Sesc expressou sua discordância quanto a determinadas exigências e afirmou que este posicionamento inviabilizaria a participação no próximo FIT”, disse. Após o recesso de fim de ano, o Diário tentou uma nova entrevista com representantes do Sesc, para entender melhor quais foram essas exigências. Porém, a entidade só se manifestou por meio de nota assinada pelo Sesc São Paulo. O documento não traz novas informações sobre o assunto.

Desgaste

O Diário tem acompanhado o desgaste da relação entre o poder público e a paraestatal desde o ano passado. Enquanto o Sesc investiu R$ 1,5 milhão no FIT em 2013, a Prefeitura desembolsou cerca de R$ 300 mil. Apesar disso, o secretário de Cultura, Alexandre Costa, disse em dezembro que “o FIT é da Prefeitura, não do Sesc.”

A reportagem tentou entrevistá-lo outra vez e também recebeu respostas vagas.
Por enquanto, Costa confirmou apenas que contará com patrocínio de R$ 150 mil da Caixa Econômica Federal. Ainda não foram definidos os nomes dos coordenadores e dos curadores do evento, assim como o valor a ser investido pela Prefeitura e o número prévio de grupos inscritos.

As inscrições deveriam ser encerradas no dia 10, mas foram prorrogadas para a última sexta-feira. O secretário de Comunicação Social, Deodoro Moreira, que dividia a coordenação geral com Costa e Martins, disse que não será coordenador do FIT neste ano.

 

Daniela Fenti – Diário da Região

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password