Explodiu: epidemia de dengue já atinge 44 cidades da região

A dengue explodiu na região. Já são 14.626 casos confirmados da doença neste ano em 119 cidades – 44 já registram epidemia. Isso faz com que o Noroeste paulista concentre um terço das 42,4 mil ocorrências de todo o Estado. Só Rio Preto coleciona 4,9 mil casos de dengue, com três mortes – no Estado, foram 12 óbitos. Um em cada grupo de 82 rio-pretenses já teve dengue neste ano. O resultado são postos de saúde superlotados, o que fez a Prefeitura instalar duas tendas ao lado das Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) do Parque Industrial e Norte, no Solo Sagrado.
A situação é tão grave que, no fim de março, o prefeito Valdomiro Lopes decretou estado de emergência na cidade, e logo em seguida solicitou R$ 26 milhões ao governo federal para o combate à doença. “A situação preocupa, mas são muitas ações (contra a dengue). Não acredito que vamos ultrapassar os 24 mil casos de 2010”, diz a secretária-adjunta, Teresinha Pachá.

Embora a cidade concentre a maioria dos casos, 5 mil, a dengue se alastra pela região. São 44 municípios em que as ocorrências confirmadas, entre autóctones (contraídos na cidade) e importadas, ultrapassam a proporção de 333 para cada 100 mil habitantes, o que caracteriza o estado epidêmico, conforme preconiza o Ministério da Saúde. O levantamento foi feito entre quarta e sexta-feira da última semana, utilizando dados populacionais do IBGE para o cálculo de epidemia.

Nesse grupo de cidades, as mais infectadas são Itapura (um doente para cada 26 moradores neste ano), Barretos (um para 34) e Altair (um para 36). Barretos também concentra a segunda maior quantidade absoluta de ocorrência, com 3.312 até sexta-feira. “Desde outubro, os casos começaram a subir”, diz a coordenadora de Vigilância Epidemiológica da cidade, Vanessa Jodas Nunes. Ela atribui a epidemia à soma das chuvas com a “falta de comprometimento” da população. “Só no mês de janeiro foram dois mil casos.”

A troca de prefeitos também contribuiu para o quadro alarmante. Em Altair, com 105 casos confirmados, a gestão anterior demitiu um dos dois agentes de combate aos criadouros. Ficou apenas um para os 1,5 mil imóveis da cidade, número abaixo do preconizado pela Sucen. “Agora, contratamos mais dois agentes, e esperamos diminuir esses casos”, diz o coordenador de vetores, Ricardo Oliveira. Procurado, o ex-prefeito José Braz Alvarindo do Prado, não foi localizado. De 119 cidades da região, apenas seis ainda não registraram casos da doença este ano – todas muito pequenas, com população abaixo de 2 mil habitantes.

Negligência facilita a procriação do Aedes

A Secretaria de Saúde de Rio Preto atribui o aumento da infestação do Aedes aegypti ao consumo de fim de ano, que fez aumentar o volume de resíduos candidatos a virar criadouros, como garrafas pet, copos e potes. “O ciclo reprodutivo do mosquito é muito rápido. De três a cinco dias o ovo evolui para o mosquito adulto”, alerta o gerente da Vigilância Ambiental, Abner Alves.

A atual epidemia de dengue em Rio Preto e região, nomento, era uma tragédia anunciada, dizem os especialistas. Desde o início de 2011, quando o vírus do tipo 4 chegou ao Noroeste paulista, o risco de uma explosão nos casos era real, já que o organismo dos habitantes da região não tem resistência a esse novo vírus. “Tanto a população quanto o poder público baixaram a guarda, e deu no que deu”, diz o virologista da Famerp Maurício Nogueira.

Em Rio Preto, o corte de 220 funcionários terceirizados na Secretaria de Serviços Gerais e a suspensão da varrição de ruas na área central e nas praças, logo após as eleições de 2012, contribuíram para multiplicar os criadores da doença na cidade. Há duas semanas, a reportagem encontrou pilhas de pneus ao ar livre no ponto de apoio do Jardim Ana Célia, zona norte. Tanto que, em outubro, o índice Breteau de Rio Preto era 1, dentro dos parâmetros recomendados pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Já na primeira quinzena de janeiro, subiu para 2,8, o que fez acender o sinal de alerta na Prefeitura. “Imediatamente intensificamos os arrastões e a nebulização”, garante o gerente, Abner Alves.

Para o infectologista especialista em dengue da Unesp Carlos Magno Fortaleza, culpar apenas o poder público pelo avanço da dengue é simplista demais. “Se não fossem os agentes, a situação seria ainda pior”, diz. Mas, segundo ele, há falhas na política de destinação dos resíduos pelas prefeituras. “A reciclagem de materiais ainda é muito tímida, e faltam ecopontos, onde a população possa jogar seu lixo.”

Mesmo as políticas educativas do poder público não têm surtido efeito, segundo o coordenador do Programa Nacional de Controle da Dengue, Giovanini Coelho. “Ainda não houve um marketing eficiente para fazer as pessoas se conscientizarem de fato sobre os riscos da dengue. Há informação de sobra, mas isso não se traduz em ações práticas.”

A Prefeitura de Rio Preto nega falta de planejamento no combate à dengue. “Temos um plano de contingência desde 2009, que é revisto anualmente”, diz Andréia Francesli Negri, gerente de doenças transmissíveis. Neste ano, segundo a Saúde, foram contratados 60 novos médicos para reforçar o atendimento nas unidades. A pasta também implantou duas tendas para atendimento a casos de dengue, ampliou o horário de funcionamento de sete Unidades Básicas de Saúde (UBSs) para as 22h e abriu outras três nos fins de semana.

No combate ao mosquito, cem novos agentes de saúde se somaram aos 450 já existentes, e desde março decreto municipal permite aos agentes entrar em imóveis fechados, desde que representem risco sanitário. “Temos feito tudo aquilo que está ao nosso alcance”, diz a secretária-adjunta da Saúde, Teresinha Pachá.

Hamilton Pavam
Posto do bairro Santo Antonio

Vírus 4 deixa a população mais vulnerável

O vírus do tipo 4 predomina entre os infectados em Rio Preto. Neste ano, até o dia 10 deste mês, o Instituto Adolfo Lutz isolou 48 vírus da dengue em doentes da cidade. Desse total, 45 foram do tipo 4, dois do tipo 2 e um do tipo 1. Os primeiros casos da doença do tipo 4 registrados no País, após 30 anos sem confirmações, foram em 2010, na região Norte do País. Não tardou para que o novo vírus chegasse a Rio Preto – os dois primeiros casos na cidade foram confirmados em abril de 2011. Semanas depois, mais oito ocorrências surgiam em Paulo de Faria.

Sempre que um novo tipo de dengue é reintroduzido em uma região, vêm as epidemias. Foi assim em 2006, quando o tipo 3 provocou 13 mil casos, e em 2010, quando a dengue tipo 1 reapareceu depois de dez anos e provocou a maior epidemia da história do município, com 24.198 casos confirmados – 12 deles levando o paciente à morte.

O novo vírus não é mais agressivo ou letal do que os dos tipos 1, 2 ou 3. O problema é que, se o vírus 4 infecta quem já contraiu dengue por um dos outros sorotipos, aumenta o risco de o indivíduo desenvolver dengue hemorrágica. Neste ano, foram notificados três casos do tipo em Rio Preto, com um óbito.

O clima da cidade favorece a proliferação do Aedes, segundo o virologista da Famerp Maurício Nogueira. “No verão, temos dias de chuva intercalados com dias ensolarados e quentes, o que é o cenário perfeito para o ciclo reprodutivo do Aedes.” De 1998 até agora, Rio Preto soma 67,8 mil casos de dengue, com 25 mortes.

Como o indivíduo infectado com um dos quatro vírus adquire imunidade permanente ao sorotipo, a tendência futura, diz Nogueira, é que a dengue se torne uma doença pediátrica, predominante em crianças.

Sintomas

Prestar atenção nos sintomas é fundamental para diagnosticar rapidamente a doença e evitar complicações que podem levar à morte. “Febre associada à dor de cabeça e no corpo, dor atrás dos olhos são sintomas característicos. Ainda que a pessoa não apresente todos esses sinais, deve procurar atendimento médico imediatamente”, diz a gerente de doenças transmissíveis da Secretaria de Saúde, Andréia Francesli Negri. Sintomas da forma hemorrágica também devem ser acompanhados com atenção, como sangramentos pelo nariz e boca, dificuldade de respirar e forte dor abdominal.

No combate ao mosquito, há mitos e ideias equivocadas que precisam ser desfeitos, afirma Andréia. “Espalhar limão com cravo, usar repelente ultrassônico e comer alho com cebola não adiantam nada”, exemplifica. “Já o uso de repelentes e velas à base de citronela têm ação limitada.” A orientação da Secretaria de Saúde é para que a população procure atendimento imediato em caso de qualquer dúvida.

Estudo sobre vacina fracassa

A solução definitiva no combate à dengue é a vacina. O problema é que pesquisas sobre o assunto têm fracassado nos últimos anos. “Não creio que teremos vacina pelos próximos cinco anos”, diz Maurício Nogueira, especialista em dengue. Segundo ele, quem mais se aproximou de um produto bem-sucedido foi o laboratório francês Sanofi. “Há alguns anos, fizeram testes no Brasil e na Tailândia, mas quem foi vacinado contraiu dengue.” O motivo, diz, é a alta variabilidade do vírus da dengue. “Na teoria, a vacina do Sanofi era perfeita, mas falhou na prática.”

Atualmente, o Instituto Butantan, em São Paulo, desenvolve vacina para a doença. De acordo com a assessoria, o órgão aguarda aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar testes em seres humanos, o que deve ocorrer até junho. “Precisamos realizar todos os testes para que depois a vacina seja disponibilizada à população, mas ainda não temos uma estimativa de quando estará disponível”, informou o instituto por meio de nota.

Em Rio Preto, o médico Renan Marino aposta no complexo homeopático que desenvolveu e que já chegou a ser usado na rede municipal de saúde, mas desaconselhado pela Secretaria de Saúde do Estado.

Doença já avançou mais que a malária

A dengue já ultrapassou a malária como a principal doença tropical no mundo, diz o virologista da Famerp Maurício Nogueira. O crescimento da doença, conforme o especialista, foi motivado pelo aumento da circulação de pessoas, principalmente a partir do fim do século 20, e da variação genética dos vírus da doença, semelhantes aos do vírus da gripe.

A doença surgiu na Ásia nos anos 1940. Com a Segunda Guerra Mundial , ainda naquela década, e a Guerra do Vietnã, nos anos 1960-1970, grandes movimentos migratórios ajudaram a espalhar a doença pelo mundo. A primeira grande epidemia veio na década de 1950, ainda no continente asiático.

No Brasil, os primeiros casos datam de 1981, em Roraima, mas a primeira epidemia viria em 1986-87, no Rio de Janeiro. Nesses dois anos, foram quase 100 mil ocorrências no País. Desde então, já foram registradas epidemias em Minas Gerais, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul e Região Nordeste.

Em Rio Preto, a doença surgiu em 1991, mas a primeira epidemia só viria a acontecer em 1999. Desde então, a cidade enfrentou outras quatro epidemias, em 2001, 2006, 2007, 2010, além da atual.

O sofrimento das famílias enlutadas

O autônomo Sebastião Alves nunca foi infectado pelo mosquito Aedes aegypti, mas sabe o tamanho do sofrimento que a dengue pode causar. Isso porque seu irmão, Júlio Alves, 54 anos, morreu no dia 8, com quadro clínico de dengue hemorrágica. “Só eu na família não fui picado por esse mosquito, mas diante da perda que eu tive, preferia ter ficado doente a perder o meu irmão.”

Ele afirma que a família tenta superar a morte do irmão, que sofria com outros problemas clínicos. “Ele já tinha tido problemas no rim, coração e tudo mais. Nunca imaginávamos que um mosquito pequeno poderia tirar a vida dele. Só temos a dimensão da doença, quando perdemos alguém para ela. Toda vez que escuto a palavra dengue, lembro-me de que ela é a culpada pelo sofrimento da minha família”, diz o autônomo.

Os familiares da pequena Maria Eduarda dos Santos, 9 anos, também sentiram na pele. A menina morreu no sábado, dia 6, após sofrer seis dias com uma dor abdominal, passar cinco vezes por atendimento médico e sofrer três paradas cardíacas. A última passagem dela foi no Hospital de Base, onde não resistiu dengue hemorrágica e morreu.

“É difícil aceitar que ela se foi. É difícil acreditar que um mosquito pode tirar a vida de uma menina que sonhava ser atriz, era extremamente feliz, educada e querida na escola e na vizinhança”, desabafa a mãe, Valdirene Talhaferro. Ainda tentando se conformar com a morte de Maria Eduarda, a família passou por mais um susto nesta semana. Outra filha, Daniela dos Santos, 19 anos, ficou dois dias internada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do HB, com suspeita de dengue e complicações.

A menina foi hospitalizada após vomitar sangue e desmaiar. “Foi um susto para todos nós. Não sei como reagiria com uma nova perda, mas graças a Deus, ela conseguiu passar pela fase perigosa da doença e está em casa recebendo os cuidados e carinho de familiares e amigos”, diz o pai da jovem Euclides José dos Santos.

Jucimara Jesus Januário, 40 anos, aguarda o resultado do exame para ver se está com dengue pela terceira vez. “Já tive a doença duas vezes. Sinto fortes dores no corpo, vontade de vomitar e dor abdominal. O problema é que quando o resultado sai, a pessoa já morreu. E nenhuma autoridade faz nada por isso.”

Allan de Abreu – diarioweb

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