Explodir caixas eletrônicos virou rotina na região

Uma rotina que vandaliza patrimônio, provoca rombo financeiro e espalha insegurança entre moradores teve mais um capítulo ontem na região. Em Pontalinda, perto de Jales, nove homens dinamitaram um caixa eletrônico em mais uma ação ousada.

 

Desta vez os bandidos foram todos presos. Explodir caixas eletrônicos ou arrebentá-los com maçarico, muitas vezes com reféns e tiros para o alto, virou cena comum em pequenas cidades e distritos. 
Foram 40 ocorrências do tipo desde 2011 – 16 só neste ano -, em que as quadrilhas levaram pelo menos R$ 1,67 milhão em dinheiro vivo. Nesse tipo de crime, tudo favorece os ladrões. A começar pelo policiamento carente nas pequenas cidades e a falta de sistemas de segurança nas agências bancárias – muitas delas não têm nem câmeras, segundo a Polícia Civil.

Como sempre agem na madrugada, quase nunca há testemunhas. E, na fuga, a malha rodoviária extensa é uma aliada, o que prejudica eventual perseguição da PM.A soma desses fatores favorece a impunidade. Das 40 ocorrências, em 28, ou 70% do total, a polícia não identificou os autores. “Eles agem rápido e dificilmente deixam vestígios que possibilitem uma investigação bem-sucedida”, diz o delegado Fernando Augusto Nunes Tedde, titular da Delegacia de Investigações Gerais (DIG) de Rio Preto.

 

Nas 12 ocorrências em que houve prisões, a maioria (30) foi presa em flagrante, como na madrugada de ontem em Populina (leia mais nesta página). Apenas 11 foram detidos com mandado judicial, após investigação policial. Ainda que sejam presos, os ladrões contam com a benevolência da Justiça. O Código Penal prevê pena de 2 a 8 anos de prisão por furto qualificado.

 

Mas a aplicação da pena máxima é rara. Os quatro detidos ao explodir um caixa eletrônico em Marapoama em outubro do ano passado, por exemplo, foram condenados a 4 anos de prisão em regime semiaberto. Mesma pena dos cinco flagrados em abril após estourarem um caixa em Onda Verde. Eles conseguiram na Justiça o direito de apelar da sentença em liberdade.

 

“A lei é branda demais para casos desse tipo. Não é um furto simples. Eles usam explosivos potentes, que colocam em risco outras pessoas”, argumenta o promotor criminal Sérgio Acayaba.

Sem tinta

Os valores furtados variam de R$ 25 mil a R$ 170 mil. Dinheiro limpo, segundo a polícia. “Tentaram acoplar uma máquina que manchava de tinta as notas no ato da explosão, mas não deu certo, porque as quadrilhas conseguem limpar o dinheiro”, diz o delegado Paulo Greco, do Grupo de Operações Especiais (GOE).
Das quadrilhas presas, três são de Sumaré e Campinas. “São grupos organizados, que planejam a ação com antecedência”, diz Tedde.
Uma delas foi presa em outubro do ano passado pela PM em Nova Granada, quando se preparava para explodir um caixa na cidade. Com eles foi apreendida uma banana de dinamite, uma espingarda e três pistolas.Antes, em fevereiro de 2012, a Polícia Civil prendeu 22 pessoas acusadas de integrar quadrilha de furto a caixas eletrônicos nas regiões de Araçatuba e Rio Preto.

O grupo orquestrou o assalto ao Fórum de Birigui em 2011, quando foram levadas 49 armas e R$ 50 mil em dinheiro.A polícia acredita que as quadrilhas comprem dinamites desviadas de pedreiras. Em novembro de 2012, a DIG de Rio Preto apreendeu 150 quilos de dinamite escondidos em um canavial em Icém. Parte do material havia sido furtada meses antes de uma pedreira da cidade. Cada banana era vendida a R$ 700. Dois foram presos.

 

Depois disso, a polícia fez uma varredura nas pedreiras da região para investigar novos desvios, mas constatou que o setor não usa mais o dispositivo. “Agora, eles misturam os produtos na hora da explosão das pedras”, diz o delegado Tedde. A nova técnica, porém, não freou a ação das quadrilhas, que vão buscar os explosivos em outras regiões do País.

Colaboração/Anderson Santtos
Eles foram presos em uma barreira policial armada em Araçatuba

Bando é preso logo após explodir caixa

Nove homens foram presos, ontem, após explodirem um caixa eletrônico do Bradesco em Pontalinda, região de Jales. A quadrilha foi detida na rodovia Elyeser Montenegro Magalhães (SP-463), próximo de Araçatuba. Foram levados R$ 37 mil do terminal eletrônico.

 

De acordo com o delegado de Jales, Sebastião Biasi, os ladrões utilizaram dinamite para explodir o equipamento. “O local ficou completamente destruído. Depois de pegarem o dinheiro, ainda jogaram uma garrafa plástica incendiária em frente ao grupamento da Polícia Militar da cidade e fugiram.”

O bando estava em dois carros – um Honda Civic e um Astra, ambos com placa de Santa Barbara d’Oeste. “Com base na informação que eles haviam fugido sentido Araçatuba, a polícia começou as buscas”, conta Biasi. Perto de Araçatuba o Civic foi o primeiro a ser parado em uma blitz. Nele estavam os R$ 37 mil levados do caixa, segundo o delegado. Quatro homens estavam no veículo e confirmaram a participação no crime.
Em seguida, o Astra foi parado na mesma blitz. Ele era ocupado por cinco homens, que disseram não ter envolvimento na explosão. “O argumento deles é que estavam vindo do Paraguai, mas os outros comparsas acabaram entregando eles. No Astra foi encontrado uma pistola calibre 380 e um revólver calibre 38. Ambos com munição e sem registro”, diz Biasi.

Presos em flagrante. Robert Machado Salustriano, 22, Carlos Alexandre de Souza, 28, Alecssander Alves Saqueti, 37, Cesar Barbosa de Oliveira, 31, Ricardo Neves da Silva, 31, Wagner Rogério Alves da Silva, 30, Paulo Henrique Barbosa, 22, Juliano Rafael Ferreira, 31, e Lomas Gonçalves, 27, foram levados para a cadeia de Jales. Eles vão responder por furto qualificado, explosão e formação de quadrilha. Segundo o delegado, também será investigado a relação deles com outros ataques na região.

Hamilton Pavam
Sebastião Domingos Leodoro pulou da cama com estrondo após caixa ao lado da sua casa ser detonado

Explosões tiram tranquilidade de moradores

As ações cinematográficas das quadrilhas especializadas em explodir caixas eletrônicas levam medo a locais onde, até então, imperava a tranquilidade. Desde que esse crime entrou na moda, há dois anos, os 1,8 mil moradores de Vila Roberto, distrito de Pindorama, não conseguem mais dormir sossegados. Foram três ocorrências desde então, duas com dinamite.

Ainda estão na parede da casa do aposentado José Frigério, 72 anos, as marcas do tiroteio entre os ladrões e a PM, minutos após os primeiros explodirem simultaneamente caixas eletrônicos do Banco do Brasil e do Bradesco, em junho deste ano.

A casa do aposentado fica localizada justamente entre os dois bancos. “Aqui não tem nem ladrão de galinha, é muito tranquilo. Mas, depois desses casos, as pessoas ficaram ressabiadas”, diz. Com a explosão, o Banco do Brasil decidiu desativar a agência no distrito. Mais prejuízo para Frigério, que é correntista do banco. “Quando preciso pagar uma conta ou sacar dinheiro, tenho que ir em Pindorama ou Itajobi.”A Polícia Civil de Pindorama não informou os valores furtados. Das três ocorrências, apenas uma resultou em um detido até agora.

Schmitt

Na madrugada do dia 5 de outubro do ano passado, o autônomo Sebastião Domingos Leodoro, 48 anos, dormia com a mulher quando ouviu um estrondo. “Dei um pulo da cama, quase caí. Minha mulher tinha operado do útero uns dias antes e precisou passar por nova cirurgia porque teve complicação devido ao susto”, diz.

Os ladrões tinham acabado de estourar dinamites nos caixas eletrônicos da agência do Bradesco em Engenheiro Schmitt, distrito de Rio Preto, vizinha da casa de Leodoro. Fugiram com quantia não revelada pelo banco à polícia. Como a agência não tinha câmeras e não havia testemunhas, o caso segue impune.
Ao que tudo indica, a quadrilha errou na dose de explosivos.

O telhado veio todo abaixo, e o imóvel teve de ser interditado pela Defesa Civil por risco de desabamento. “O prédio foi todo reformado, e o custo foi pago pelo seguro do prédio”, diz o dono do imóvel, Laércio Júnior Carmeloci, que alugava o imóvel para o Bradesco. Após o incidente, o contrato com o banco não foi renovado. “Não quisemos correr risco de acontecer de novo.” Atualmente funciona uma farmácia no local.

Febraban admite falha na segurança

Mecanismos de segurança implantados pelas agências bancárias têm sido insuficientes para impedir a ação de quadrilhas especializadas em explodir caixas eletrônicos, admite a Federação Brasileira de Bancos (Febraban). “É com extrema preocupação que os bancos vêm acompanhando os ataques a caixas eletrônicos em todo o Brasil. Os criminosos estão cada vez mais audaciosos”, informa nota da assessoria da entidade.

Mesmo assim, segundo a Febraban, o investimento em segurança nas agências cresceu 62,4% de 2003 a 2011, chegando a R$ 8,3 bilhões nesse último ano. No mesmo período, o número de agências teve aumento de 26% – de 27,2 mil em 2002, para 34,2 mil em 2011. Ainda conforme a assessoria, as agências são obrigadas a submeter um plano de segurança à Polícia Federal para poderem funcionar. O projeto se baseia nas características de cada agência, como localização, fluxo de pessoas e arquitetura do imóvel.

Para a entidade, é necessário combater a causa dos furtos. “Em primeiro lugar, impedindo que os bandidos tenham acesso fácil a explosivos, como vem acontecendo há três anos. Em segundo lugar, desbaratando as quadrilhas, o que se faz com ações de inteligência. Em terceiro lugar, dificultando o acesso dos bandidos ao produto do crime”, argumenta a assessoria.

A comissão de segurança bancária da Febraban desenvolve atualmente “novos padrões de proteção” às agências, em parceria com as polícias Civil, Militar e Federal. Os detalhes do projeto não foram divulgados pela assessoria.

Dinamite atrai pela eficiência

Além da dinamite, quadrilhas se valem de outros meios menos brutos para retirar dinheiro de caixas eletrônicos, como maçaricos e serras eletromagnéticas. Mas, se o método é discreto e não destrói nada do dinheiro, tem uma grande desvantagem: o tempo.

Enquanto um furto com explosivos dura no máximo dois minutos, o uso de ferramentas pode levar até uma hora. “Nesse tempo, podem chamar a atenção de alguém na rua ou da própria polícia”, diz o delegado Sebastião de Biasi, titular da DIG de Jales.

Em janeiro, uma quadrilha de Joinville (SC) abriu um caixa eletrônico do Banco do Brasil em Jales e levou R$ 90 mil. As câmeras da agência gravaram imagens de um dos carros do grupo. Pela placa do veículo, a DIG chegou ao grupo. “Eles praticaram pelo menos oito furtos no interior de São Paulo”, diz Biasi. Além do maçarico, usavam serra eletromagnética, que fixada no cofre faz pequenos orifícios em círculo.

Oito integrantes da quadrilha foram identificados pela DIG. Seis deles estão presos, e dois seguem foragidos. Em abril deste ano, outra quadrilha fez o maior furto na região com utilização de maçarico. Foram levados R$ 170 mil de um caixa instalado ao lado de um supermercado em Votuporanga. diarioweb.com

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password