Estudante narra efeitos da inalação do gás de buzina no cérebro

Era um churrasco entre amigos adolescentes em um condomínio fechado de Rio Preto. Primeiro, veio a cerveja. Depois, já no meio da festa, uma lata de spray. Era gás de buzina, só que sem a tampa. Na roda de jovens, cada um prensava o pequeno pino entre os dentes e deixava o gás encher a boca. Chegou então a vez da estudante M.T., então com 15 anos. “Tive um pouco de medo, mas a curiosidade foi mais forte. Pensei: tá todo mundo usando, por que não eu também?”

Primeiro, a jovem sentiu a garganta gelada. O gás, mistura de propano e butano, sem cor nem cheiro, sai do recipiente a -20ºC e chega à traqueia e aos brônquios no pulmão a -10ºC. Por isso, segundo o toxicologista da USP Anthony Wong, pode provocar queimaduras graves e permanentes nessas duas partes do corpo. Mas o “barato” do gás em M.T. ainda estava por vir. A substância não tem toxicidade no corpo humano, mas aos poucos toma conta dos pulmões e impede que o oxigênio chegue ao sangue e, por consequência, ao coração e ao cérebro.

Pouco oxigenado, o cérebro passa a transmitir ao corpo sensações anormais, como euforia, tontura e, em alguns casos, alucinações. “Parecia que eu estava completamente bêbada. Me sentia mais leve”, lembra a jovem, hoje com 18 anos. Como o efeito dura poucos minutos, é preciso inalar nova dose para recuperar o “barato”. “Tinha amigos que puxavam muito (gás). Mas nunca nenhum deles chegou a passar mal.” É justamente aí, segundo Wong, que está o perigo.

Se a falta de oxigênio no cérebro e no coração for prolongada, os riscos de um AVC ou de uma parada cardiorrespiratória são muito grandes. Foi o que aconteceu com a estudante Maria Luiza Perez Perassolo, 18 anos, no último fim de semana. Ela estava com amigos na casa de um vizinho no condomínio Village Damha 1, em Rio Preto. Após usar a substância, Malu começou a passar mal, debruçou-se na mesa e não levantou mais a cabeça. Percebendo que a jovem poderia estar com parada cardíaca, os amigos fizeram massagens no tórax, enquanto um deles ligou para o Corpo de Bombeiros.

Quando o socorro chegou, Malu já estava morta. Foi a segunda morte na região neste ano provocada pela inalação do gás de buzina. Em fevereiro, um estudante de medicina de Fernandópolis foi encontrado morto em casa ao lado de vários frascos do gás de buzina. Em 2009, na mesma cidade, uma estudante de medicina morreu ao inalar o gás em uma festa universitária. Em janeiro deste ano, uma estudante rio-pretense de 17 anos ficou dez dias na UTI do hospital Austa depois de inalar gás de buzina em uma festa no condomínio Damha 1. Ela sobreviveu.

M.T. voltaria a usar o gás mais vezes, mas parou há algum tempo. “Foi perdendo a graça. Agora, depois desses casos recentes, aí é que não dá para usar mais mesmo”, diz. Ela também disse que o susto provocado pelas duas mortes fez com que muitos amigos deixassem de inalar o gás. “As pessoas ficam com medo de acontecer algo mais grave.” Em janeiro, o Diário revelou que o consumo do gás de buzina em Rio Preto ocorre principalmente em festas de adolescentes em condomínios de luxo.

A maioria dos frequentadores tem entre 15 e 17 anos. Há muito consumo de bebida alcoólica, principalmente vodca, e de drogas, como maconha e mais recentemente gás de buzina. Segundo Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Unifesp, em São Paulo, o gás de buzina não provoca dependência. “Não é algo de uso diário, mas restrito a ocasiões específicas, como festas.”

 

Renato Pupo de Paula - 03042016Delegado Renato Pupo de Paula, do 3º D.P., investiga o caso

Polícia apura participação de três em morte

A Polícia Civil investiga o envolvimento de três jovens na morte da estudante Maria Luiza Perez Perassolo, 18 anos, no último dia 25, em Rio Preto. O inquérito apura o crime de homicídio culposo (sem intenção de matar). “Pode ter ocorrido falta de cautela, que resultou na morte da garota”, afirma o delegado-titular do 3º Distrito Policial (DP), Renato Pupo de Paula.

Até a última quinta-feira, dia 31, o delegado havia ouvido quatro pessoas – além dos três jovens, o avô de Maria Luiza. Pupo, que não quis revelar o conteúdo dos depoimentos, reconhece que ainda não há elementos para indiciar ninguém. “Ainda não há evidências de participação direta de terceiros na morte.”

Imagens cedidas pelo posto de combustível no Jardim Primavera mostram Malu, como era conhecida, com os amigos comprando o gás de buzina na loja de conveniência. O posto fica próximo ao condomínio Village Damha 1, onde a jovem mora. Em uma casa vizinha, ela teria consumido a substância. O laudo necroscópico do IML ainda não foi finalizado.

Falhas no socorro

O advogado Amaury Perez, avô de Maria Luiza, aponta para uma suposta omissão de socorro por parte dos colegas da neta. “Quando o pai da Malu chegou nem tinham acionado o Samu. Parece que estavam mais preocupados em destruir provas, jogando garrafa de vodca dentro de saco de lixo.” Para o avô, se a jovem fosse socorrida antes, poderia estar viva. “Faltou iniciativa dos que estavam lá na casa.”

Perez solicitou ao condomínio imagens das câmeras de segurança espalhadas pelo área interna. Ele deve entregar o material à polícia. O delegado também encaminhou ofício ao Samu pedindo os horários de chamada do socorro. Procurado, o dono da casa onde Malu morreu não quis se pronunciar sobre o caso. Perez lamenta a morte da neta. “Era uma menina de bem com a vida, saudável. Nem gripe ela pegava.”

 

Malu Perez - 27032016Maria Luiza Perez Perassolo, 18 anos, morreu no último dia 25

Carro dos sonhos

Estudante de direito, Malu ia ganhar dos pais o carro dos sonhos na semana de sua morte. Quem tentou socorrê-la foi seu pai de criação, Carlos Porto Júnior. Em entrevista ao Diário na última semana ele detalhou como foram aqueles momentos: “Na sexta-feira, jantamos juntos, e ela saiu para a área verde. Quando fui colocar minha filha (de seis anos) para dormir, tocou a campainha, por volta das 23 horas, e gritaram: ‘Mauriele (mãe) e Júnior, corre que a Malu tá convulsionando na casa do Alexandre’.

Minha esposa entrou em desespero, e corri até a casa onde estava e encontrei a Malu caída na garagem, com vômito e com um roxo em sua cabeça. Limpei o rosto, a boca, o nariz e tentamos fazer massagem, mas já foi em vão”, recorda. “Quando o Samu chegou e colocou ela na rua do condomínio, tentou todos os procedimentos, desde injeção, massagens, com bomba de oxigênio. Não tinha mais o que fazer.”

Proibição divide opiniões

Aprovado por unanimidade pelos vereadores rio-pretenses na última semana, o projeto que proíbe a venda de buzina de gás na cidade divide a opinião de especialistas. Para o toxicologista Anthony Wong, a proibição é inócua. “Tudo depende do uso que se faz da substância. Uma faca de cozinha faz mal a alguém? Depende do uso. Assim é com o gás”, compara.

Já para Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas na Faculdade de Medicina da Unifesp, a restrição de venda faz sentido. “O controle da venda também reduziu o consumo de cola de sapateiro nos anos 80”, lembra. O projeto do vereador Paulo Pauléra agora segue para sanção ou veto do prefeito, Valdomiro Lopes. Para Pauléra, a fiscalização ficará a cargo de servidores da Prefeitura ou até da polícia.

 

Arte - gás de buzina 02 - 03042016clique na imagem para ampliar

“Pelo meu projeto, é proibido usar a buzina. Mesmo se alguém comprar fora não pode usar aqui”, disse. O projeto prevê multa de R$ 5 mil e até cassação de alvará de estabelecimento que comercializar a buzina. O valor da multa pode ser dobrado em caso de reincidência e o estabelecimento terá o alvará cassado. A multa também vale para quem for pego distribuindo ou portando o produto na cidade.

A assessoria de Valdomiro afirmou que a Procuradoria Geral do Município vai analisar a legalidade do projeto para o prefeito decidir se veta ou não a proposta. Juízes e promotores também divergem sobre a legalidade e a eficácia da nova norma. Para o juiz da Infância e Juventude de Rio Preto, Evandro Pelarin, a medida “é positiva”. “Ajuda a evitar o contato fácil de menores com essa substância”, afirmou na última semana. Mas na avaliação do promotor Carlos Romani, o projeto tem “problemas legais”. “Proibir um produto que tem a venda autorizada tem viés de inconstitucionalidade.”

(Allan de Abreu, com Vinicius Marques – diarioweb.com.br)

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