Em surto, menor chega a 9 dias amarrado em cama de hospital

Com pés e mãos amarrados por ataduras de pano a uma cama – por prescrição médica, segundo a presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), Cristiane Silva de Souza Ferreira – o menino M., de 14 anos, completa hoje nove dias nessa situação.

 

Dependente químico, ele está “preso” na Unidade Mista de Saúde de Fronteira (MG) depois de apresentar um surto psicótico.

“Ele precisa ser contido ao leito”, definiu a conselheira, repetindo o que ouviu da psiquiatra que atende no local e ontem estava em Frutal, onde mora. De acordo com familiares, o menino é dependente de drogas (maconha, cocaína e crack) e esse teria sido o motivo do surto. O garoto discutiu com o irmão mais novo, de 13 anos, e passou a agredir os familiares.

“Ele ficou totalmente descontrolado, quebrou tudo, não tinha quem conseguisse controlá-lo”, afirmou o pai, que está como acompanhante, ao lado do filho e indignado com a situação. Os nós que o prendem à cama são desatados apenas quando ele precisa ir ao banheiro. As mãos são soltas apenas no momento da refeição. O pai fica ao lado, acompanhando cada passo do menino.

“Eu não quero mais ficar aqui. Já estou bem e convencido de que as drogas são verdadeiras ilusões. Não levam a nada”, diz o menor, enquanto coloca as mãos no rosto. Com voz pastosa, ele conta que foram as más companhias que o apresentaram ao submundo da droga. “Eu tinha uns amigos que fumavam uns baseados e um dia pedi um trago, gostei, passei a fumar sempre. Quando não tinha dinheiro, pedia para meu pai e ele me dava”, conta o menino, dopado pela medicação.

“Um dia eu cheguei na mercearia, de bicicleta, peguei uma arma e mandei passar o dinheiro. O cara achou que eu estava brincando e demorou para dar o dinheiro. Ameacei e ele me entregou R$ 600”, afirmou. Os familiares do menino pedem que a situação dele seja resolvida o mais rápido possível. “Uma criança não pode ficar tantos dias presa à uma cama. Ele está triste, depressivo, essas marcas ficarão para sempre na cabeça dele”, informa uma tia que preferiu não se identificar.

De acordo com ela, o garoto tem mais quatro irmãos. “Tem um de 18 e um de 13, que usam entorpecentes, inclusive o crack. Se nada for feito, a situação deles vai piorar. Minha irmã, mãe deles, morreu aos 26 anos por causa da droga. Não quero esse fim para eles”, afirmou uma tia. A unidade de saúde onde o garoto está internado está em reforma e não tem segurança alguma. A equipe do Diário teve acesso ao quarto onde o garoto está internado sem ser questionada por qualquer funcionário.

“Ele já tentou fugir aqui duas vezes. Em uma delas ele se desamarrou da cama e tentou pular a janela lateral, mas o vidro estava fechado e ele acabou batendo a cabeça na janela. Na outra vez ele pegou uma tesoura, chegou a ameaçar os funcionários, mas foi contido”, completou a tia.

Familiares não ajudam, afirma secretária

A secretária de Assistência Social de Fronteira, Roberta de Campos Fernandes Toledo, afirmou que o menino M. é acompanhado desde julho de 2013 e que a situação chegou a esse extremo porque a família dele não participa dos atendimentos oferecidos pelo Centro Regional de Assistência Social – Cras.

“Quando identificamos essa situação na família, tratamos todos os membros, pais, avós, irmãos e assim por diante. Oferecemos apoio psicológico, visitas nas residências e todo o apoio necessário, mas, nesse caso, os familiares também não ajudavam”, explica a secretária. Roberta diz que o município mantém convênio com comunidades que realizam tratamento de dependentes químicos e que está disposta a fazer tudo o que for possível para reverter o quadro do menor.

“Estamos aguardando um parecer do juizado da infância para a internação ou não. Assim que ele decidir, vamos cumprir a ordem judicial. Esse tipo de internação é compulsória e só pode ser realizada com o aval do juiz”, explica Roberta.

De acordo com informações apuradas junto ao Ministério Público de Fronteira, o laudo médico emitido pela psiquiatra do município não foi suficiente para que o pedido de internação fosse encaminhado para a apreciação do juiz. Faltava no documento o prazo que o garoto deveria permanecer internado na instituição.

A presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA), Cristiane Silva de Souza Ferreira, informou que um novo laudo deve ser entregue hoje e o documento será encaminhado para apreciação do juiz que vai decidir o destino do garoto.

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