Em 6 anos, 56 médicos pedem demissão dos postinhos de Rio Preto

Falta de plano de carreira, más condições de trabalho e insegurança, além, é claro, da obrigatoriedade de cumprir a carga horária com controle de ponto. Esses são alguns dos motivos que fazem com que os médicos desistam da rede municipal de saúde de Rio Preto. De janeiro de 2009 até ontem, 56 médicos concursados pediram exoneração.

A evasão dos profissionais provoca uma série de efeitos colaterais, como as intermináveis esperas de pacientes por consultas. “A área que mais solicita exoneração é a da atenção básica, seguida da urgência e emergência”, afirma Teresinha Aparecida Pachá, secretária de Saúde do município. É na área de urgência e emergência que os pacientes chegam a esperar cinco horas para ser atendidos nas Unidades de Pronto Atendimento (UPAs).

Ou precisam peregrinar pelas cinco unidades para encontrar um médico que atende determinada especialidade. “Minha filha está com tosse e febre. Só tem pediatra na UPA Norte. Com isso, lota de criança e demora no atendimento. Corta o coração ver os pais andando de um lugar para outro com o filho no colo, em busca de atendimento”, afirma Mileni Cristina da Silvia Leite, 24 anos.

Nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) e Saúde da Família (UBSF) a evasão de médicos causa demora no agendamento, no retorno das consultas e no cancelamento dos atendimentos. Na unidade do Nova Esperança falta ginecologista, por exemplo. Para tentar reverter a situação, a Prefeitura realizou três concursos para médicos nos últimos seis anos. No realizado no ano passado, destinado a plantonistas, a tentativa de contratar 167 fracassou.

Apenas 150 profissionais se inscreveram e somente 88 foram considerados aptos na avaliação final para a função. Apesar de ter aumentado o número de médicos em relação a 2009 (de 474 para 506), a Prefeitura reconhece que necessita de mais 45 para trabalhar na rede. Entre as diversas áreas de atuação, a de atenção básica é a que mais necessita, segundo a secretária Teresinha.

O município encontrou no programa federal “Mais Médicos” uma das saídas para preencher as vagas. No ano passado, o município recebeu 10 profissionais por meio do programa, sendo cinco cubanos, um italiano e quatro brasileiros. Eles atuam nas UBSs e UBSFs. O município pediu mais 25 ao governo federal, para que atuem nas unidades ainda não contempladas. O pedido está sendo analisado pelo Ministério da Saúde.

Ponto eletrônico pode aumentar evasão

A obrigatoriedade dos médicos e dentistas de registrar a jornada de trabalho no ponto eletrônico, com base em decisão judicial, pode resultar em aumento de pedidos de exonerações da rede municipal de saúde. “Se continuar a saúde como está e for implantado o ponto, eu tenho certeza de que vai ter evasão em massa”, afirma o presidente da Sociedade de Medicina e Cirurgia em Rio Preto, Geovanne Furtado de Souza.

No dia 30 de maio do ano passado, a Prefeitura de Rio Preto anunciou a instalação de 55 aparelhos digitais com controle biométrico, nas unidades de saúde da cidade. Os médicos da rede pública formaram comissão para apresentar propostas em busca de melhorar as condições de trabalho e atendimentos. Atualmente, a maioria das 26 unidades básicas de saúde do município ainda não conta com o equipamento.

Os médicos que prestam serviço para a Prefeitura por meio de convênio, como aqueles contratados pelo HB e pelo Ielar, também não registram frequência pelo sistema. Os pontos foram instalados somente nas cinco Unidades de Pronto Atendimento (UPA) onde trabalham os médicos concursados e todos são obrigado a passar o dedo no aparelho biométrico que controla o horário de entrada e saída.

Há 10 dias, o juiz da 3ª Vara Federal de Rio Preto foi favorável ao pedido do Ministério Público Federal e agora a Prefeitura tem 20 dias (o prazo total são 30) para os médicos e dentistas, da rede municipal registrarem a jornada de trabalho no ponto eletrônico. Em caso de descumprimento, a multa é de R$ 5 mil por dia de atraso.

Por meio de nota, a Prefeitura informou que vai cumprir a decisão judicial. “Esperamos, no que se refere ao assunto, que haja compreensão de todos os profissionais a fim de não prejudicar a assistência à saúde da população”, afirma Teresinha Aparecida Pachá, secretária de Saúde.

Plano de carreira poderia amenizar

Para o presidente da Sociedade de Medicina de Rio Preto, Geovanne Furtado de Souza, a criação de um plano de cargo, carreira e salário é uma medida que estimularia os médicos a continuar na rede municipal de saúde. “Isso ia dar mais clareza para os profissionais que ingressam no cargo público, além de incentivar o médico. Um exemplo é uma médica que trabalha há 27 anos na rede e ganha R$ 6 mil.

Que motivação essa profissional tem?”, diz ele. O médico destaca que as condições de trabalho precisam ser revistas e readequadas pelo município. “Tem unidade de atendimento que não tem estrutura básica. Fora que a resolutividade do caso é baixa. Existe uma demora para se ter resultados de exames e encaminhamentos para especialidades. Uma coisa vai complicando a outra, o que resulta em médico desmotivado e profissional desassistido.”

Médicos “apanham”

Souza afirma que a falta de segurança é outra questão destacada pelos médicos. “São frequentes os casos de profissionais que apanham de paciente. O médico entende a situação do paciente que está esperando horas ou meses para ser atendido. Ele vai acabar descontando na atendente ou no médico que aparecer na frente.

Tem médico que tem medo de trabalhar em determinas unidades de saúde.” A Prefeitura afirma que tem projetos para valorizar os profissionais de saúde e que, atualmente, estão em análise orçamentárias para posterior discussão com os interessados”. Um dos planos da Prefeitura, anunciado esta semana em decreto do prefeito Valdomiro Lopes, é pagar bônus de até 2,6 mil mensais por pontualidade, assiduidade e produtividade dos médicos. Larissa de Oliveira/Diário da Região

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