Dores e memórias – Orlando Ribeiro

O mundo está mudando e o progresso tão decantado cria, em cada vez maior número, meninos de rua, homens e mulheres sem teto, sem família, sem amigos e uma multidão de sem afetos. Um monte de gente que vive só nas praças, em bancos de jardim, nas entradas de prédios e lojas, ou simplesmente na rua mesmo.

 

O pior é que este povo parece que se transformou em elementos da paisagem, ou seja, ninguém se impressiona, emociona ou surpreende com a presença deles ali, nos habituamos com a sua presença e, por isso, nem ligamos mais. Nós passamos por eles, olhamos, por vezes reparamos e sentimos um certo desconforto, mas, quase sempre, impávidos e insensíveis, passamos ao largo.

 

Na rapidez de nossos cérebros de juízes, justificamos nossa indiferença, condenando esta gente, dizendo que “se estão assim, é porque merecem estar, são vagabundos, marginais, preguiçosos ou qualquer coisa que não valha nada”.
Não imaginamos que são pessoas marcadas por tragédias familiares e rupturas relacionais, ou contaminados por doenças graves ou por comportamentos aditivos, que não têm casa para morar, que sofrem pela falta de emprego e que, embora morem nas ruas e sejam rodeados de centenas de outras pessoas, por sons e movimento, são tão sós. Muitos jamais tiveram qualquer tipo de relações afetivas.

 

Desconhecem o conforto ou o calor humano de um abraço, jamais tiveram a cumplicidade do sorriso sincero de um amigo, de um familiar. Nem mesmo sabem o que é assistir a um programa de televisão no aconchego de um sofá macio, nunca tiveram uma refeição quente E, na vida, o único sentimento certo que possuem é o de saber que, para o resto do mundo, eles não existem.
Porém, é preciso tão pouco para modificar isso. Não, não é questão de dinheiro. É questão de humanidade. Essas pessoas, apesar da imensa pobreza que os cerca, são gente rica de experiências anteriores, de histórias. A única coisa que possuem de seu são as memórias. Memórias de suas dores, de seus infortúnios, de sua teimosia em viver. Apenas lhes restam lembranças. E se nós pararmos para ouvi-los? Estaremos dando uma chance de provarem que são e estão vivos. Deixemos que eles nos contem sobre suas caminhadas a passos largos pelos caminhos de tristeza, sombra, e solidão, de como bateram no fundo dos poços.
Há alguns anos, conheci um morador de rua, barba e cabelo compridos. Falava sózinho. Parei, um dia para ouvi-lo. Ele se animou e passou a contar sua história da vida. Fora uma pessoa que teve mulher, filhos, amigos, uma carreira. No entanto, tudo foi destruído pelo álcool, que corroeu primeiro seu corpo, depois seu caráter e acabou por destruir sua família. Depois, claro, foi despedido, despejado e. passou a morar na rua.

 

Tem andado de cidade em cidade, de praça em praça, de rua em rua, nunca mais falou com a mulher e os filhos, de quem tem muitas saudades. O que mais lhe dói é a vergonha ou a frustração. Os malefícios do álcool trazem outros problemas de saúde, físicos e mentais. Até quando terá ainda a lucidez?

 

E as recordações, até quando ficarão? O resto do homem já se extinguiu há muito, suas experiências e vivências tão idênticas às nossas, nasceram no abismo em que as vemos. Mas, talvez, ouvi-lo, possa lhe dar um último alento. Quem sabe, o único alento que teve nos últimos anos…

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