DOAÇÃO DE ÓRGÃOS: um gesto, dezenas de vidas novas

Após morte por acidente, família de homem de 31 anos da região doa coração, fígado, pâncreas, rins, ossos e córneas – órgãos que vão dar esperança a dezenas de pessoas.

 

A generosidade de uma família da região de Rio Preto vai mudar a vida de dezenas de outras. Ela resolveu doar rins, pâncreas, fígado, ossos, córneas e o coração de homem de 31 anos que morreu nesta terça-feira, 20, após um acidente de carro. O coração foi captado por uma equipe do Albert Einstein, de São Paulo, e a operação contou com o apoio de um avião da Força Aérea Brasileira (FAB).

Segundo o Hospital de Base, onde o doador ficou internado, os familiares não quiseram identificá-lo. Fora o coração, todos os órgãos e tecidos foram captados pelo HB. As córneas ficaram na própria instituição; um dos rins, o fígado e o pâncreas foram ao Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto; o outro rim foi para Botucatu e os ossos seguiram para o Banco de Tecido Músculo Esquelético da Universidade de Marília – onde serão moídos e, a partir dos fragmentos, as partes de ossos de que os pacientes precisam serão montadas. Por isso, são dezenas vidas que serão modificadas.

O coração pode ficar no máximo quatro horas fora do corpo, desde que armazenado em recipiente correto. Em uma corrida contra o tempo, um avião da FAB deslocou-se para Rio Preto para garantir que chegasse ao Albert Einstein a tempo.

Para o transporte do HB até o aeroporto, foi preciso apoio da Guarda Civil Municipal, que disponibilizou cinco agentes em motocicletas para escolta, abrindo o caminho pelo trânsito para agilizar o trajeto de 3,3 quilômetros, que foi feito em menos de dez minutos. “Isso muito nos honra, a gente vê que está ajudando alguém”, afirma Silvio Pedro da Silva, diretor da GCM.

O órgão seguiu para o Albert Einstein com o avião da FAB, onde foi colocado na terça em um homem com doença de Chagas.

O transporte de órgãos é uma das funções da FAB. A Central Nacional de Transplantes aciona a Força Aérea em alguns casos. O avião selecionado é aquele que estiver disponível mais perto da origem ou destino do órgão que precisa chegar ao receptor. O C-95 Bandeirante utilizado na missão fica na base aérea de Santa Cruz, no Rio de Janeiro.

Solidariedade

De acordo com a Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), em dezembro de 2017 havia 32.402 pessoas na fila por um rim, fígado, pâncreas, coração, pulmão ou córnea. A fila é nacional e anda de acordo com a prioridade.

No HB, 24% das famílias recusaram a doação em 2017, menor que o índice de 37% do Estado. João Fernando Picollo, coordenador da Organização de Procura de Órgãos (OPO) da instituição, acredita que as pessoas estão ficando mais conscientes da importância de ajudar as outras mesmo após a morte.

O ideal é que quem tem o desejo de doar comunique isso à família. “Naquela hora de sofrimento vai ficar bem mais fácil tomar a decisão.” Segundo o médico, os parentes tendem a respeitar o último desejo de quem se foi. “Às vezes a pessoa não se manifestou, mas a gente vê que estão optando pela doação. As pessoas da nossa região são muito solidárias.”

(Colaboraram Marco Antonio dos Santos e Rodrigo Lima)

O caminho do bem

Doador vai beneficiar dezenas de pessoas. Homem, 31 anos, morador da região morreu após acidente de trânsito.

Para onde foram os órgãos

  • Córneas – Rio Preto
  • Coração – Hospital Israelita Albert Einstein, São Paulo (a equipe paulista veio a Rio Preto fazer a coleta)
  • Fígado, pâncreas e um rim – Hospital da Clínicas, em Ribeirão Preto
  • Um rim – Botucatu
  • Ossos – Banco de Tecido Músculo Esquelético da Universidade de Marília

Para quem vai o coração?

Para um homem que tem Doença de Chagas. O transplante foi realizado na terça-feira, dia 20.

Quantas pessoas vão ser beneficiadas pelas doações?

Dezenas, pois os ossos são triturados e cada receptor recebe apenas a parte de que precisa.

O novo coração de Bruno
Divulgação/Hospital de Base
Bruno, 36 anos, recebeu novo coração e está contente com a nova vida

Bruno Buratto, 36 anos, espera nova vida. Até pouco mais de uma semana atrás, ele não conseguia andar mais que uns poucos metros, comer ou mesmo respirar. Portador da doença cardíaca genética miocardiopatia hipertrófica diagnosticada há três anos, fazia uso de medicamentos, tinha marcapasso e estava na fila pelo transplante de coração desde dezembro. Na quarta-feira, 14, pela manhã, ele recebeu a notícia de que o órgão havia chegado. A cirurgia foi feita na tarde do mesmo dia.

“A sensação é inexplicável porque eu estava tão doente, tão triste. Quando eu recebi a notícia que ia fazer o transplante a emoção foi tão grande que estou até agora sem saber o que falar”, comemora.

Bruno conta que perdeu a mãe, Antônia, há sete meses, vítima da mesma doença cardíaca, justamente quando estava fazendo os exames para receber um transplante. “Eu tive a sorte e a oportunidade de receber o transplante, ela não teve.”

O morador de Adolfo deseja voltar a trabalhar na roça com o pai, José Reinaldo. A família cultiva soja e cria gado. O paciente voltará a morar com o pai e as irmãs Vanessa e Viviane. “Eu não conseguia nem ter uma vida, estava cada dia mais magro, mas agora totalmente diferente. Vou ter uma vida nova. Com cinco dias da cirurgia já estava andando, meu apetite mudou, mudou tudo. Quero ter uma vida boa, poder trabalhar.”

O cirurgião cardíaco Marcelo Sores garante que, com os cuidados necessários, Bruno poderá ter uma rotina normal. Ele recebeu o coração de um rapaz de 18 anos que estava internado no Hospital de Base após um acidente de trânsito. “O Bruno está bem, é só tomar os moduladores e tratar alguma possível complicação. Acreditamos que ele vai evoluir muito bem”, pondera o médico.

Neste ano, foram feitos três transplantes de coração no HB e todos os pacientes estão vivos. Em 2017, quando o serviço foi retomado, foram cinco. A expectativa é fazer pelo menos uma por mês e gradativamente aumentar pra duas a cada 30 dias. Um paciente da fila comum – sem prioridade – espera em média de três a quatro meses pelo órgão. Nos casos mais graves, a espera é de 20 a 30 dias.

Millena Grigoleti – diarioweb.com.br

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