DNA vai dizer se homem que atacou filhas é pai de 5 netos

A casa humilde, isolada nos fundos de um distrito de Fernandópolis, abriga uma família marcada pelo horror. Foram 25 anos de sucessivos abusos sexuais, cometidos pelo aposentado “Carlos”, 56 anos, contra duas filhas, e em seguida contra as próprias netas, que, suspeita a polícia, também são filhas do chefe da família.

Carlos foi preso em outubro do ano passado, quando uma das netas, Manuela, 14 anos, decidiu narrar os abusos a uma enfermeira da Unidade Básica de Saúde (UBS) do bairro. O que veio à tona a partir do relato dela foi um quebra-cabeça aterrorizante de incestos que a Polícia Civil e o Ministério Público ainda não terminaram de decifrar.

O Diário teve acesso com exclusividade ao inquérito contra Carlos – todos os nomes da reportagem são fictícios, para preservar as identidades das adolescentes – e entrevistou pela primeira vez os protagonistas desta história macabra. Os abusos começaram em 1987, quando Aline, filha de Carlos, começou a ser abusada pelo pai aos 11 anos de idade. À polícia, Aline disse que “não ‘olhava’ seu pai ‘como um pai’, e sim como ‘homem, sentia atração física por ele, sentia desejo sexual”.

Na mesma época, Carlos investiu também contra outra filha, Elaine, então com 13 anos. Mas, diferente da irmã, ela denunciou o pai à polícia em 1992, e o aposentado foi denunciado à Justiça por estupro. Por falta de provas, acabou absolvido. E os abusos persistiram. Segundo Aline, seus cinco filhos são de Carlos, o pai-avô. A primeira, Adriele, morreu logo após nascer. Depois veio Mírian, hoje com 20 anos, Marcela, 16, Manuela, 14, e Murilo, 7.

Há vários anos Aline vinha dividindo a mesma cama de Carlos – a mãe dela e mulher do aposentado, Zaíra, dorme em outro quarto e garantiu à polícia não saber de nada. À polícia, a mulher fez críticas a neta: Chamou Manuela de “regateira” e chegou a afirmar que “na escola só quer ficar no meio dos homens”.

Filhas-netas

Com o nascimento do caçula, a libido de Carlos voltou-se às filhas-netas Marcela e Manuela, ambas deficientes mentais. Os abusos duraram seis anos, segundo o Ministério Público, e começaram quando a mais nova, Manuela, tinha apenas 8 anos. Manuela, hoje em uma casa-abrigo da cidade, não gosta de lembrar dessa época. Para a polícia, disse que o avô “passou a mexer em suas partes íntimas” – as frases seguintes são impublicáveis.

Os abusos contra as duas ocorria dentro de casa, quando não havia mais ninguém, ou no meio de um canavial, quando Carlos levava as filhas-netas de carro até o psicólogo. “O que ele fazia comigo não é legal”, disse Manuela ao Diário. Ela disse que não denunciou o aposentado antes porque todos na família dependem dele. “Ele não pode sair de casa porque todos precisam dele, só ele que entende as doenças que todos têm, os remédios e os médicos que tem que levar”, afirmou à polícia.

No dia 20 de outubro, Manuela procurou a enfermeira do distrito onde ela mora e desfiou sua narrativa do horror. A enfermeira repassou o caso ao Conselho Tutelar, que comunicou a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM). Carlos acabou preso no dia seguinte, e atualmente responde a processo por estupro de vulnerável. Está no Centro de Detenção Provisória (CDP) de Andradina.

O Instituto Médico-Legal (IML) atestou ruptura do hímen de Marcela e Manuela, e a DDM aguarda o resultado dos exames de DNA para comprovar que todos os filhos de Aline têm Carlos como pai. “O laudo deve chegar nos próximos dias”, afirma a delegada-titular, Eda Honorato. Já o advogado de Carlos, Bruno Miranda de Carvalho, disse que irá pedir à Justiça um exame de sanidade mental no réu. “Ele tem problemas mentais, tanto que faz tratamento psicológico em Votuporanga”, diz. Caso seja considerado insano, a prisão será substituída por medidas como a internação e o tratamento. Enquanto isso, no abrigo, alheia às investigações, Manuela, uma adolescente franzina e tímida, diz ter saudade da mãe, mas não quer mais conviver com o avô. “Ele fez maldade comigo.”

Relação gera complicação genética

Dos cinco filhos que Aline teve, segundo ela, com o pai, uma morreu logo ao nascer, e duas têm problemas mentais. Isso se explica pelo incesto, segundo a geneticista da Faculdade de Medicina de Rio Preto (Famerp) Ely Goloni. Quando um pai tem um filho da própria filha, explica, o risco de o bebê ter problemas neurológicos, incluindo o retardo mental, aumenta em 40%.

Todos os animais, incluindo o ser humano, apresentam genes recessivos para doenças genéticas. Em pessoas saudáveis, eles não se manifestam devido ao gene dominante. No entanto, quando esse gene recessivo encontra outro igualmente recessivo e muito semelhante, como o de um irmão ou de uma filha, ele se torna dominante, e surgem as doenças. “Quanto maior o grau de parentesco, maiores as chanches de coincidirem esses genes”, diz a especialista.

Em condições normais, quando há cruzamento de pessoas sem parentesco, as chances de doenças de origem genética são de 4%, percentual considerado baixo. Entre primos de primeiro grau, a probabilidade é de 13%, médio. Entre pai e filha, as chances são de 38,9%, índice alto. “A visão negativa do incesto não tem somente um fundo moral. Também se explica pela evolução genética”, afirma Ely.

Filha diz que tem ‘carinho’ pelo pai

Aline, 35 anos, diz ter saudade do pai. “Tenho muito carinho por ele. A gente ora muito para que ele volte para casa, porque a falta que ele faz é grande”, diz a filha, evangélica. Perguntada de seus filhos são de Carlos, Aline se esquiva. “Não quero falar sobre isso, moço. É muito difícil.” Como Carlos é o único que sabe dirigir na casa, a família toma ônibus todas as vezes em que precisa se deslocar até Fernandópolis. “Minha filha mais velha até tirou carta, mas tem medo de pegar a estrada”, afirma Aline.

Tanto ela quanto Zaíra, mulher de Carlos, juram que Carlos não abusou das netas-filhas. “Ele sofreu derrame e toma muito remédio. Não tem tesão, não tem ereção. Não dá conta de estuprar ninguém”, garante Zaíra. Ambas culpam a irmã de Aline, Elaine, pelas acusações contra Carlos. “Não foi a minha neta que assinou o depoimento. Foi a minha filha que armou tudo isso. Ela destruiu nossa família”, diz. O caso, segundo Aline, foi agravado pelo “fuxico” no bairro. “O povo aqui fala demais. Por isso a gente é isolado, não conversa com ninguém.” (Allan de Abreu – diarioweb).

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