Cresce envolvimento de meninas na criminalidade

Nem bem completou 15 anos, Mariana (nome fictício) conheceu pela primeira vez uma cela de delegacia mês passado. Foram 24 horas atrás das grades no plantão policial de Rio Preto, após a menina desacatar PMs durante blitz na casa no Vale do Sol, zona norte da cidade, em que ela estava com mais duas amigas e um garoto, todos menores. Com o grupo, os policiais encontraram a réplica de uma pistola semiautomática e uma pedra de crack. “Polícias filhas da puta”, gritava, segundo os policiais. “Vamo matar tudo a tiro.”

A PM chegou até Mariana pelas fotos que a bela menina loira de olhos verdes se gaba de exibir nas redes sociais. Em uma delas, segura uma pistola – justamente a apreendida pelos policiais. Em outra, exibe uma espingarda de pressão. “Essa daai é so chunbin e (é) qeeh nois teve qe apaga a qe nois tava com o oitao (revólver calibre 38)”, escreveu em sua página na semana passada, após ser apreendida. Mariana também posta fotos dos braços tatuados ou fumando maconha. “Kkkkk gostto maiis doo qee lasanha”, escreveu. Em outro, foi mais direta: “Se sentindo loka de maconha”.

Mariana espelha o envolvimento cada vez maior de meninas rio-pretenses no submundo do crime. Somente de janeiro a abril deste ano, a polícia flagrou 12 delas cometendo atos infracionais, a maioria por tráfico de drogas. O número equivale à soma dos anos de 2012 e 2013 inteiros.

O namorado traficante costuma ser a porta de entrada das adolescentes na criminalidade, afirma o Conselo Tutelar. “Ser mulher do chefe do tráfico do bairro é o objetivo maior de muitas delas, porque dá status com as colegas”, diz a conselheira Stela Maria Atanázio.

A impunidade também explica o aumento dos números, na opinião do promotor José Heitor dos Santos. “O tráfico usa cada vez mais as meninas nas bocas porque sabe que, na ampla maioria dos casos, elas serão postas em liberdade”, afirma. Isso ocorre, segundo ele, porque não há unidade de internação para meninas da Fundação Casa na região. A mais próxima fica em Cerqueira César, na região de Ourinhos, a 330 quilômetros de Rio Preto. “Só vão para lá meninas flagradas em atos infracionais mais graves, como roubo ou tráfico reiterado. As demais são liberadas para a família”, diz Santos.

Nos últimos quatro anos, 27 meninas foram apreendidas em Rio Preto pela PM. Mas só 15 deram entrada na Fundação Casa. As cinco unidades femininas do Estado estão lotadas. No início do mês, eram 413 internas para 379 vagas. O Ministério Público de Rio Preto instaurou inquérito civil para apurar o problema. A investigação ainda não foi concluída.

Dados do Conselho Tutelar da zona norte confirmam o crescimento de atos infracionais cometidos por meninas. Em 2013, a entidade registrou 3.734 ocorrências de envolvimento de adolescentes do sexo feminino com álcool e drogas – média de dez por dia –, um número 145% maior do que no ano anterior. O Conselho da zona sul informou não dispor desse tipo de estatística.

Reprodução Facebook

Rebeldia

Segundo a mãe, a empregada doméstica A.F.S., 42 anos, a rebeldia de Mariana aflorou aos 12 anos, quatro após a separação dos pais. “Ela passou a andar com uma molecada barra pesada do Santo Antonio”, afirma. A réplica da pistola e a espingarda pertencem a esses amigos, assegura a mãe.

Atrair a polícia para o bairro Vale do Sol com as fotos de armas no Facebook contrariou os traficantes do local. Um deles ameaçou Mariana na rede social. “Depois cola policia na quebrada eai como fica”, questiona o rapaz. “Fica postando fotinha de arma e pá ai mió fica di boa em (heim).” A.F.S. admite que a filha é usuária de maconha, mas não acredita no vício em crack. “Já conversei, já bati, mas não adianta.” Procurada pela reportagem, a menina não quis conversa.

A mãe aposta que o susto da cadeia tenha sido uma lição definitiva para a filha. “Ela dormiu em um colchão imundo e disse que a comida era horrível.” Mas a página da filha no Facebook atesta o contrário: “Liberdade o bagui e (é) loko em (heim) mais graças a deus tamo ai com meus alidos tumutuano paah carai”, escreveu, dois dias depois de deixar a cela.

Região Noroeste
O taxista Doacyr Reis da Silva na delegacia em Fernandópolis; ferimentos no rosto, pescoço e braço

Garota feriu taxista com estilete em roubo

O enredo é conhecido. Pais separados, bêbados ou viciados. Filhos sem referência familiar que cedo rumam para o caminho das drogas e do crime. Graziela, nome fictício de uma menina de 14 anos, seria só mais uma personagem dessa novela da vida real cada vez mais comum. Mas ninguém imaginava que a menina iria tão longe no papel de garota-problema. Graziela nasceu em fevereiro de 2000 na periferia de Fernandópolis.

Tanto o pai quanto a mãe eram alcoólatras e viciados em crack. Ambos morreram de cirrose – ela em 2011; ele, um ano depois. Sozinha, a menina foi para a casa abrigo do município. Nessa época, já era viciada em maconha e crack. Por isso, quando vinha a vontade da droga fugia, e só voltava dias depois, toda suja e maltrapilha.

Na escola, era rebelde, detestava estudar. Depois de sucessivas repetências, abandonou a sala de aula na 5ª série. Na casa abrigo, também não durou muito. Depois de um ano, foi morar com uma tia e, logo em seguida, ganhou a rua. Foi apreendida várias vezes por tráfico e agressão. Chegou a passar um período na Fundação Casa, em Cerqueira César (SP). Mas não recuou. Saiu de lá pior, decidida a fazer o que fosse necessário para conseguir a pedra de todo dia.

Com outro adolescente e Fábio Feltrin, 39 anos, decidiram assaltar um taxista da cidade. Era início da noite de 17 de março deste ano quando o trio chegou ao ponto. Encontrou o taxista Doacyr Reis da Silva, 70 anos. Os três pediram uma corrida até Valentim Gentil, cidade próxima. Fábio foi na frente, os adolescentes no banco de trás. No meio do caminho, Fábio pediu para parar o carro. Queria urinar. Ao sair do carro, deu a volta e segurou a porta do taxista, para impedir que ele fugisse. Nesse instante, o adolescente segurou a cabeça de Doacyr e Graziela puxou um estilete.

“Cadê o dinheiro, porra”, gritava a menina, enquanto golpeava o pescoço e o braço da vítima. “Era assustador ver a reação da menina. Ela parecia ser a mais violenta dos três. Iria dar mais golpes, só parou porque os outros disseram para irem embora.” Os três pegaram a carteira de Doacyr com R$ 500 em dinheiro, enxotaram a vítima do táxi e fugiram com o carro, Fábio ao volante. Poucos quilômetros depois, no entanto, o assaltante perdeu o controle do veículo e capotou. Só Fábio e o adolescente se feriram. Graziela foi levada à delegacia e apresentada ao juiz Evandro Pelarin, que determinou sua internação provisória na Fundação Casa.

“Não vi outro caminho a não ser interná-la. Seu caso é grave, pela idade precoce e pela violência empregada.” Daqui a algumas semanas, Pelarin vai julgá-la pelo ato infracional de roubo com emprego de arma. Graziela pode ficar até três anos na Fundação. Sem cortes profundos, o taxista foi levado a um hospital e liberado hora depois.

‘Estrutura é suficiente’

Em nota, a assessoria da Fundação Casa diz que “os centros existentes são suficientes para atender a demanda existente” e que, por isso, não há previsão de novos centros femininos no Estado, incluindo a região de Rio Preto. A Polícia Civil nega liberalidade no tratamento de menores do sexo feminino apreendidas pela PM. “Nossa conduta depende da gravidade do delito cometido, seja menino ou menina”, afirma o delegado plantonista Mauro Truzzi Otero.

Pela lei, menores apreendidos podem ficar até cinco dias em unidade policial. Em Rio Preto, os adolescentes são levados para as cadeias públicas de Catanduva, Jales ou Santa Fé do Sul, em celas separadas dos demais presos. Após esse período, cabe ao juiz decidir se libera o menor ou se aplica alguma medida socioeducativa. O delegado afirma que muitos menores são soltos pela Justiça por falta de vagas. Procurado, o juiz titular da Vara da Infância e Juventude de Rio Preto, Osni Assis Pereira, está de licença. Seu substituto não quis dar entrevista.

Johnny Torres
M.H.S. e E.F., mães de meninas apreendidas por tráfico no Jardim Fuscaldo, em RIo Preto, no ano passado

‘Menor não vai preso’, disse Aline a amigas

Era noite de junho do ano passado quando um morador do bairro Jardim Fuscaldo, em Rio Preto, informou aos policiais em patrulhamento que um grupo traficava em frente a uma mercearia. A equipe seguiu até o endereço mencionado e o que encontrou no local não era nada comum, comparado à rotina de combate ostensivo da Força Tática: tratavam-se de quatro meninas, jovens entre 13 e 16 anos que ao perceberem a aproximação da viatura tentaram se dispersar, enquanto se desvencilhavam de objetos ilícitos.

Três delas experimentaram pela primeira vez a adrenalina de uma abordagem policial. Menos Aline (nome fictício), 16, que havia passado pelo procedimento dois dias antes, também em circunstâncias envolvendo o tráfico. “Menor não vai preso”, garantiu às amigas. Submetidas à revista pessoal, foram localizados com o grupo dois pinos de cocaína e R$ 82, mas o mesmo homem que havia denunciado as meninas revelou também o método de trabalho do quarteto: na intenção de fugir do flagrante, elas escondiam o restante da droga em um local distante do ponto de venda. No local, a dois quarteirões de distância, onde havia mais 12 pinos de cocaína escondidos em um cano.

Sofrimento

Ter encontrado a filha caçula detida na delegacia é uma situação que a doméstica M.H.S., 49, mãe de Aline, jamais vai esquecer. Ela conta que a menina costumava ser a melhor aluna da classe, até que aos 12 anos de idade começou a se relacionar com más companhias. “Ela começou a chegar em casa com roupas novas, perfumes, sapatos. Dizia que havia ganhado das amigas. Eu tentava conversar com ela, porque desconfiava que havia algo errado, mas nem quando foi detida ela me confessou que vendia drogas”, disse.

As três meninas passaram a noite no plantão policial, mas o juiz da Vara da Infância desconsiderou a necessidade de medida socioeducativa. Elas prestaram depoimento e foram liberadas. À reportagem, Aline, que tem uma folha de maconha tatuada no pé e um palhaço gravado na panturrilha, confessou que chegou a ganhar R$ 300 em meia hora vendendo droga e que usava o dinheiro para comprar roupas e ir à “balada”. Revelou que não tem medo de ser presa, embora tenha afirmado na frente da mãe que não trafica mais.

M.H.S. ouviu a filha com ar de descrédito e rebateu: “O que nos resta é ter fé, porque depois que o filho vira a esquina de casa a gente não sabe mais o que acontece”. Perguntada se tinha interesse em trabalhar, Aline respondeu rápido: “Acha! Tô firmona, hein”. Ela não sabe se volta a estudar e diz não alimentar perspectivas sobre o futuro.

‘Onde foi que eu errei?’, questiona mãe

A auxiliar de limpeza E.A.R., 34, conhece o drama de perto. Ela é vizinha de M.H.S. e mãe de Patrícia, 15 anos, uma das jovens apreendidas naquele junho de 2013. De família humilde, a mãe garante que sempre deu tudo o que a filha precisava. “Quando vi minha filha algemada em uma delegacia me perguntei: ‘onde foi que eu errei?’. Eu não tinha pernas. O problema bate na nossa porta sem avisar e a gente não sabe o que fazer. Não foi falta de amor, não foi falta de conselho. O mundo de hoje faz os jovens acreditarem que eles podem ter tudo o que querem, a ilusão do dinheiro fácil e a certeza da impunidade tem levado cada vez mais adolescentes para o mundo do crime”, lamentou.

Abandono escolar

A filha dela também deixou a escola. Diz que pretende cursar o supletivo no ano que vem. “Mas só pra terminar com isso logo”, diz, com ar de enfado.
Unidas, as mães que são vizinhas tentam fortalecer os laços de amizade com as filhas, que não demonstram muito interesse. Enquanto limpa a casa da patroa, M.H.S. liga para Aline várias vezes ao dia para confirmar se a jovem está em casa. “Ela passa o dia inteiro dormindo, trancada dentro de casa, mas eu não ligo. Eu quero salvar a minha filha”, diz, emocionada.

Menina tinha 89 pedras de crack

“O tráfico não escolhe cor, não escolhe idade, não escolhe classe. Eu dou graças a Deus de ter ido buscar a minha filha na delegacia enquanto havia tempo. Se não tivesse descoberto tão rápido que ela traficava, talvez eu teria perdido minha filha para sempre”. O desabafo é da advogada R.O.F., 46, relembrando os momentos de tristeza vividos ao saber que a filha de apenas 14 havia sido apreendida com 89 pedras de crack. A jovem foi flagrada por policiais às 20h30 de uma segunda-feira no Solo Sagrado.

Surpreendida com duas pedras de crack e R$ 74, ela admitiu que estava comercializando a droga e levou a equipe até um terreno baldio, a cinco quarteirões, onde escondia outras 87 pedras. Conduzida à delegacia, foi apresentada ao Juizado da Infância e Juventude, que determinou liberdade assistida à menor. Hoje ela passa por acompanhamento psicológico. Filha de pastor, a menina voltou para a igreja do pai e frequenta a 8ª série do ensino fundamental. Em vez de tentar esquecer o passado triste da família, a advogada faz questão de lembrar o episódio. “Serviu como um alerta para jamais nos distanciarmos dos nossos filhos”.

Allan de Abreu – diarioweb.com

 

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