Coqueluche mata bebê de 3 meses

Daniela Penha-Diarioweb

Duas horas após enterrar o filho ainda bebê, o pizzaiolo Roberto Carlos Souza Araujo custa a entender o que aconteceu.

“A gente pensava que essa doença nem existia mais e eles jogam uma bomba dessas no nosso peito…”. Barba por fazer, 45 anos, ele desiste de conter o choro e desaba em cinco minutos de conversa. “Eles diziam: ‘É só uma gripinha, pai. Ele vai melhorar logo’. E agora?”.

A morte de Davi Henrique da Silva Araujo, que completaria quatro meses na próxima sexta-feira, é a primeira por coqueluche em Rio Preto em 18 anos. De acordo com os registros do Datasus, desde 95 a cidade não tinha mortos pela doença. De 2011 para cá, não só Rio Preto como todo o Estado de São Paulo têm registrado aumento representativo nos casos de coqueluche. De 2007 até ontem, 48 rio-pretenses foram contaminados pela bactéria Bordetella pertussi, causadora da coqueluche, sendo que 40 casos apareceram a partir de 2011.

“A doença sempre existiu, mas desde que percebemos o aumento orientamos os profissionais da saúde a notificar qualquer suspeita e a colher material para o exame que comprova o diagnóstico”, afirma a infecto-pediatra Márcia Wakai Catelan, que trabalha no Hospital de Base e na Vigilância Epidemiológica da Secretaria de Saúde do município.

Ela diz que as unidades de saúde receberam uma nota técnica orientando sobre as providências a serem tomadas sobre qualquer suspeita da doença. Os pais de Davi contestam e garantem que as medidas, se foram repassadas, não estão sendo cumpridas. De acordo com eles, o bebê foi levado mais de três vezes à UPA Norte nas últimas três semanas, quando os sintomas começaram. “A gente nunca foi orientado sobre a doença. Por que eles não fazem campanha? Porque não avisam a gente?”, questiona o pai.

Como tinha fibrose cística, Davi passou também por uma pediatra particular. “Ele já estava com uma tossinha, mas ela achou normal”, conta a mãe Jaqueline Fernanda da Silva, 17 anos. Depois disso, os sintomas pioraram e os pais teriam recorrido à unidade pública de saúde. “Os médicos examinavam ele, mandavam fazer inalação, davam um remedinho e só. Diziam que era só uma tossinha”, relata Jaqueline.

Na pasta onde ela guarda, entre outras coisas do filho morto, o registro de nascimento de Davi e sua carteira de vacinação, a mãe tem as receitas para inalação dadas pelos pediatras da UPA. “Eles judiaram do meu filhinho. Quando viram o que era, ele já estava morto”, se inconforma o pai.

No domingo retrasado (24), Davi teve dificuldades para respirar e os pais o levaram à UPA Norte novamente. “Só assim que eles viram que meu filho estava mal”, reclama Roberto. O bebê foi encaminhado, já com balão de oxigênio, para o Hospital de Base. Por lá ele ficou dois dias na enfermaria, mas precisou ser levado para a UTI após uma parada respiratória.

Por volta das 15h20 de anteontem, Davi morreu. “Quando eu visitei meu filho no domingo e vi que ele não tinha mais nem forças para abrir os olhinhos, eu soube que ele já estava morto”, relembra o pai, que faz duras críticas ao sistema de saúde. “Os médicos não têm preparo. Se tivessem, tinham cuidado do meu filho na hora, não judiavam, não deixavam ele sofrer”.

A assessoria de imprensa da Secretaria de Saúde informou que o bebê foi atendido no domingo (24) e que na ocasião a mãe teria relatado que os sintomas começaram quatro dias antes. No próprio domingo, ele foi encanminhado para o HB. Davi morava com os pais no bairro Dom Lafayete. Ele era o primeiro filho do casal, apesar de Roberto ter outros quatro filhos de outro casamento.

A médica Márcia explica que o quadro de Davi tinha dois agravantes: a fibrose cística (que afeta o sistema pulmonar) e o pouco tempo de vida. O bebê já havia tomado a primeira dose da vacina DTP, que protege contra a coqueluche, mas a médica esclarece que é a partir da terceira dose que o organismo começa a adquirir anticorpos contra a doença.

“Depois da terceira dose é que o organismo começa a se proteger. Por isso a doença atinge, em sua maior parte, crianças menores de dois anos”, explica ela, que orienta. “Os pais precisam estar atentos aos sinais da doença: tosse seca há mais de 14 dias, que chega a deixar a criança roxa e é seguida de vômito, precisa ser investigada”, alerta ela. A vacina contra a coqueluche é dada aos dois meses, quatro meses, seis meses, um anos e três meses e cinco anos. Nas unidades de saúde ela é gratuita.

Doença também contamina adulto

Apesar de mais recorrente entre crianças, a coqueluche tem deixado a saúde pública em alerta ao atingir, nos últimos anos, adolescentes e adultos. De 2007 para cá, um adolescente e um adulto foram contaminados em Rio Preto. No Estado todo, o número de infectados entre 10 e 50 anos (fim da infância, adolescência e fase adulta) saltou de 15, em 2010, para 99 em 2012. A infectologista Márcia Wakai Catelan avalia que os números alertam para a necessidade de atenção em todas as idades. “As pessoas pensam que essa é uma doença só de crianças, mas não é assim. A coqueluche atinge todas as idades”.

Desde o ano de 2000, não há óbitos por coqueluche nessa faixa etária. Adultos e adolescentes que tenham tido contato com uma criança infectada, devem receber antibióticos contra a coqueluche, para evitar que desenvolvam a doença. A médica explica que se a criança foi contaminada, certamente pegou a bactéria de um familiar.

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