Conexão Caipira do Tráfico

A conversa é direta, escancarada. Na noite do dia 21 de março deste ano, toca o celular de Najla Oliveira Garcia, 27 anos, traficante da zona norte de Rio Preto. Quem atende é a amiga Kel:

“Quanto fica 350 gramas de maconha?”, pergunta do outro lado da linha um rapaz.
“A que tá lacrada é um preço, a que tá borrifada é outro”, responde Kel.
“A lacrada.”
“A lacrada faz R$ 400 (o quilo).”
Mês passado, dia 9, outro cliente telefona para Helton Alexandre de Souza, 32 anos, que dominava o tráfico no Jardim Marajó e Dom Lafayette, também zona norte da cidade:
“Queria pegar uma farinha aí com você.”
Helton reprime a indiscrição do rapaz: “Você é louco, não fala isso no meu radinho não, é moiado!”, reclama – “moiado”, na gíria do crime, é quando os traficantes farejam a presença da polícia.

No caso, Helton temia que seu celular estivesse grampeado. E estava. Durante 12 meses, o Gaeco, braço do Ministério Público que investiga o crime organizado, mapeou a ação de dois grupos de 17 traficantes baseados em Rio Preto e José Bonifácio, um deles ligado ao PCC, por meio de escutas telefônicas autorizadas pela Justiça. O resultado, transcrito em relatório de mais de mil páginas a que o Diário teve acesso, é um retrato fiel dos bastidores do tráfico de drogas e armas pesadas, como fuzis do Exército, nas duas cidades.

O primeiro grupo, maior, era liderado por José dos Santos Batista, o Mineiro, 37 anos, traficante de José Bonifácio dono de várias bocas de fumo no município – só uma delas rendia R$ 500 por dia, segundo as escutas. Mas, logo no início das investigações, em 26 de outubro do ano passado, o monitoramento telefônico levou à prisão em flagrante de Mineiro pela Polícia Militar, que encontrou 39 porções de maconha no sítio dele. Com o traficante atrás das grades, quem assumiu a dianteira do negócio foi o seu braço-direito, Raul José Filho, o Zé, 41 anos.

O grupo adquiria cocaína e maconha de Osmar de Araújo Lima, um ex-cabo do Exército morador de Ponta Porã (MS), cidade vizinha de Pedro Juan Caballero, no Paraguai. O Gaeco e a PM conseguiram apreender um desses carregamentos. A caminhonete que Gustavo Firmino da Silva, o Alemão, 30 anos, conduzia foi interceptada próximo a José Bonifácio no dia 16 de novembro. Escondida na carga de pneus, havia 96 quilos de maconha, além de remédios de uso proibido no Brasil.

Mas a prisão do comparsa e a perda da droga não abalaram os negócios de Zé. Menos de 20 dias depois, ele negocia mais 25 quilos de maconha com um fornecedor de Mato Grosso do Sul ligado a Osmar. E diz que “não pode faltar do branco” – cocaína, segundo o Gaeco.

No dia 20 de dezembro, um cliente liga para Lucas José da Silva Santos, o Luquinha, traficante ligado a Zé que vendia diretamente para os viciados, os chamados “aviões” ou “corres”: “Tô aqui na praça e tem um cara que está querendo um pó (cocaína), eu ia soltar aquela situação que tá com você, tem como cê vir aqui e me trazer cinco de uma branca (cocaína)?”, pergunta Racionais. “Essa não dá”, responde Lucas, “porque tá no óleo (em forma de pasta base)”. Mas o colega insiste: “É rápido pra fazer (transformar a pasta base em cocaína). Cê traz pra mim? Tô na praça do pirulito.”

Divulgação
Veículo interceptado em Bonifácio: 96kg de maconha nos pneus

Mudança

No início de 2013, Raul José Filho, o Zé, mudou-se para a zona norte de Rio Preto, e passou a manter negócios no tráfico com Helton Alexandre de Souza e seu pai, Edson, 49. Esse último, por sua vez, era ligado a Geovani Duarte, morador do Damha 3, condomínio de luxo da cidade. Em maio deste ano, Edson pede que Geovani “pegue uma amostra” da droga para avaliar a sua qualidade. No mês seguinte, outro rapaz, chamado Teo, oferece droga – provalmente maconha – a R$ 700 (o quilo), “boa, cheirosa”.

Os “corres” ligados a Geovani mantinham clientes fiéis não só na periferia, mas também na elite rio-pretense. No dia 25 de julho deste ano, Paulinho, morador do Tarraf 2, bairro de classe média-alta na zona sul, encomenda cocaína com Washington Amâncio, o Gordinho: “Me disseram que é super dez, é memo?”, pergunta Paulinho, referindo-se à qualidade da droga. “Ah mano, isso aí é só veno.” Gordinho foi preso em flagrante pela PM com 20 papelotes da droga quando entregava parte delas a Paulinho.

No dia 13 do último mês, 11 integrantes das quadrilhas foram presos temporariamente por determinação da 5ª Vara Criminal de Rio Preto. Era a fase ostensiva da operação contra o esquema, batizada de Rota Caipira em alusão ao fato de a região ser corredor de drogas entre o Mato Grosso e a Capital. Procurado na última semana, o promotor do Gaeco João Santa Terra não quis se pronunciar sobre o caso, com o argumento de que as investigações ainda estão em andamento.

Reprodução internet
Negociação era feita com ex-cabo do Exército que mora na fronteira com o Paraguai

Grupo vendia até fuzil exclusivo do Exército

Não era somente drogas que o grupo de Raul José Filho, o Zé, traficava. Diálogos captados pelo Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) na operação Rota Caipira revelam que o esquema também envolvia a compra e venda clandestina de armamento pesado em Rio Preto, como fuzis calibre 7.62, utilizados pelo Exército brasileiro.

No dia 23 de outubro do ano passado, Fuzil, apelido de um traficante baseado em Dourados (MS), telefona para Osmar de Araújo Lima, ex-cabo do Exército morador de Ponta Porã (MS) e principal fornecedor de droga para o grupo de Zé no Noroeste paulista. Fuzil pergunta a Osmar quem são os “caras da hora” para eles “trabalharem” aqui. Osmar diz conhecer alguns caras.

Fuzil pergunta então se ele “tá ligado” na “ferramenta” 762. E diz que “tem quatro lá”, no caso Rio Preto, segundo o Gaeco. O ex-cabo pergunta então “quanto o cara pede”. Fuzil diz “quatro ponto cinco”, R$ 4,5 mil. E afirma que as armas estão com o “Gordão do Ferro Velho”, o “moleque do cascalho e da pólvora” que fica em uma “vilinha” na entrada da cidade. O Gaeco não conseguiu apurar a identidade do tal Gordão.

Osmar conhecia bem o fuzil 7.62. Em 2011, ele foi preso em flagrante em Mato Grosso do Sul ao trabalhar como “batedor” de um carregamento de dois quilos de oxi e 3,4 quilos de haxixe, além de um fuzil da marca FAL, calibre 7.62, com timbre do Exército Argentino, que estava sendo transportado para o Estado de São Paulo. Osmar foi condenado a quatro anos de prisão, mas estava em livramento condicional desde julho de 2012.

Quinze dias depois da conversa entre Osmar e Fuzil, Zé negocia as mesmas armas calibre 7.62 com um homem não identificado. Segundo o Gaeco, o armamento havia sido oferecido a ele dias antes pelo próprio Osmar. Zé diz que falou com o “menino” e iria passar os dados do “brinquedo” por mensagem de celular, o que ele faz minutos depois: “uma fura calibre7.62 Exército CM2 carregador tem 3 valo 45 cada (sic)”. O Gaeco acredita que o armamento guardado em Rio Preto tenha sido utilizado em roubo a bancos no Estado. As armas não chegaram a ser apreendidas.

Transformando carro em pó

Veículos financiados fraudulentamente na região de Rio Preto serviam de moeda para o grupo de Raul José Filho, o Zé, adquirir drogas em Ponta Porã (MS) e também negociá-las no interior paulista. De acordo com as apurações do Gaeco, braço do Ministério Público que investiga o crime organizado, os automóveis eram financiados nos bancos com documentos de terceiros, inclusive de pessoas mortas. A venda era parcelada, mas o grupo não pagava nenhuma prestação e levava o carro, apelidado de “finan”, até Ponta Porã, cidade vizinha a Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

Uma vez no país vizinho, os carros “finan” brasileiros, ou mesmo veículos furtados ou roubados no Brasil, circulam normalmente, inclusive com as placas originais, sob as vistas grossas da polícia paraguaia. Há dezenas deles em Pedro Juan Caballero e Capitán Bado, de acordo com a Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) do Paraguai. “Esse é um problema antigo e permanente por aqui”, diz o diretor de comunicação do órgão, Francisco Ayala.

Há inclusive uma tabela informal de preços na fronteira. Um carro popular seminovo, como um Gol, pode ser trocado por dois a três quilos de cocaína (que vale cerca de R$ 2 mil na região) vinda da Bolívia e Peru, ou 160 quilos de maconha (R$ 30 o quilo), produzida no interior do Paraguai. No procedimento do Gaeco que investigou o esquema de Zé, não há estimativa do número de veículos “finan” trocados por droga pelo grupo. Mas há vários diálogos em que ele negocia carros e motos financiados por entorpecente.

Como no dia 24 de outubro, quando um homem não identificado telefona para ele e diz que tem um “parceiro” de Mirassol que deseja trocar uma moto “finan” em “mercadoria” – droga, segundo o Gaeco. Zé pergunta quanto o vendedor pede pelo veículo, e o homem responde R$ 4 mil, mas ressalva que poderia chegar a R$ 3 mil “em borracha” – maconha, conforme o Gaeco. Zé se interessa, e pede para ver a moto.

Dois meses depois, Zé pergunta a um interlocutor não identificado, por telefone, se o “menino” pega carro. Propõe “fazer rolo” e já pergunta se “é bom” – o entorpecente, de acordo com o Gaeco. O homem responde que é “comercial”, gíria para cocaína de qualidade inferior. Zé rebate, e impõe condição para o negócio: a droga deve ser “de primeira”.

‘Madeira’

Outro dos alvos da investigação do Ministério Público que negocia automóveis por drogas é Geovani Duarte. Em 12 de junho deste ano, ele recebe ligação de um rapaz chamado Teo, que pergunta se Geovani tem algum carro para trocar em uma “madeira”, gíria para maconha, segundo o Gaeco. Geovani diz que não, mas pergunta o preço. Teo diz R$ 700 (possivelmente o quilo), e diz que é “boa, cheirosa.”

Outro lado

Procurados pelo Diário na última semana, os advogados dos investigados pelo Ministério Público na Operação Rota Caipira não quiseram se manifestar sobre o assunto. “Ainda estou analisando o processo, por isso prefiro não comentar nada por enquanto”, disse José Roberto Curtolo Barbeiro, que defende Raul José Filho.

O mesmo argumento foi utilizado pela advogada Gisele de Oliveira Lima, que defende Leandro Pereira de Almeida, preso em flagrante em 13/8/2013 com 500 gramas de maconha e 400 gramas de crack na Praça Cívica, em Rio Preto. Hailton Muroni do Vale, defensor de José dos Santos Batista, o Mineiro, alegou que não poderia comentar o caso porque as investigações tramitam em segredo de Justiça. Os advogados dos demais investigados na operação não foram localizados na última semana.

O grupo de Sagate, do PCC

Além do grupo de Raul José Filho, o Gaeco investigou uma quadrilha paralela na operação Rota Caipira. Seu líder era Alexandre Raimundo da Silva, o Sagate, membro da facção criminosa PCC. Ele já havia sido preso há alguns anos pela Polícia Civil, quando comandava o tráfico no bairro Cristo Rei, zona leste de Rio Preto.

Mesmo no Centro de Progressão Penitenciária (CPP) de Rio Preto, onde cumpria pena em regime semiaberto no ano passado, Sagate comandava esquema de tráfico na cidade por celular. Foi grampeando seus telefonemas – com autorização da Justiça – que o Gaeco começou a delinear tanto o seu grupo quanto o de Raul, já que havia contato entre os membros de ambos.

Sagate adquiria droga de Márcia Cristina Pereira Dias e Carlinhos, cuja identidade não foi apurada pelo Gaeco, ambos de Ponta Porã (MS). Em outubro de 2012, Carlinhos telefona para Sagate e diz que iria mandar “mais de R$ 20 mil na mão dele”, possivelmente droga, segundo o Ministério Público. A droga era vendida em bocas de fumo na periferia de Rio Preto.

 

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