Comissão investiga mortes na ditadura militar

 

 

Guilherme Baffi
Waldemar Andreu relembra o período de militância política

Duas semanas de tortura

Ao se deparar com este senhor de 67 anos de corpo mirrado aí ao lado, fica difícil acreditar que pegou em armas contra a ditadura. Mas a morte rondou Waldemar Andreu inúmeras vezes, tanto nas ações dos movimentos armados da esquerda quanto nos porões da ditadura. “O risco era constante. Mas não me arrependo de nada”, diz.

Os olhos azuis se arregalam cada vez que ele se lembra das suas aventuras – ainda que não goste de tornar públicas algumas delas. Tudo começou quando ele e Dimas Antônio Casemiro se conheceram nos corredores da escola Cícero Barbosa, em Votuporanga – o contato com Dênis veio depois. Ingressaram no movimento estudantil e começaram a organizar movimentos de esquerda na cidade. Até que veio o golpe militar em 1964 e os irmãos Casemiro se mudaram para São Paulo. Waldemar ficou em Votuporanga, e perdeu contato com os dois. Mas a militância continuou, na chamada ala vermelha do Partido Comunista, que na época já estava na clandestinidade.

Só em 1969 é que Waldemar passou a viver na capital. Flertou com o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) e participou de um assalto a uma empresa para angariar fundos ao movimento – ele prefere não dar detalhes da ação. Mas, já no ano seguinte, abandonou a luta armada e retornou para Votuporanga.

A vida seguia tranquilamente até que, em abril de 1971, militares do Doi-Codi bateram à sua porta. Waldemar foi preso e levado até a rua Tutóia, onde, diz, foi torturado por 17 dias. “Eles queriam saber onde estava o (Carlos) Lamarca, mas eu não sabia”, diz.

O ex-militante se lembra em detalhes das técnicas de tortura utilizadas pelos militares, desde as mais conhecidas, como o pau-de-arara, em que era amarrado nu a um caibro de madeira, e o telefone, tapas simultâneos nos dois ouvidos, até a temida “cadeira de dragão”, feita de ferro. Os torturadores ligavam um fio elétrico no pé da cadeira e outro na orelha do torturado. O choque era de 800 volts. “Era terrível.”

Em seguida, Waldemar foi transferido para a carceragem do Dops, onde ficou um ano e oito meses detido. Solto, voltou a Votuporanga. Os tempos de horror acabaram, mas não a militância política. Waldemar é filiado ao PC do B.

Reprodução
Aylton Adalberto Mortati, em foto dos anos 60: estudante mergulhou na luta armada e fez curso de guerrilha em Cuba

Tenente comandou sequestro de Boeing na Argentina

Aylton Adalberto Mortati estava marcado para morrer. Desde que comandou o sequestro de um Boeing em pleno voo, com 101 pessoas a bordo, em novembro de 1969, e obrigou a aeronave a rumar até Cuba, seu nome encabeçava a lista dos “terroristas” mais perigosos ao regime. Bastou pisar no Brasil novamente, dois anos depois, para que fosse preso e torturado pelos militares do Doi-Codi.

Sua biografia conhecida, porém, vai até a data da prisão, 4 de novembro de 1971. O que aconteceu depois permanece um mistério que só agora começa a ser desvendado pela Comissão da Verdade, da Assembleia Legislativa.
Filho único de uma família de classe média de Catanduva, seu pai era dono de uma fábrica de doces na rua São Francisco. Aylton completou o curso ginasial na escola Barão do Rio Branco, e na mesma época aprendeu a lutar caratê e a tocar piano. “Ele era muito inteligente, mas também teimoso”, define a aposentada Odete Querubim, 69 anos, amiga da família.

No início dos anos 60, os Mortati se mudaram para São Paulo, onde Aylton cursou o ensino médio (antigo colegial) e ingressou no curso de direito da Universidade Mackenzie. Paralelamente, passou a integrar o Exército, onde chegou a segundo tenente em 1968. Mas, em outubro daquele ano, a mãe, Carmem, veria o filho pela última vez – o pai falecera meses antes.

Foi quando, já em pleno regime militar, começou a participar do movimento estudantil. Naquele ano, foi um dos estudantes presos no Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE) em Ibiúna. Solto, radicalizou. Ingressou na Ação Libertadora Nacional (ALN), que pregava a luta armada contra a ditadura. “Eu sempre desconfiei que ele mexia com essas coisas. Um dia ele abriu o jogo, e me disse ‘vou lutar, não tenho nada a perder’”, lembra Odete.

Relatório do Dops acusa o jovem de ter participado de um assalto a banco e de um atentado a um policial civil na capital em 1969. Mas a ação mais ousada, que custaria a vida dele, começou na manhã do dia 4 de novembro daquele ano, no Rio. Com documentos falsos, Aylton e mais oito integrantes da ALN embarcaram em um voo da Varig que saiu do Rio de Janeiro com destino a Santiago e escala em Buenos Aires. Meia hora após decolar da capital argentina, o grupo anunciou o sequestro. O piloto foi obrigado a seguir viagem rumo à Cuba de Fidel Castro, onde o grupo participaria de um curso de guerrilha.

A ação de Aylton foi bem-sucedida. Mas a vingança dos militares não tardaria. Em poucos dias a verdadeira identidade dele foi descoberta, e Aylton foi expulso do Exército.Em 1971, regressou ao Brasil clandestinamente, e passou a integrar o Movimento de Libertação Popular (Molipo), dissidência da ALN.

No dia 4 de novembro daquele ano, Aylton foi flagrado em um aparelho da Molipo, uma casa na Vila Prudente, São Paulo. Militantes de esquerda narram que o rapaz foi levado ao Doi-Codi, onde foi torturado e morto. Mas não havia documento algum atestando o assassinato. O advogado Virgílio Agydio Lopes Enei, contratado por Carmem, diz ter visto o atestado de óbito de Aylton em uma sala do Doi-Codi. Pôs o papel no bolso e se preparava para sair do prédio quando foi flagrado por um militar. Ficou duas semanas preso. “Eles queriam esconder o paradeiro dele a todo custo”, afirma.

Carmem passou então a lutar pelo corpo do filho. Em 1981, decisão até então inédita da Justiça determinou que, na certidão de nascimento dele, também constasse a presunção da morte. No mês passado, Maria Amélia Teles, que integra a Comissão da Verdade, apresentou uma requisição da Polícia Civil ao IML para que examinasse um corpo encontrado na periferia da capital. O pedido é assinado pelo delegado David dos Santos Araújo, que integrava a Operação Bandeirantes com o codinome de “Capitão Lisboa”. Outro documento obtido pela comissão, do Dops, confirma a morte do ex-tenente.Ainda nos anos 70, Carmem retornou a Catanduva, onde morreu em janeiro de 2010, aos 91 anos. Está enterrada no cemitério municipal, na sepultura que ela mesma comprou na esperança de, um dia, enterrar o corpo do filho.

 

 

 

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17 de Janeiro, 2013
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