Com depressão, maquinista vive à base de remédios

“Uma parte dele se foi junto com as vítimas”. Foi assim que a mulher do maquinista da América Latina Logística (ALL) Donizeti Aparecido Herculano resumiu o dia a dia do homem que até o momento é apontado pela Polícia Federal como um dos responsáveis pelo descarrilamento do trem que, em novembro do ano passado, matou oito pessoas em Rio Preto. Até o momento, ele é o único indiciado no inquérito policial que apura as causas do acidente. Após o acidente, ele não conseguiu retornar ao trabalho e faz tratamento de uma depressão. E pela primeira vez se manifestou publicamente sobre a tragédia.

“Deixo aqui um desabafo pra todos que me conhecem e trabalham comigo. Sinto e me dói muito pelas famílias que, como eu, estão sofrendo pelo acontecido, mas de consciência limpa de que agi corretamente no meu serviço, respeitando todas as normas que são impostas para nós maquinistas . É pessoal, se sou imprudente, então somos todos. Deus é testemunha disso”, escreveu o maquinista em manifestação no Facebook.

Procurado pela reportagem na última semana, o maquinista atendeu o telefone e apenas respondeu: “estou fazendo tratamento”. Sua mulher, Telma, aceitou conceder entrevista ao Diário e afirmou que Herculano sofre com depressão e, por isso, não tem condições de conversar. “É uma depressão tremenda e não tem condições de conversar. Ele mal fala. Está fazendo tratamento com psicólogo. Acabou nossa vida. É um ano muito terrível para nós”.

De acordo com a mulher, Herculano vive à base de remédios e calmantes. “Acabou. Ele é uma pessoa que não sai de casa e vive à base de remédio. Toma quatro calmantes para dormir e fica o dia inteiro dopado”, afirmou. “Embora seja uma fatalidade, tem vítimas. Pessoas que se foram. Ele vive em depressão profunda porque não se conforma”.

Rotina

A rotina de Herculano é ficar a maior parte de tempo em casa, se consultar com o psicólogo e ir à igreja. Católico, ele adquiriu um hábito que, segundo a sua mulher, o ajuda a enfrentar a situação.
Todas as terças-feiras, o maquinista vai até a Igreja Nossa Senhora Aparecida, em Araraquara. Ele pede para rezar missas com os nomes das famílias. Carrega os nomes das vítima do acidente em um pedaço de papel na carteira.

“Ele ora pelas famílias e por aqueles que se foram. Uma parte dele se foi junto com as vítimas. Foi uma coisa muito grave. Abalou a cidade aí e ele também”, disse Telma. Em maio deste ano, o maquinista foi até a cidade de Aparecida, onde ele visitou o Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida.” Acendeu vela para todas as famílias. Para todos os falecidos. Ele ora muito pelos falecidos. Ele fala que pode ser até indiciado, mas para que as famílias não pensem que ele é o culpado. Ele estava seguindo o serviço”. Herculano não gosta de falar sobre o assunto e se abala com as notícias divulgadas sobre o acidente. Para sua mulher, só com o tempo ele poderá superar o trauma do acidente e, quem sabe um dia, volte a trabalhar. “Um dia, quem sabe.”

Família descarta imprudência

O maquinista Donizeti Aparecido Herculano vai tentar provar que apenas estava seguindo ordens no dia do acidente em Rio Preto. Ele já reuniu documentação de que a composição que saiu dos trilhos estava com a velocidade imposta pela ALL. A mulher de Herculano afirmou que ele possui documentos que comprovam que ele foi orientado pela empresa a percorrer o trecho da linha férrea no município acima do limite de 25 km/h imposto pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Na hora do acidente, a composição estava a 44 km/h.

“Ele (Herculano) tem todas as provas de que ele estava de acordo com a velocidade que a empresa”, afirmou a mulher do maquinista. “Na cabine do trem tem todos os documentos da velocidade que ele deveria estar. Advogado está com toda a documentação nossa”. A mulher revelou que os maquinistas que não cumprirem as regras são punidos. “Na ALL existe uma coisa assim: Se você estiver abaixo da velocidade permitida pela empresa você sofre punição. Se tiver acima, o trem para. Não pode andar abaixo, o supervisor acompanha. Mas existe uma punição que ele sofre”, disse Telma.

A família de Herculano disse que a ALL deu todo respaldo, como o tratamento psicológico. “Espero que um dia ele vá se recuperar. Abalou a vida da gente também e muito”, disse a mulher de Herculano. O maquinista vai tentar reverter o indiciamento feito pela Polícia Federal pelo crime de perigo de desastre ferroviário. “O que ele sentiu e chocou muito foi o delegado ter dito que ele foi imprudente. Isso acabou com ele. Ser indiciado. Ele recebe ordens. A gente luta para que reverta a situação. Ele não pode ser indiciado. Ele estava seguindo a empresa”, afirmou. Diário da Região de Votuporanga

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