Clínica que usa chá alucinógeno é fechada

A pedido do Ministério Público, a Prefeitura de Rio Preto lacrou uma clínica que usava chás alucinógenos para tratar dependentes químicos. Além de usar substâncias da Iboga e da Ayhuasca, os proprietários de entidade não tinham alvarás para atuar no tratamento de dependentes químicos.

A Iboga e a Ayhuasca são raízes com substâncias psicoativas e alucinógenas usadas em algumas religiões, mas com restrições para fins terapêuticos. A Anvisa permite apenas a importação de um medicamento canadense que contém Ibogaína, substância presente na raiz da Iboga. Neste caso, a importação só é feita com autorização da Anvisa para fins restritos e com acompanhamento médico. Para fins terapêuticos convencionais o uso não é permitido.

De acordo com o promotor de Justiça Sérgio Clementino, a denúncia de funcionamento irregular foi feita em novembro do ano passado. “A Vigilância informou que tentou vistoriar o imóvel, porém o proprietário não autorizou a entrada dos fiscais informando que o local era particular e que no espaço eram realizadas cerimônias religiosas”, afirmou o promotor. Após o caso chegar ao MP, foi aberto um inquérito e o proprietário do espaço foi ouvido. “A partir do depoimento dele conseguimos provar que ele usava o local para tratar dependentes químicos, sem ter permissão para isso”, informou Clementino.

O promotor juntou ao inquérito informações colhidas em uma página do Facebook mantida pela comunidade terapêutica, cujo nome é “Mentes Livres”. “Além do Facebook eles também contam com um site com informações sobre o tratamento realizado na clínica. Por isso mandei lacrar o local”, explicou.

O local lacrado fica na rua Reverendo Vidal, no Alto Rio Preto, e foi lacrado no último dia 30. O promotor informou que vai analisar o caso para definir as medidas a ser tomadas em relação ao uso da Iboga e a Ayhuasca na clínica. O responsável pelo espaço, Márcio Alves dos Reis, diz que tem alvará para o espaço funcionar para fins religiosos, mas admite que não conta com documentação para atuar com tratamento de dependentes.

“Tenho um CNPJ de cunho religioso, por isso tenho autorização para utilizar a Ibogaína e a Ayhuaska. O que fazemos é um trabalho religioso com essas pessoas. Estamos contratando médicos e fazendo todas as alterações solicitadas para funcionar. Não precisavam ter lacrado”, informou o proprietário. Reis disse ainda que todo atendimento realizado com dependentes é ambulatorial, ou seja, o paciente não fica internado. “Portanto, não trata-se de uma clínica”, disse ele.

Uso terapêutico

O psiquiatra e psicoterapeuta Ururahy Barroso, de Rio Preto, disse que a Ibogaína, substância da Iboga, tem sido utilizada em vários países do mundo para o tratamento de dependentes de drogas e que os resultados têm sido positivos. Porém, ele afirma que o uso deve ser acompanhado por profissional.

“No Brasil, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) já realizou um estudo que mostrou a eficácia dessa substância, porém, no Brasil, ela ainda é proibida pela Anvisa para esse tipo de tratamento”, afirmou. Apenas em casos específicos a Anvisa autoriza a importação.

O médico conta que a Ibogaína atua nos neurotransmissores da dopamina, que controlam a sensação de prazer do cérebro. “O que ela faz é desconstruir a compulsão que o viciado tem pela droga. É como se o cérebro esquecesse que algum dia já usou aquela substância que causou tanto prazer”, diz o psiquiatra.

Segundo Barroso, ao comer algo prazeroso o cérebro aumenta a produção de dopamina em 100% e ao fumar um cachimbo de crack a produção aumenta 1.000%.

“O cérebro fica querendo sentir sempre essa sensação e por isso a pessoa tem a compulsão pela droga. Nada no mundo é capaz de causar tanta sensação de bem-estar quanto essas drogas. E a Ibogaína desconstrói essa busca pela satisfação do cérebro”, explica. O médico alerta que a substância não pode ser tomada por conta própria.

Ibogaína

O que é
É o princípio ativo da raiz da iboga, raiz da Apocynaceae uma planta utilizada na África em rituais religiosos

Efeitos e riscos
O chá dessa raiz causa efeitos alucinógenos. Ela é contraindicada para pessoas com quadros psicóticos, que usam determinados remédios, como antidepressivos, são alérgicas ou têm problemas cardiovasculares e no fígado

Comercialização
No Brasil, o uso da substância é proibida para fins terapêuticos e medicinais, porém, sua comercialização para fins religiosos é legalizada. Em alguns casos específicos,com acompanhamento médico, a Anvisa permite a importação de um remédio que tem a Ibogaína como um dos princípios ativos.

Ayahuasca

O que é
É uma substância, normalmente consumida em forma de chá produzidos a partir da combinação da videira Banisteriopsis caapi com várias plantas, em particular a Psychotria viridis e a Diplopterys cabrerana.

Efeitos e riscos
O chá dessa raiz causa efeitos alucinógenos. Durante a sua ação, a bebida provoca aumento do diâmetro pupilar, da frequência respiratória, da pressão arterial; e aumenta drasticamente as respostas. Esta ação pode gerar sensações de queda de pressão, de súbito frio ou de calor, e ainda, tremores. Outros efeitos específicos são o aumento da empatia, a diminuição da fome e um aumento na acuidade da visão noturna.

Comercialização
No Brasil, o uso da substância é proibida para fins terapêuticos e medicinais, porém, seu uso para fins religiosos é legalizado. Victor Augusto/Diário da Região

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