Chupeta ainda é polêmica

Qual mãe nunca recorreu a uma chupeta para fazer o bebê parar de chorar? Nove entre dez, no mínimo. O tema é polêmico e causa discussão até entre profissionais da área médica e psicológica. De acordo com os especialistas, mesmo o bebê tendo a necessidade de sugar, ele não precisa fazer uso da chupeta. “Geralmente a chupeta acalma os bebês.

Diminuindo a ansiedade e a agitação, eles acabam dormindo melhor. Porém cria uma dependência. Pode até ajudar nos primeiros dias ou semanas de vida do bebê. No entanto vai aumentando cada vez mais a dificuldade da retirada”, esclarece Rogério Rustici, pediatra do Hospital e Maternidade Brasil, em Santo André.

Para Rustici ainda há outros fatores negativos em relação ao uso da chupeta. “Geralmente a chupeta leva à deformidade da arcada dentária. Discute-se a alteração na dentição e na fala, e pode levar ainda a processos infecciosos, com a presença de vírus ou bactérias e até fungos (sapinho), o que aumenta a chance de infecções de garganta, sinusite e até otite (infecção do ouvido)”, diz.

De acordo com a cirurgiã dentista e professora do curso de odontologia da Unorp, Vanda Rieko Fujita Miyazaki, de Rio Preto, a chupeta, em poucos momentos, pode ser benéfica. “Normalmente a criança faz uso da chupeta para ‘esconder’ alguma deficiência, por exemplo, no aspecto psicológico, Na maioria das vezes este artefato acalma, diminui o estresse e a ansiedade.”

Outro benefício, segundo Vanda, é estimular a musculatura da dinâmica mandibular e da língua. Principalmente se a criança não é amamentada pela mãe, pois a força de sucção do leite materno é extremamente importante para o desenvolvimento da musculatura. “Mas, muitas vezes as mães deixam de amamentar porque é cômodo para os pais dar a chupeta e acalmar a criança. Isso não pode.”

 

Nada de chupar o dedo e ter ‘paninho’
Usar chupeta e chupar o dedo são prejudiciais, porém o dedo é pior. De acordo com Rogério Rustici, pediatra do Hospital e Maternidade Brasil, o grau de deformidade com uso de dedos é mais severo na boca e também com afilamento do dedo. “Isso ocorre porque o dedo é mais endurecido devido a consistência do osso e músculos do dedo, enquanto que a chupeta geralmente é fabricada com materiais menos agressivos.”

A fonoaudióloga Camila de Lima e Menezes Nitatori do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, explica que na teoria, o ideal é a criança não utilizar chupeta ou quaisquer outros artifícios que geram dependência, tais como ‘paninho’, dedo na boca, etc. Sabemos que a necessidade de sucção do bebê é mais intensa nos primeiros meses de vida, mas ela pode ser suprida com o aleitamento materno, e nos momentos de choro, com tranquilidade, cuidados necessários, o carinho e a atenção da família.

“Tanto a sucção digital, quanto a da chupeta são realizadas pela criança em busca de satisfação, e podem estar associadas ao desmame precoce do seio materno. A duração, a frequência e a intensidade com que a criança realiza esses hábitos, irá afetar o desenvolvimento de sua arcada dentária, das estruturas da face, e das funções de respiração, mastigação e deglutição, embora a sucção digital pareça afetar de forma mais significativa devido à força que a criança pode imprimir com o dedo na sua arcada dentária. Além disso, a grande questão é o fato de que a sucção digital é um hábito mais difícil de ser retirado da criança do que a chupeta”, garante.

Experiência

Pais das gêmeas Sofia e Lívia, de 9 meses, os médicos Fabíola e Ricardo Acayaba de Toledo estão em uma situação difícil. “Optamos por não dar a chupeta, principalmente por achar que poderia deformar a arcada dentária. Algumas vezes durante as madrugadas, em que elas choravam demai, resolvi voltar atrás e dar a chupeta para ver se elas acalmavam, mas aí foram elas não aceitaram”, revela a mãe.

O problema é que as duas bebês, aos 5 meses, começaram a chupar o dedo. “No início quando elas colocavam o dedo na boca, eu tirava e dava a chupeta, mas nem assim elas aceitaram. Como mãe e pediatra, eu sei que o dedo é pior que a chupeta e estou fazendo de tudo para mudar esse hábito. Oriento sempre as minhas pacientes de que o ideal é não dar nem a chupeta e nem o dedo, mas se for inevitável, optarem pela chupeta, que é mais fácil retirar.”

Priorize o desenvolvimento

A fonoaudióloga Camila de Lima e Menezes Nitatori do Hospital Albert Einstein, em São Paulo, garante que existem muitas controvérsias quando o assunto é chupeta e mamadeira. A princípio, pensando que a prioridade é que a criança seja amamentada no seio materno, o uso de chupeta ou mamadeira torna-se desnecessário, e não precisamos criar esses hábitos nos bebês.

Porém, existem casos em que o bebê não pode ser amamentado, ou necessita de complemento, o que na maioria das vezes, é suprido pela introdução da mamadeira. “O importante nesses casos é a escolha de um bico que seja adequado, e que não seja danificado por aumento do furo, por exemplo. Os bicos chamados de ortodônticos são os ideais para serem utilizados, pois reduzem os riscos de alterações na arcada dentária.”

Para a especialista, sempre vale a pena conversar com outras famílias que tiveram que tirar a chupeta de seus filhos. “Algumas crianças abandonam o hábito sozinhas, mas não é o mais comum, especialmente nas crianças maiores. Em conversas com outras mães, algumas estratégias parecem surtir efeito, sem serem tão traumáticas como a retirada brusca da chupeta de uma hora para outra.

Por exemplo, propor uma troca à criança com o Papai Noel, ou por um passeio ou brinquedo que ela queira muito; fazer um pequeno corte/furo no bico, que muda o padrão na hora da sucção e faz com que a criança vá perdendo o interesse; e valorizar o fato de que a criança já está crescendo. “Sendo assim, o que vale é o bom senso e o que se adapta melhor para a realidade de cada família, sempre priorizando o bom desenvolvimento da criança”, afirma Camila.

Três anos é idade limite

A Associação Brasileira de Odontopediatria e o Ministério da Saúde recomenda que a idade de 3 anos seja a idade limite para a eliminação do uso da chupeta na vida da criança. Entretanto, reconhece que o ideal é remover gradualmente este hábito até os 2 anos. “Na faixa etária considerada aceitável para o uso da chupeta, recomenda-se que ela não seja disponibilizada o tempo todo. Há situações, inclusive, em que vemos a chupeta pendurada no pescocinho da criança, tornando mais fácil seu acesso em qualquer momento, o que é contra indicado”, afirma a cirurgiã dentista Elâine Cristina Vargas Dadalto, da Perfectu Odontologia Clínica, em São Paulo.

Segundo ela, é importante que os pais e responsáveis fiquem atentos à demanda da criança, sem se antecipar a ela, ou seja, não ofertá-la. “A mesmo que a criança solicite, nos momentos de sono ou tensão emocional, exatamente para atender as necessidade de consolo, aconchego e acalanto. Tão logo esta necessidade seja satisfeita, a chupeta deve ser removida. Se a criança estiver dormindo, retirar de sua boca, se ela não apresentar resistência. Se tiver acordada, passado o choro, distrai-la e guardar a chupeta, tirando-a do seu campo de visão”, explica Elâine Cristina.

Mãe incentiva o fim do uso

Mãe de duas meninas, a advogada Larissa Bertolucci, conta que conseguiu de uma forma lúdica tirar a chupeta da filha mais velha. “A Letícia tinha umas seis chupetas. Fui tentando tirar, mas ela sempre pedia de volta, chorava e eu acabava devolvendo. No ano passado, próximo do Natal, eu cheguei em casa e falei pra ela que o Papai Noel tinha me ligado, dito que ela era uma mocinha e que precisava parar de chupar chupeta. Ela me olhou desconfiada e não falou nada.”

A advogada conta que a conversa trouxe resultados rápidos. “Alguns dias depois, eu cheguei em casa e falei que ela deveria colocar todas as chupetas numa sacola dada pelo Papai Noel e escolher um presente para ele fazer a troca. Na véspera do Natal, aconteceu o prometido. Ela ficou muito feliz e no dia não falou nada sobre a chupeta. Dias depois ela pediu de volta o acessório, e eu disse que conversei com o Papai Noel e ela teria que dar em troca todos os presentes que ganhou de Natal.”

Larissa conta que a resposta foi ‘não’, apesar da pequena ficar pensativa. Dias depois, ela voltou a falar do assunto e a mãe explicou novamente sobre a troca. Hoje, às vezes, a mãe vê a garotinha com a chupeta da irmã na mão e pergunta o que ela está fazendo e ela responde que está apenas segurando para a irmã mais nova.

 

Juliana Ribeiro – Diário da Região

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password