Cemitério de Vagões gera polêmica entre moradores da região

Pelo menos 102 vagões estão abandonados em cinco cidades do Noroeste paulista desde que descarrilaram em São José do Rio Preto

Às margens da ferrovia na região de Rio Preto estão a prova do descaso e da falta de segurança dos trilhos. Pelo menos 102 vagões estão abandonados em cinco cidades do Noroeste paulista desde que descarrilaram. Locais que viraram abrigo para viciados em drogas, criadouro para o mosquito transmissor da dengue, ratos, baratas e animais peçonhentos.

O mato alto, quase da altura dos vagões, denunciam que o problema é antigo em Ecatu, distrito de Tanabi, um dos municípios que abriga um cemitério de vagões há pelo menos nove anos. Em frente a antiga estação, vinte deles foram esquecidos tombados e parcialmente destruídos ao lados dos trilhos. Alguns até são difíceis de serem visualizados no meio do matagal.

Em outro trecho da ferrovia, ainda no mesmo distrito, está o restante dos destroços. Rodas e carenagens também foram deixas para trás e apodrecem com efeito do tempo. “Já fizemos seis solicitações a América Latina Logísticas (ALL) e não virou nada. Pelo contrário, ainda trouxeram mais. Nossa prioridade no combate a dengue tem sido lá, mas o problema é que os agentes também tem de enfrentar a sujeira e o mato ato. Isso sem contar os usuários de droga que ficam por lá”, afirmou o secretário municipal de saúde de Tanabi, Nivaldo Evangelista de Almeida.

Na área rural de Bálsamo, há pelo menos dois anos cinco vagões e dezenas de rodas de locomotiva quase escondidas pela vegetação no lugar, que é pouco movimentado. Até pedaços dos trilhos e parafusos foram deixados no local.

“Toda essa situação começa por conta da falta de segurança. Naquele trecho tem só quatro parafusos, em alguns trechos só dois, enquanto o cerco é oito, conforme foi colocado no Jardim Conceição, em Rio Preto. Depois que descarrilou em Bálsamo correram para arruar os trilhos e deixaram tudo para trás. Cadê a fiscalização dos órgãos competentes?”, afirmou Audinei Lopes Bonfanti, morador do bairro e um dos luta pelo fim do cemitério de vagões.

Ele chegou a enviar ofício para a ALL, carta, e-mails, tudo sem sucesso. O mesmo acontece no município de Bebedouro. A cidade abriga o maior depósito de vagões da região. São 51 esquecidos pela concessionária e que viraram motivo de medo e apreensão entre moradores e funcionários da Secretaria Municipal de Cultura, que fica em frente ao “cemitério”.

“As vezes aparece algum nóia (usuário de drogas) ou mendigos para morar nos vagões. Ficamos com medo e até pedimos para colocarem um segurança ou um homem para trabalhar conosco. Nós fazemos nossa parte que é a limpeza estação, mas os vagões são esquecidos pela concessionária”, afirmou Kelly Adriane Nunes, cuidadora da estação.

O mesmo acontece em Santa Adélia. No pátio da empresa, cinco vagões foram esquecidos, dois deles descarrilados e outros três nos próprios trilhos. Um dos trilhos, inclusive, está aberto e enferrujado.

 

Animais peçonhentos

Não é raro moradores dos prédios da Companhia de Desenvolvimento Habitacional e Urbano (CDHU), na Vila Tonello, em Rio Preto, encontrar algum escorpião ou cobra em casa. Eles moram em frente a 23 vagões abandados a céu aberto ao lado da ferrovia.

“Ali junta de tudo. Escorpião, cobra, morcego, barato, rato. Moro aqui há oito anos e sempre foi assim. Esses dias uma mulher grávida foi picada por um escorpião”, afirmou o servente de pedreiro Peterson Gomes, 32 anos.

Por ser um local escuro durante a noite e escondido de dia, os vagões também viraram ponto de encontro de viciados em drogas, segundo moradores.

 

SUB – ANTT diz que ALL tem até maio para retirar vagões (74 linhas sem fotos)

A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) afirmou que a ALL tem até maio deste ano para realizar a limpeza de vagões deixados na malha ferroviária, conforme firmado em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado entre o órgão e a concessionária.

“As concessionárias têm o dever de manter em adequadas condições de conservação e manutenção todos os bens sob sua responsabilidade, ficando sujeitas a penalidades sempre que a fiscalização da ANTT constata infrações aos dispositivos contratuais. Foi firmado um TAC entre ANTT e ALL que estabeleceu, dentre outros assuntos, um cronograma para retirada de vagões obsoletos da malha ferroviária”, afirmou a ANTT em nota.

Apesar de o acordo prever a limpeza até maio, a própria Agência afirma que a fiscalização na ferrovia não é eficiente e que a prioridade é o serviço de transporte do serviço e não a segurança dos trilhos. “A Malha Ferroviária Nacional concedida mede aproximadamente 30 mil quilômetros de extensão. Por isso, considerando o atual número de servidores incumbidos de fiscalizá-la em todos os aspectos: segurança, trafegabilidade, condições de via permanente, estado de conservação das edificações e pátios ferroviários, ocupações, construções irregulares, abandono de terrenos e edificações, etc., aliado à necessária priorização nas vistorias dos trechos que possam impactar diretamente a prestação do serviço de transporte de cargas, muitas vezes a fiscalização da ANTT demora a chegar a determinados municípios”, disse em nova a Ouvidoria da ANTT ao ser questionada pelo corretor de imóveis Audinei Lopes Bonfanti, sobre a demora na retirada dos vagões em Bálsamo.

 

“Está no cronograma”

A assessoria de imprensa da ALL informou, via e-mail, que a concessionária está realizando a retirada dos vagões em todo o trecho da linha férrea na região de Rio Preto, assim como no pátio da empresa em Ecatu. “Como medida preventiva até a conclusão da retirada de todos os ativos, técnicos da empresa cortarão os vagões para evitar o acumulo de água, assim como outras ações para evitar a proliferação do mosquito da dengue”, dizia outro trecho da nota. Elton Rodrigues/O Jornal

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