Congresso reúne embaixador da China e autoridades para celebrar o melhor momento da parceria de 52 anos
A Câmara dos Deputados realizou nesta segunda-feira (3) a Sessão Solene em homenagem ao Ano Cultural Brasil-China 2026, à Imigração Chinesa no Brasil e às Relações Diplomáticas entre Brasil e China. A cerimônia, conduzida no Plenário Ulysses Guimarães pelo presidente das frentes parlamentares Brasil-China e BRICS, deputado federal Fausto Pinato (União-SP), e um dos requerentes da sessão, marcou a celebração histórica dos 52 anos de relações bilaterais e reafirmou a importância estratégica da parceria entre os dois países.
Pinato foi ovacionado pelas autoridades presentes ao discursar sobre a importância estratégica da parceria bilateral. Em um dos momentos mais marcantes, Fausto Pinato relembrou a origem da Frente Parlamentar Brasil-China e destacou o caráter suprapartidário da iniciativa, construída ao lado do deputado federal Daniel Almeida (PCdoB-BA), um dos requerentes da sessão.

O deputado paulista ressaltou que a defesa dos interesses do país e da soberania nacional está acima de qualquer divergência ideológica ou partidária: “Hoje é um momento muito especial para mim. Quando montamos essa Frente, em 2015, eu conheci o deputado Daniel Almeida, que está no sexto mandato. Ele é do PCdoB, um partido comunista, e eu sou evangélico, um cara de centro-direita. Mas sempre defendi os interesses do meu país. Com a capacidade da política e do diálogo, fizemos muita coisa juntos neste parlamento. Antes de ter lado ideológico ou partidário, nós temos um lado só: o interesse do nosso país. Qualquer um dos lados — seja de esquerda, centro, direita e ultradireita — se atentar contra a democracia ou contra nossa soberania nacional, estaremos sempre do mesmo lado, combatendo qualquer tipo de interferência no nosso território nacional.”
O deputado defendeu o papel dos BRICS no equilíbrio geopolítico mundial e a necessidade de o Brasil investir em indústria de defesa: “Chegou o momento e eu acho que o caminho é os BRICS, de fazer um equilíbrio mundial. E a China, sem dúvida, que era um país que na década de 80 foi invadido, humilhado, mas não conseguiram ficar lá dentro.
Mostrou que graças à persistência, ao planejamento futuro, conseguiu virar uma grande potência e a nossa grande esperança de equilíbrio mundial para as nações que estão sendo vilipendiadas pelo poder econômico e pela máquina de propaganda feita por alguns países.”
Pinato também usou dados concretos para rebater críticas à parceria: “Hoje a China, há 17 anos, é o maior parceiro comercial. Pasmem, é o maior parceiro comercial no agronegócio. E o agronegócio é o que mais faz propaganda contra a China. As exportações brasileiras para a China, pasmem, somam 100 bilhões de dólares: soja, petróleo, minério de ferro, carne bovina. Cabe a nós agregar valor e buscar tecnologia para reindustrializar este país.” E completou com uma declaração contundente: “Sou neto de agropecuarista, fui presidente da Comissão de Agricultura, mas nosso país não pode ser apenas a fazenda do mundo.
Nós queremos ter indústria e capacidade militar para defender os nossos interesses e a nossa soberania.”
Autoridades de alto escalão marcam presença ao evento
A cerimônia contou com a participação de representantes dos mais altos escalões de governo e da diplomacia, incluindo o embaixador Zhu Qingqiao, Embaixador Extraordinário e Plenipotenciário da República Popular da China no Brasil; Olival Freire Júnior, presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq); Thomas Law, presidente do Instituto Sociocultural Brasil-China (Ibrachina); Li Dongcheng, secretário-geral da Associação Brasileira dos Empresários Chineses (ABEC); Andrei Augusto Passos Rodrigues, Diretor-Geral da Polícia Federal; e Daniel Almeida (PCdoB-BA), presidente do Grupo Parlamentar Brasil-China e requerente da sessão.
Ao abordar o momento geopolítico atual, o embaixador Zhu Qingqiao destacou a resistência e a maturidade do vínculo bilateral frente às incertezas mundiais. “Independentemente das transformações do cenário internacional, as relações China-Brasil têm se mantido sólidas e dinâmicas e renovado constantemente. Atualmente, as nossas relações bilaterais se encontram no seu melhor momento da história”, afirmou.
O embaixador estruturou seu discurso em torno de três lições que, segundo ele, devem guiar a parceria. A primeira: “Devemos permanecer unidos, caminhar lado a lado e construir um futuro partilhado. A China e o Brasil são forças construtivas na defesa da paz mundial e no aperfeiçoamento da governança global.” A segunda: “Devemos manter a complementaridade de vantagens e o benefício recíproco”, destacando que no primeiro semestre de 2026 as exportações brasileiras para a China alcançaram US$ 58,3 bilhões, crescimento de 21,9% em relação ao mesmo período do ano anterior. E a terceira: “Devemos promover o aprendizado mútuo entre as civilizações e fortalecer os vínculos entre os nossos povos.”
Zhu Qingqiao sublinhou que os interesses de ambos os países estão cada vez mais interligados e que os intercâmbios culturais já fazem parte do cotidiano das duas sociedades. Em mensagem de alcance global, reforçou que “o futuro do mundo não é o solo de um único país, nem o ensaio de poucas potências, mas a sinfonia de todos os países.”
Olival Freire Júnior, presidente do CNPq e representante do Ministério da Ciência e Tecnologia, ressaltou que a relação Brasil-China é uma decisão de Estado, e não de governo: “As relações entre o Brasil e China correspondem, do ponto de vista do Estado brasileiro, a uma decisão do Estado brasileiro e não do governo A, B ou C. É emblemático que as relações diplomáticas Brasil e China tenham sido restabelecidas em 1974 pelo presidente General Ernesto Geisel, quando nós estávamos debaixo da ditadura militar.”
Freire Junior destacou o legado científico da parceria, citando a construção conjunta de satélites do programa CBERS a partir de 1985, e anunciou a abertura de novas frentes de cooperação: “No âmbito estritamente científico e tecnológico, nós vamos abrir cooperação nos próximos meses em terrenos como pesquisa no solo submarino e como matemática, onde recentemente a China está de parabéns com as duas medalhas Fields que conquistou.”
O ministro Herman Benjamin, do Superior Tribunal de Justiça, discursou sobre a crescente cooperação no campo jurídico entre os dois países. “Em 2025 o Superior Tribunal de Justiça recebeu pela primeira vez uma delegação da Suprema Corte Popular da China, liderada pelo vice-presidente Rei Jarong. E na oportunidade foi assinado um memorando de entendimento para fortalecer a cooperação institucional entre os nossos dois tribunais”, relatou.
Benjamin anunciou a criação do Consórcio Brasil-China de Faculdades de Direito, do qual é presidente: “Mas o mais importante é que foi criado o Consórcio Brasil-China de Faculdades de Direito, que tem como secretariados no Brasil a Fundação Getúlio Vargas de São Paulo e na China a China University of Political Science and Law, que é uma das de maior prestígio naquele país.” O ministro também anunciou a realização do segundo congresso STJ Brasil-China de Direito em novembro de 2026, sediado pela USP e pela FGV.
Thomas Law, presidente do Ibrachina e representante da OAB-SP, ressaltou que a relação Brasil-China vai além dos números: “A relação Brasil-China não se mede só por estatísticas, por números ou por comércio.” Law destacou conquistas do ano, como a vitória da PUC-SP no Moot de Shanghai, e chamou atenção para a agenda de inteligência artificial: “A China hoje lidera uma pauta específica de inteligência artificial. A importância da visão humanista que a China quer dar para a inteligência artificial é algo que o Brasil também deve regulamentar. Temos desafios iguais, que são questões de ética e desafios de aplicação da IA.”
Fausto Pinato e a diplomacia parlamentar
O deputado Fausto Pinato é um dos principais articuladores parlamentares da relação bilateral. Presidente da Frente Parlamentar Brasil-China desde 2015 e também da Frente Parlamentar dos BRICS, Pinato acumula ações de alto impacto diplomático, como o envio de carta ao presidente Xi Jinping em janeiro de 2021 para garantir insumos para a produção de vacinas contra a Covid-19 no Brasil. Em maio de 2026, levou o embaixador Zhu Qingqiao a Fernandópolis (SP), promovendo a aproximação diplomática com o interior do país.
Sobre o episódio da pandemia, o parlamentar relembrou com emoção: “Houve momentos em que as nossas pontes foram testadas. No momento da pandemia, nós dependíamos do IFA e tínhamos famílias de fanfarrões que chegaram ao poder, que repudiavam a maior parceria comercial e aqueles que poderiam dar o IFA para fazer a vacina. Eu fiz uma carta para o presidente Xi Jinping e agradeço aqui publicamente o presidente Xi Jinping, por não ter visto ideologia no meu partido, mas ter visto a vida do povo brasileiro.”
Sessão Solene abre caminho para desdobramentos
A Sessão Solene abre caminho para uma série de desdobramentos na agenda bilateral, incluindo a continuidade das atividades culturais, acadêmicas e de turismo previstas até o final de 2026, com exposições, festivais e intercâmbios no âmbito da programação do Ano Cultural. A Frente Parlamentar continuará fortalecendo a atuação legislativa em temas como cooperação em ciência e tecnologia, inteligência artificial, energia limpa e comércio digital. Há também a expectativa de intensificação do diálogo entre o Congresso Nacional e a Assembleia Popular Nacional da China, ampliando a diplomacia parlamentar entre os dois países.
Maior parceiro do Brasil
As relações Brasil-China em números demonstram a magnitude da parceria bilateral: o comércio entre os dois países alcançou US$ 171 bilhões em 2025, um recorde histórico, representando 27,2% da corrente total do comércio brasileiro. As exportações do Brasil para a China totalizaram US$ 100 bilhões, gerando um superávit brasileiro de US$ 29,1 bilhões, o 17º ano consecutivo de saldo positivo.
As relações diplomáticas completam 52 anos desde seu estabelecimento em 15 de agosto de 1974, e desde 2012 a parceria é classificada como “Parceria Estratégica Global”. A China é o maior parceiro comercial do Brasil desde 2009, mantendo a posição por 17 anos consecutivos. A comunidade chinesa no Brasil é estimada em cerca de 300 mil pessoas, com presença significativa em diversos setores da economia e sociedade brasileiras.
Dragão e Onça
No final da cerimônia, o deputado federal Fausto Pinato recebeu uma segunda escultura que mistura um dragão com uma onça pintada, representando o intercâmbio cultural Brasil-China. A obra é da artista chinesa Huang Jian. É a segunda obra que o parlamentar ganha da artista.












