Aposentado de Tanabi já assistiu a mais de 200 júris

Nada de novela, futebol ou programa de culinária. O aposentado José Tarcísio Sadalla, 69 anos, tem gosto peculiar. É apaixonado pelo Tribunal do Júri. Esse morador de Tanabi gosta de assistir aos cansativos julgamentos, que dificilmente duram menos que cinco horas e retratam o lado mais sórdido da sociedade. Em seis anos, esteve em 206 júris realizados em Rio Preto.

A pergunta que não cala: qual a motivação para tão excêntrica paixão? “A gente sempre tira lição. Essas histórias sobre o mundo real ajudam a refletir. É melhor do que ficar no bar.” Em um ambiente assim, não faltam informações sobre o comportamento humano, suas fraquezas e momentos de extremo destempero. Na hora de decidir se o réu é culpado ou inocente, segredos guardados até mesmo pela vida toda emergem das profundezas e são colocados na mesa, caso tenha relevância para esclarecer dúvida pertinente. “Muitas vezes, nem os familiares sabem de determinados detalhes. Descobrem ali, sem meias palavras. Tem muito choro. Procuro nem ficar perto nessas horas”, afirma Sadalla, que preferiu não ser fotografado. Gosta de discrição.

Aposentado há sete anos como vendedor, tem fala mansa e cabelos brancos. Pega o próprio carro e vem para Rio Preto toda vez que alguém vai para o banco dos réus. Viaja 80 km (ida e volta) ao menos uma vez por semana para acompanhar os julgamentos. Já permaneceu dez horas sentado, com a atenção voltada na sala em que os fatos se desenrolavam. Chegou em casa de madrugada. A família entende sua paixão.

A primeira vez que pisou na sala da Justiça rio-pretense foi no longínquo 19 de novembro de 2008, após um hiato de quatro décadas longe das lides judiciais. Nos anos 70, foi jurado no Fórum de Tanabi. Parou em razão dos compromissos profissionais. Com raras faltas, hoje tornou-se frequentador assíduo. É conhecido por todos os funcionários do Fórum e é reconhecido pelos estudantes de Direito, de quem é uma espécie de orientador informal.

De tanto assistir aos júris, o aposentado decorou o protocolo. Sem pestanejar, sabe a ordem exata que cada parte deve se manifestar. Como é prestativo, não é raro explicar o que se passa aos novatos. “Sempre bato papo com os estudantes. Às vezes, o pessoal chega meio perdido. Mas não sou do meio jurídico. Não posso falar muita coisa.” Seu filho Júnior se forma advogado em julho.

Pode até não se manifestar de forma contumaz, mas fica atento para todas as minúcias do evento judicial. Sem rigor científico, estima que no máximo 5% dos réus, nos casos que testemunhou, choraram e, assim, demonstram resquício de arrependimento. Não custa lembrar que vão a júri pessoas envolvidas em quatro crimes dolosos contra a vida, tentados ou consumados: homicídio, participação em suicídio, infanticídio e aborto.

Sua centésima participação foi reconhecida pelo juiz Caio César Melluso, que comentou a importante data justamente em um dos julgamentos. “Cidadão de Tanabi que viaja e prestigia o tribunal, colaborando com a fiscalização da sociedade e as coisas da Justiça.” Já testemunhou o desempenho dos promotores José Américo Ceron, Marco Antônio Lelis e José Heitor dos Santos, atual representante do Ministério Público no júri.

Detesta casos com mulher e criança. Não tolera quando pai mata o filho, ou vice-versa. Tenta, no entanto, não se contaminar pela emoção. “Não é julgada a pessoa, mas o ato que ela fez. O que mais gosto é o embate entre defesa e acusação.” A verdade é que Sadalla frequenta o Tribunal do Júri porque descobriu que quando a Justiça se faz presente, não existe coisa mais bonita no mundo. DiarioWeb

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password