qua, 12 de agosto de 2026

Após 30 anos, Cracolândia chega ao fim com ação integrada que desmontou tráfico e ampliou rede de atendimento

Pela primeira vez em quase três décadas, a chamada “Cracolândia” deixou de existir como problema estrutural no centro de São Paulo. A solução para o problema que parecia impossível de se resolver ocorreu após um conjunto de ações intersetoriais que combinou desmantelamento do ecossistema do crime organizado no território, requalificação urbana e a ampliação inédita dos serviços de saúde e assistência voltados a dependentes químicos. 

Somente o Hub de Cuidados criado pelo Governo de São Paulo superou, em menos de três anos, mais de 30 mil encaminhamentos para tratamento. Desde 2023, a administração estadual entregou 13 complexos com 52 Casas Terapêuticas e dez unidades do Espaço Prevenir na Grande São Paulo e no interior, totalizando mais de 42,2 mil atendimentos nos três serviços.

Esse conjunto articulado de medidas foi decisivo para desmobilizar as cenas abertas de uso e esvaziar, em definitivo, o fluxo que durante anos se deslocou entre as ruas Helvétia, Dino Bueno, Alameda Cleveland, Praça Princesa Isabel e Rua dos Protestantes; esta última foi totalmente desocupada em 10 de maio de 2025, simbolizando a extinção da Cracolândia. O resultado foi alcançado graças à ação conjunta do Governo do Estado e da Prefeitura, reunindo segurança, saúde, assistência social, zeladoria urbana e desenvolvimento econômico.

“Enfrentamos um desafio que muitos consideravam impossível. Graças à coragem política e à ação integrada entre Estado e Prefeitura, conseguimos encerrar a cena aberta de uso conhecida como ‘Cracolândia’, um problema que perdurou por 30 anos, e transformar vidas”, disse o vice-governador Felicio Ramuth, que liderou as ações do Estado a respeito das cenas abertas de uso “Milhares de dependentes químicos receberam atendimento humanizado, com acompanhamento em saúde e assistência social, e conseguimos desarticular o ecossistema do crime. O fim da ‘Cracolândia’ é a prova de que é possível unir segurança e cuidado com quem mais precisa, garantindo cidadania, dignidade e esperança de um futuro melhor.”

Segurança pública

Uma das principais mudanças foi o foco no ecossistema que sustentava o tráfico. Investigações da Polícia Civil revelaram que hotéis, ferros-velhos e pensões funcionavam como centros logísticos para armazenamento de drogas, comercialização e lavagem de dinheiro, com movimentações financeiras milionárias incompatíveis com o perfil dos frequentadores. 

A partir desse diagnóstico, o Estado lançou operações coordenadas para desarticular as ações criminosas. Iniciativas como a Operação Downtown e a Operação Salut Et Dignitas ampliaram o ataque ao crime organizado, atingindo também milícias envolvidas em exploração sexual, ferros-velhos clandestinos, receptação e outros delitos que alimentavam o tráfico na região central.

Esse pacote de ações resultou na asfixia financeira do ecossistema criminoso, interrompendo a rota da lavagem de dinheiro e desmontando a estrutura que sustentava o fluxo. A Polícia Militar também teve papel central, sobretudo após a qualificação dos frequentadores, que permitiu diferenciar quem precisava de tratamento de quem praticava crimes.

O 2º Sargento PM Fernandes, da Força Tática do 7º BPM/M, que atua há três anos no patrulhamento da região, relatou à Agência SP o impacto direto dessa mudança. Segundo ele, o trabalho passou a combinar policiamento ostensivo, orientação aos dependentes e apoio às equipes de saúde. “O que foi feito agora que nunca tinha sido feito antes foi investir pesado em tecnologia, equipamentos e integração entre as forças policiais. Esse conjunto deu finalmente as condições para enfrentar um problema que existia há mais de 30 anos”, disse.

“Hoje é totalmente diferente do que era anos atrás”, explica, destacando que a integração com o Hub de Cuidados e com os serviços municipais de assistência permitiu encaminhar de forma rápida aqueles que buscavam ajuda e, ao mesmo tempo, afastar traficantes que se misturavam aos usuários.

Ele destacou também a importância do uso das câmeras do programa Muralha Paulista na região. “Antes, os procurados se escondiam no meio da multidão. Trocavam de camiseta, misturavam-se rapidamente. Com as câmeras do Muralha Paulista, conseguimos identificar características e agir com segurança, sem precipitação”, relatou.

A integração entre segurança, saúde e assistência social foi estruturada dentro da nova Política Estadual sobre Drogas, organizada em eixos como tratamento, reinserção social, redução da oferta e requalificação das cenas abertas de uso. O Estado criou o Comitê Técnico-Científico da Política Estadual sobre Drogas, além de operações conjuntas com o município, que interditaram imóveis irregulares, fecharam ferros-velhos clandestinos e ofereceram suporte às ações de abordagem social e atendimento de saúde.

Saúde pública

O avanço também se deu no campo da saúde pública. O Consultório na Rua Redenção, o Serviço Especializado de Abordagem Social e os núcleos de acompanhamento do Programa Redenção ampliaram sua atuação, elevando em 29% os atendimentos, de 14.136 em 2023 para 18.243 em 2024. O Hub de Cuidados em Crack e Outras Drogas, por sua vez, passou a concentrar triagem, atendimento psicossocial, acompanhamento médico, grupos terapêuticos e encaminhamento hospitalar para desintoxicação.

Além do Hub, o Governo de São Paulo expandiu a rede de acolhimento da Secretaria de Desenvolvimento Social, que sustenta uma jornada completa de proteção social: Casas de Passagem, Casas Terapêuticas, acolhimento híbrido, acolhimento comunitário, repúblicas e Espaços Prevenir. Apenas Casas de Passagem e Casas Terapêuticas somaram 10,1 mil acolhimentos entre 2023 e 2025, enquanto o conjunto da rede da SEDS registrou 27,7 mil acolhimentos até setembro de 2025.

As Casas Terapêuticas se tornaram um dos pilares do tratamento humanizado. Organizadas em quatro fases (Acolher, Despertar, Transformar e Caminhar), elas oferecem moradia, acompanhamento diário, atividades domésticas, apoio psicológico, reinserção educacional e estímulo ao emprego e renda. O objetivo é promover autonomia e garantir que a pessoa retorne à sociedade com estabilidade e suporte para evitar recaídas.

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