Aplicativos recriam ‘guerra dos sexos’ nas redes sociais

A guerra dos sexos está declarada. E acontece por meio de aplicativos. Do lado delas, o Lulu. Do lado deles, o Tubby. Dois programas de celulares e smartphones para avaliar homens e mulheres, de forma anônima, em diversos aspectos. Desde o humor até o sexual. Como ninguém gosta de ser julgado, é imensa a polêmica em torno dos aplicativos.

O clube da Luluzinha chegou ao Brasil em novembro. O Tubby está previsto para ser lançado oficialmente amanhã, como resposta ao sucesso do primeiro aplicativo. Em ambos os programas, homens e mulheres são avaliados através de algumas perguntas, uma nota é gerada e hashtags são ligadas ao avaliado.

Como prevenção, mulheres rio-pretenses já se mexeram e querem evitar avaliações. Entraram no site do aplicativo, antes mesmo do lançamento oficial, e desabilitaram a opção. Segundo o próprio aplicativo, elas ‘arregaram’. A preocupação se explica. No Tubby, a avaliação é mais focada em relações sexuais.

“Acho uma falta de respeito. Além do caráter pejorativo, pode ser usado como instrumento de vingança por ex-namorados que foram abandonados e não se conformam com a separação ou também por aqueles homens que estão com o orgulho ferido por ser rejeitados por algumas mulheres,” disse a estudante de direito Letícia Ferrari, 21 anos.

“Saí antes mesmo de o aplicativo entrar em operação, pois não quero ter informações pessoais, nem sempre verdadeiras, correndo pela rede.” O slogan do aplicativo deixa clara a intenção: “sua vez de descobrir se ela é boa de cama”. As mulheres que evitam a participação recebem uma mensagem dizendo: “nome da pessoa arregou e não faz mais parte do Tubby”. A saída pode acontecer antes mesmo da avaliação.

No Lulu também é permitida a blindagem. Basta entrar no site e pedir a remoção do perfil. Também é possível, pelo Facebook, evitar que aplicativos utilizem as informações expostas na rede social. Em Configurações, clique em Configurações de Privacidade, depois em Aplicativos e remova as opções que não deseja como aplicativos.

Mas antes de conseguir sair, o empresário João (nome fictício), 25 anos, sofreu na mão delas. Foi avaliado sete vezes e ficou com a nota 7,4. Garante que o resultado é mentiroso. “Estava com nota 8,8 quando fiquei com outra na frente de uma ex. No dia seguinte, minha nota caiu.” Acompanhados da média, vieram hashtags como “apaixonado pela ex”, “cheira mal”, “bebezão” e “acende um cigarro no outro”. “E eu nem fumo. Acho que esse tipo de coisa não acrescenta nada, porque tem muita mentira,” disse. João não vai participar do Tubby. “Tô fora.”

O personal trainer Claudio de Andrade Júnior, 34 anos, foi avaliado no aplicativo. Apesar de a nota não ter sido favorável, ele acredita que a influência em futuros relacionamentos vai ser nula. “Achei engraçado ter sido avaliado. Não vai ser empecilho, porque os participantes costumam entrar por vingança ou brincadeira.” No caso dele, a avaliação teria sido da ex-namorada. “Terminamos recentemente, era um relacionamento longo.” Ficou sabendo depois que uma amiga contou. E para provar que leva o julgamento na brincadeira, até postou a nota em uma rede social.

Tem até Lulu Fake que custa R$ 99

Há os que não gostam, os que levam na brincadeira e os que levam a sério. Tanto que tem gente pedindo para amigas e conhecidas avaliarem o perfil positivamente para melhorar a média. Se nem assim conseguir subir o conceito, é possível ainda comprar resultados. Já foi criado o Lulu Fake, um aplicativo que faz uma avaliação falsa, mas positiva. São três pacotes, com preços de R$ 24,90 a R$ 99,90.

O Lulu foi criado na Inglaterra pela advogada Alexandra Chong, 32 anos. A ideia surgiu durante um jantar com amigas após o Dia dos Namorados. Elas chegaram à conclusão de que faltava no mercado algo que desse informações às mulheres sobre relacionamentos. Nos Estados Unidos, o aplicativo já ultrapassou 1 milhão de usuários. No Brasil, já é bem popular. No Google Play e Apple Store (lojas virtuais), está entre os programas mais baixados.

 

Banalizando os relacionamentos

Especialistas preveem uma série de processos contra os aplicativos de avaliação. “Eles afrontam a intimidade e a honra. Quem se sentir humilhado pode e deve entrar com ação tanto contra o aplicativo quanto contra o Facebook, que permite a utilização dos dados,” disse o advogado Djalma Pirillo Júnior.
Alguns processos já estão em andamento. Um deles ocorreu no Rio de Janeiro, onde um universitário entrou na Justiça depois que foi classificado como “bafo da morte” por uma avaliadora. O Ministério Público do Distrito Federal instaurou inquérito contra os criadores do Lulu e o Facebook.

O motivo alegado é que o aplicativo “evidencia ofensa a direitos existenciais de consumidores, particularmente à honra e à privacidade, ensejando medidas administrativas e, eventualmente, condenação por dano moral coletivo.”

Para o psicólogo Carlos Eduardo Carvalho de Freitas, o aplicativo é uma demonstração de imaturidade e vulgarização dos relacionamentos. “Parece brincadeira, mas é algo sério e se trata de uma involução. Torna-se perigoso por entrar na intimidade das relações de forma infantilizada. E quem tem mais a perder com isso, devido à nossa cultura, são as mulheres,” afirma o psicólogo Freitas.

 

Bruno Ferro – Diário da Região

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