Ao menos 20 garotas de seis escolas de Rio Preto têm fotos ou vídeos íntimos circulando na internet

O toque do celular anuncia que uma nova mensagem chegou. O conteúdo é picante: uma foto mostra um adolescente de 18 anos, apenas de cueca, abraçado a uma menina de 15, já sem a roupa de baixo. 

 
A imagem, feita pela fresta de uma janela, não é apenas um ato de bisbilhotice.

 

Trata-se de um flagra de ato sexual entre dois alunos de uma escola estadual, a Professora Amira Homsi Chalella, no Jardim Novo Mundo, em Rio Preto. Foi durante horário letivo, em uma das salas de aula.

O caso teria ocorrido no dia 30 de outubro. No mesmo dia, colegas de classe dos dois envolvidos, alunos de outras séries, de outros colégios e até a direção da escola tiveram acesso a essa e outras fotos e a um vídeo do flagrante. A propagação em alta velocidade se deu graças ao Whatsapp, aplicativo para celulares que permite envio instantâneo de imagens.

 

 

Mesma forma com que o vídeo da jovem Fran, de Goiânia, foi compartilhado. Ela foi filmada pelo parceiro durante ato sexual e depois teve o vídeo espalhado. Mas casos como o dela acontecem mais perto do que se imagina. Conhecidas como sexting, essas “produções” mostram adolescentes que aceitaram a gravação ou foram sujeitas a câmeras ocultas e depois tiveram as imagens espalhadas.

 

 

Levantamento do Diário entre estudantes de três colégios rio-pretenses revela que pelo menos 20 garotas da cidade, de seis escolas diferentes, têm vídeos ou fotos íntimas circulando por aparelhos celulares. Algumas foram parar até em sites de conteúdo pornográfico. A diferença para o caso do Amira, no entanto, é que em nenhum destes outros as cenas foram produzidas dentro da escola.

A revelação das imagens deixou pais d

 

e outros alunos indignados. Muitos questionam se foi apenas um fato isolado ou se já aconteceram outras vezes. “Há outros 20 casais que ficam juntos na escola, quem sabe se eles também já não fizeram nada,” disse um pai, que preferiu não ser identificado.

Punição

Outros questionaram a punição aplicada aos envolvidos, cinco dias de suspensão. “No meu entendimento, isso era digno de expulsão para deixar claro que a escola não é lugar para isso.” Cumprida a punição, os envolvidos no caso voltaram a frequentar a escola.

 

 

De acordo com alunos que receberam as imagens, o garoto tinha acesso às chaves da sala de vídeo. A escola funciona em período integral e, durante uma atividade em que os professores não estavam presentes, o casal teria ido até a sala. “O curioso é que todo mundo ficou espantado com o fato, pois ninguém desconfiava do relacionamento dos dois,” disse uma aluna.

 

 

Em postagens nas redes sociais, o adolescente envolvido confirmou a história, mas afirma que tudo aconteceu no início do ano e só foi divulgado recentemente. Ainda pela internet, primeiro o rapaz lamenta a expulsão da escola e depois comemora a volta dizendo que contou com a ajuda da secretária da educação.

 

 

“Ela ficou sabendo do que houve na escola e brigou com o diretor, e me aceitou de volta à escola,” escreveu. Ele não deixa claro, porém, se está falando da secretária municipal de educação ou da dirigente regional de ensino. As assessorias de imprensa das duas descartaram a hipótese de interferência no caso.

 

O Diário entrou em contato com o rapaz e com a garota por meio de redes sociais, mas nenhum deles respondeu. O diretor da escola, João Batista de Souza, disse que não tinha autorização para falar sobre o assunto. A escola, por meio da assessoria de imprensa da Secretaria do Estado da Educação, informou que os responsáveis pelos alunos foram chamados para uma reunião na semana passada e os estudantes foram suspensos. “O trabalho com os alunos da escola e para envolver as famílias na prevenção de casos como este foram reforçados.”

Pierre Duarte
Fiquei muito mal, quase entrei em depressão. Queria matá-lo. Aprendi a lição da pior forma possível

Vídeos com menores vão até para site pornô 

Dois anos de namoro foram suficientes para que Maria (todos os nomes desta reportagem são fictícios) confiasse plenamente no namorado. A ponto de fazer um vídeo tocando em partes íntimas e enviar para ele por meio do celular. Bastou ela terminar o namoro e não aceitar a volta para ter a maior decepção em seus 18 anos de vida.

 

 

“Achei que tivéssemos intimidade o suficiente para algo assim. Mas quando não quis voltar, ele disse que eu iria me arrepender e jurou vingança.” O ex enviou o vídeo para amigos e, em pouco tempo, todos da escola em que a menina estuda estavam com as imagens no celular. Até em site de conteúdo pornô a gravação foi parar.

 

 

O caso dela não é isolado. Levantamento com alunos do ensino médio de três colégios rio-pretenses revela que pelo menos 20 meninas têm fotos ou vídeos íntimos circulando pela internet ou celulares. Os casos são de garotas de seis diferentes escolas, quatro públicas e duas particulares. Em todos eles, apenas os rostos das mulheres aparecem.

 

 

“Fiquei muito mal, quase entrei em depressão. Queria matá-lo. Foi irresponsabilidade da minha parte e aprendi a lição da pior forma possível,” disse Maria. Em uma balada, foi reconhecida por um grupo de jovens e apontada como sendo a garota do vídeo. “A partir daí, dei uma diminuída em festas e passei a frequentar lugares menos movimentados.”

 

 

Maria procurou advogados e polícia. Mas não conseguiu punição. Segundo ela, a prova foi eliminada ao apagar as mensagens em que enviava os vídeos para ele. “Acabei desistindo e ele vai ficar impune. Todo mundo da minha família ficou sabendo. Ficaram furiosos com a situação, mas depois entenderam que o culpado era ele, que tinha feito por maldade.”

 

 

No caso de Francisca, 18 anos, a maldade não foi do ex-namorado, mas de algum colega de classe. Em um dia que esqueceu o celular na classe, alguém acessou os vídeos que mantinha no aparelho e encontrou um íntimo. Espalhou rapidamente. “Não sei dizer porque fizeram isso, até porque me dava bem com todos.”

 

 

No vídeo, que foi gravado no começo do ano e espalhado no mês passado, Francisca está com o ex-namorado. A relação acabou antes da divulgação do vídeo. O rosto dele não aparece nas imagens. “Aceitei gravar o vídeo pois eu já namorava há três anos e foi um momento nosso. Fiquei muito assustada, com vergonha e não acreditei no que estava acontecendo.” Para evitar constrangimento, ela mudou a cor do cabelo depois da divulgação do vídeo.

 

 

Nas redes sociais, familiares e amigos apoiaram a menina. “Estou do seu lado, minha filha. Vamos juntas vencer isso,” escreveu a mãe dela sem revelar sobre o que estava falando. Já Roseli preferiu não revelar aos pais a história. Com isso, não foi à delegacia. “Foram duas fotos divulgadas. Até queria fazer boletim de ocorrência, mas sou menor e teria de contar aos meus pais o que ocorreu.”

 

 

Andréia, 18, também foi vítima da perda do celular. Ficou sabendo que suas fotos estavam circulando quando um amigo recebeu as imagens e a avisou. “Foram fotos feitas por mim mesma e as mantinha no celular. Em uma festa, perdi o aparelho e quem encontrou espalhou. Fiquei mais nervosa com quem fez isso do que com vergonha.”

Facebook

Um grupo fechado e oculto na rede social, chamado de R.I.P. Red Tube, é uma das plataformas que recebem conteúdos íntimos. Os membros costumam divulgar imagens de mulheres com quem mantêm relação, a maioria delas sem permissão. Dentre as identificadas, algumas são de Rio Preto.

Caso em GO virou ‘febre’

 

 

O caso de maior repercussão aconteceu em Goiânia. Uma jovem que ficou conhecida como Fran foi filmada pelo parceiro em ato sexual. No vídeo, apenas o rosto dela é mostrado. Quando o relacionamento chegou ao fim, o ex, que é casado, divulgou as imagens e a identificou. Com milhões de compartilhamento, a garota de 19 anos mudou o visual, parou de estudar e trabalhar e saía de casa apenas para falar com advogados.

 

 

Sensibilizados com a situação, sinais de apoio à Fran vieram de todas as partes. Na internet, além de muitos textos dando forças à garota, uma página no Facebook foi criada com o nome de Apoio Fran. Relatos de experiências parecidas e mensagens de solidariedade foram deixados por milhares de pessoas. Até ontem, 39 mil haviam curtido a página.

 

 

O apoio foi bem recebido pela garota, que escreveu uma carta de agradecimento. “É muito bom saber que ainda existem pessoas capazes de amar o próximo sem julgá-lo e sem condená-lo! (…) não desejo a ninguém isso e se depender de mim vou fazer o possível para ajudar a Lei Maria da Penha virtual sair do papel, para que crimes como esse não se tornem ‘piadinhas’ de pessoas que não sabem direito da situação.”

 

 

Ainda na internet, anônimos e alguns famosos, como o cantor Leonardo, fizeram fotos ou vídeos com sinal de OK com mãos, gesto que a garota faz no vídeo com outra conotação.

 

O deputado federal Romário apresentou projeto de lei que torna crime a divulgação indevida de material íntimo. “Esses crimes se tornaram muito comuns depois dos smartphones e causam prejuízos irreversíveis à moral e à integridade das vítimas, que são, em sua maioria, mulheres,” justificou.

Edvaldo Santos
Delegada Dálice: mulher só procura ajuda quando se sente ameaçada

Vergonha leva a poucas denúncias na polícia

Vergonha, falta de informação, medo de piadas ou vontade de que o caso seja logo esquecido. Os motivos são inúmeros e ajudam a explicar o porquê de poucas mulheres denunciarem o caso de exposição de imagens íntimas à polícia. Em Rio Preto, segundo a Delegacia de Defesa da Mulher (DDM), menos de dez casos foram registrados este ano.

“São muito esporádicos, nem me lembro qual foi o último registro,” disse a delegada Dálice Aparecida Ceron. As mulheres que decidem procurar ajuda o fazem, na maioria das vezes, por ameaças e não necessariamente pela divulgação. “Geralmente, o parceiro faz chantagem ameaçando enviar as imagens a amigos e familiares.”

Tanto a divulgação quanto a ameaça são considerados crimes. No primeiro caso, o responsável é enquadrado por difamação. “Mesmo quando existe a permissão para a gravação, não dá o direito de que alguém utilize para expor a pessoa gravada ao ridículo,” afirma a delegada. Em casos de chantagem, sem divulgação das imagens, o boletim de ocorrência é feito por ameaça.

A falta de denúncias colabora para a disseminação dos casos, segundo a terapeuta sexual Ana Monachesi. “A gente tem que fazer essas meninas começarem a divulgar, porque o processo multiplicador vai gerar uma mudança. É preciso expandir esse conhecimento do eu tenho que preservar meu corpo, custe o que custar.”

O silêncio também se deve ao medo da revitimização. “Ela já é vítima de uma situação e pode ser tornar de outra, que é o policial tirar sarro ou considerá-la culpada,” disse a terapeuta. Uma opção é procurar profissionais para se orientar. O site da associação SaferNet Brasil oferece um canal de ajuda on-line em tempo real para aconselhamento. “Lá temos até um modelo de carta para pedido de retirada de conteúdo de algum site,” disse o psicólogo Rodrigo Nejm, diretor de atendimento e prevenção da SaferNet Brasil.

A terapeuta acredita que seja necessário estratégia das instituições de ensino, em parceria com profissionais, para interagir com os alunos e evitar que novos casos acontecem. “O respeito próprio limita a ação do outro. Sem isso, a gente está abrindo brechas para que vaze,” disse Ana.

Além das punições legais, o culpado por espalhar imagens íntimas também sofre as consequências sociais. “Será que você consegue ser amigo de alguém que fez isso com a namorada? Será que você vai dar emprego para alguém assim? Isso é responsabilizar o autor,” disse Ana.

Polícia

De acordo com o delegado do Deinter-5, Raymundo Cortizo Sobrinho, a Polícia Civil está preparada para investigar casos deste tipo, mas as ocorrências são raras. “Os policiais são treinados, inclusive fizeram um curso na semana passada apenas sobre crimes cibernéticos.” Segundo o delegado José Augusto Fernandes, nenhum caso envolvendo o Whatsapp chegou ao conhecimento da Delegacia de Investigação Geral.

Campanha conscientiza para os riscos

“Você colocaria fotos íntimas no mural da escola ou sairia distribuindo essas fotos por um shopping center? E por que então fazer isso na internet, espaço que também é público?”. O questionamento é da associação SaferNet Brasil e visa alertar sobre os perigos que o uso desenfreado da internet pode provocar.

“A internet é um grande mural em que não se tem o controle sobre as imagens postadas. Uma vez dado o clique para enviar, se perde o comando,” disse o psicólogo Rodrigo Nejm. Segundo ele, o compartilhamento de imagens íntimas já acontece há muito tempo, porém aumentou em quantidade e velocidade de propagação graças aos celulares com internet.

A maior parte dos casos envolve adolescente. Pensando nisso, Nejm alerta sobre a necessidade de explicar a eles o prejuízo que situações como essa podem trazer às suas vidas. “Ele deve pensar que um dia vai constituir família, vai ter emprego e essas imagens pode chegar a pessoas que ele não gostaria.”

Mesmo pensamento da terapeuta sexual Ana Monachesi. “Os adolescentes gostam de testar limites, mas as consequências a longo prazo podem ser desastrosas, tanto no campo sexual quanto social, familiar e de trabalho. A autoestima dela pode acabar e causar depressão.” Bruno Ferro – diarioweb.com

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