Amor Bandido põe jovens mulheres atrás das grades

Carolina. Jovem bonita com cabelos tingidos de loiro. É uma dessas princesinhas do bairro, caçula da casa, estilo careta até para bebida alcoólica e que cedo, aos 15 anos, encontrou o seu “vagabundo”. Numa balada com as amigas conheceu o namorado e, com ele, o tráfico de drogas. Mesmo antes de experimentar qualquer substância, ajudava o parceiro a embalar e separar a mercadoria. “Também aprendi a cheirar”, diz Carolina (nome é fictício). O negócio cresceu até pela necessidade de sustentar o vício.

Carolina também foi para biqueira. Ficou conhecida na avenida Murchid Homsi. O namoro esfriou e ela passou a ser agredida. E para um final ainda mais infeliz, a “casa caiu” para Carolina, aos 21 anos. “Foi no dia 12 de agosto, costumo dizer que 12 de desgosto”. Naquela quarta-feira, por volta das 20 horas, os investigadores da Dise (Delegacia de Investigações Sobre Entorpecente) bateram na porta da casa dela e encontraram, numa caixinha de sapato, 740 gramas de maconha, 200 gramas de cocaína e um revólver calibre 38 com a numeração raspada e seis munições.

“Meu namorado me agredia, resolvi fazer o meu ‘corre’ sozinha e fizeram uma proposta pra eu guardar essas drogas e arma. Não era minha”, falou Carolina, presa por tráfico de drogas. Aos 26 anos, agora ela luta para recomeçar. Não tem sido fácil superar os dias vividos atrás das grades. “Jamais imaginava o tanto que sofreria no presídio. Só de pensar, ainda choro muito. Recordo de presas gestantes ou com filhos pequenos, e o choro dessas crianças ainda me comove.” A história de Carolina é o retrato das 249 reeducandas no Centro de Ressocialização Feminino em Rio Preto. Noventa por cento são presas por tráfico e 56%, com idade até 29 anos.

Entre as que possuem até 24 anos, a porcentagem é de 35%. Assim como Vanessa, outra que entrou para o tráfico, convidada por um amigo, e integrou a facção criminosa PCC. “Minha mãe passou por uma cirurgia e precisava de um remédio caro. Eu tinha acabado o ensino médio e não ganhava o suficiente para ajudá-la. O mal da juventude é querer atalho. Eu vendia e fazia a contabilidade dos ‘irmão’. Aí, comecei a ostentar. Comprei um carro esportivo de R$ 25 mil à vista (em 2004) e virava a noite nas baladas caras”, recorda Vanessa.

Pelo envolvimento com a facção, durante os seis anos que cumpriu pena, ficou boa parte no temido Tremembé, ‘o  Carandiru das mulheres’, e conheceu vilãs do crime como Suzane Von Richthofen e Anna Carolina Jatobá. “Na cadeia, eu perdi tudo. Amigos, o namoro e só sobrou o amor da minha família.” Hoje, com 32 anos, vende adesivo e cursa Direito. “Eu ainda vou ser promotora.”

Presas são abandonadas no dia da visita

As 249 reeducandas do Centro de Ressocialização Feminino de Rio Preto recebem, em média, 100 visitas a cada fim de semana. “As visitas podem ser realizadas aos sábados ou domingos alternadamente. Esses procedimentos são divididos considerando o algarismo final do número da matrícula da presa e dia do mês (par e ímpar)”, disse Ana Lúcia Gil Reis, diretora do CRF Rio Preto.

José Vicente Berenguel, agente da Pastoral Carcerária, que visita o CRF de Rio Preto todos os sábados com a missão de dar apoio, como acompanhamento do processo, doação de kit de higiene, assistência aos familiares e também desenvolver a espiritualidade. “A mulher presa sofre muito mais que o homem. Primeiro, o presídio não foi feito para elas, e sim para homem. Não há condição de higiene. Como vou em todas as cadeias, observo que a mulher é abandonada pelo companheiro. No caso do homem preso, a mulher é companheira e sempre vai visitá-lo.

Já o homem é durão e prefere abandonar a companheira”, constata Berenguel. Em Rio Preto, a cada dez detentas, quatro recebem visitas. Nem todas têm a esperança em rever quem deixou lá fora. Carolina, por exemplo, nunca mais soube do namorado, justamente aquele que lhe apresentou o mundo do crime. “Meu pai, minha mãe e meu irmão foram me ver. A minha irmã mais velha nunca quis ir”, recorda Carolina. Vanessa classifica o período em que cumpriu pena como o de perdas. “Foram seis anos de abandono. Primeiro te usam, depois te abandonam. Vi várias mulheres assim, sem receber uma visita.”

Freud explica

Para a psicóloga Mara Lucia Madureira, esse abandono é uma questão cultural sexista. “Os pais, principalmente a mãe, educam os filhos de acordo com o gênero”, disse. A mulher, desde a infância, é condicionada a cuidar de si, da casa, dos irmãos mais jovens e até mais velhos, como um treino para a vida adulta de dona de casa e esposa. Enquanto que os homens foram garotos treinados para ser servidos pela mãe, avós, irmãs, tias e esposa.

Há também, segundo a psicóloga, a questão biológica, em que o instinto materno se manifesta antes mesmo de a mulher ser mãe: pensam e agem como responsáveis pelo bem-estar e sobrevivência dos outros. “A sociedade ainda cobra menos e tolera mais omissões e negligencias masculinas no desempenho de papéis de cuidador e responsável por outros membros da família”, explica Mara.

Os desabafos das detentas

Berenguel, da Pastoral Carcerária, ouve desabafos toda a semana. “Não pergunto o motivo da prisão, mas elas querem conversar e quase todas estão lá por causa do mal do século, ou seja, as drogas”, conta. O levantamento da Secretaria de Administração Penitenciária aponta ainda que, das 249 reeducandas em Rio Preto, 40% não concluíram o ensino fundamental e 33% possuem o ensino médio incompleto. “Não bastasse o relacionamento perigoso, a facilidade de ganhar dinheiro também é sedutora, principalmente em relação às mais jovens.

Hoje, para fazer uma faxina, deve ganhar em média R$ 120, bem menos do que guardar drogas, ou vender, por exemplo”, disse o delegado titular da DIG/DISE, André Ayruth Balura. Apesar do ambiente hostil em uma delegacia, Balura garante que nesses casos aconselha a criminosa. “Claro que não damos tapinha nas costas e liberamos. Mas para essas jovens digo que devem estudar e procurar um emprego lícito”, disse Balura. O artigo 33 da lei de tóxicos é bem claro: a pena é de cinco a 15 anos de prisão e multa para quem “importar, exportar, remeter, preparar, produzir, fabricar, adquirir, vender, expor à venda, oferecer, ter em depósito, transportar, trazer consigo, guardar, prescrever, ministrar, entregar a consumo ou fornecer.

Grávidas

O CRF de Rio Preto não possui estrutura para receber detentas grávidas ou em fase de amamentação. Aliás, só 34% dos estabelecimentos femininos dispõem de cela ou dormitório adequado para gestante. “Todas as presas gestantes da região são encaminhadas para a Penitenciária Feminina de Tupi Paulista que possui Ala de Puérperas. Conforme previsto na Lei de Execução Penal, os recém-nascidos permanecem com as mães por, no mínimo, seis meses de vida. Após esse tempo, a criança deverá ser entregue a um familiar da presa, que terá a guarda provisória, ou será encaminhada para um abrigo, conforme decisão judicial”, diz em nota a Secretaria da Administração Penitenciária.

Jovens sem perspectiva de trabalho

A faixa de idade – entre 20 e 30 anos – é a fase de planos e decisões. É nessa hora que o jovem aspira oportunidades no mercado de trabalho e, conforme os especialistas, a mulher vive seu melhor período fértil. Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), no ano-base de 2014 o salário médio em Rio Preto é de R$ 1,3 mil para jovens entre 18 e 24 anos e de R$ 1,9 mil, para aqueles com idade entre 25 a 29 anos. O rendimento salta para R$ 3,5 mil entre as mulheres com formação superior.

A especialista em recursos humanos Ana Carolina Verdi Braga não vislumbra um cenário promissor para as 249 detentas. Longe dos estudos e do emprego, elas também terão um longo caminho após deixar o sistema carcerário. “A pessoa que passa por essa experiência fica marcada para o resto da vida. E a área profissional é atingida”, explica Ana Carolina. A Secretaria de Administração Penitenciária preparou uma cartilha para o egresso: “Dicas para começar de novo”. No documento, dá endereço de onde procurar empregos e dicas para o currículo e entrevistas.

Se o dia a dia das detentas é de ociosidade, o futuro é uma incógnita. Carolina disse que enquanto esteve presa quase não teve o que fazer. “E o que ganha é uma mixaria.” A diretora do Centro de Ressocialização Feminino de Rio Preto, Ana Lúcia Gil Reis, disse que as reeducandas “exercem atividades laborais e recebem retorno financeiro por tais atividades.” Porém, Ana Lúcia não detalha valores e os tipos de serviços. “Acreditamos no trabalho que realizamos. Demonstração disso é que durante o cumprimento da pena são oferecidos trabalho remunerado e estudo secular para quem ainda não concluiu o ensino médio.

Também são ministrados cursos profissionalizantes em parceria com o Senai, Sest, Senat, Senac, Funap e Secretaria de Estado da Educação”, disse Ana Lúcia. “Temos conhecimento de que algumas egressas foram admitidas para trabalho formal em empresas onde prestaram serviço durante o encarceramento. Outras foram admitidas após a liberdade, em novas empresas.”

Números de prisões saltam

O Ifopen Mulheres, levantamento nacional de informações penitenciárias do Ministério da Justiça, constatou que o número de detentas subiu de 5,6 mil para 37,3 mil entre 2000 e 2004, um crescimento 567% em 15 anos. É preocupante porque a taxa de mulheres presas no país é superior ao crescimento geral da população carcerária, que teve 119% no mesmo período e chega a 607 mil.

“Há uma tendência de crescimento da população carcerária feminina e por isso é preciso dar visibilidade para essa questão. Somente tendo um quadro real da situação, é possível orientar políticas públicas eficazes”,disse o diretor-geral do Departamento Penitenciário Nacional do Ministério da Justiça, Renato de Vitto, que coordenou o estudo inédito e traçou perfil das detentas em todos as unidades prisionais: das 1,4 mil, somente 103 são exclusivamente feminina e 239 mistas.

Das 37 mil encarceradas, 68% são por tráfico de drogas; 50% possuem entre 18 e 29 anos; 11% concluíram o ensino médio e menos de 1%, o ensino superior completo. “Há presídios em que o banheiro não tem vaso sanitário, algumas detentas limpam as partes íntimas com jornal, deixa a escova de dente no chão. As roupas íntimas sem ter onde secar. A cadeia foi feita para homem. Vi muito mulher enlouquecendo”, conta Vanessa, que ficou presa por seis anos. Carlos Petrocilo/Diário da Região

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