A ‘solução’ de Alckmin para os excluídos da AACD

O governador Geraldo Alckmin disse ontem em Rio Preto que pacientes dispensados da AACD (Associação de Assistência à Criança Deficiente), após corte de verba da Prefeitura, serão absorvidos pelo Hospital de Reabilitação Lucy Montoro. “Aliás, aqui tem não só a parte ambulatorial mas também a parte de internação. Poderemos ter, sim, os pacientes serem atendidos gratuitamente”, afirmou.

Durante a visita, Alckmin enfrentou o protesto solitário da doméstica Lucélia de Souza Ortiz, 36, que entregou uma carta e pediu apoio para a entidade. Seu filho Francisco, 5 anos, faz tratamento há dois anos na AACD devido a uma paralisia e usa cadeira de rodas. Na teoria, o discurso político do governador solucionaria o problema e impediria a suspensão do tratamento de mais de mil pacientes, grande parte crianças. Mas é fácil assim? O Lucy Montoro tem capacidade e dinheiro para isso? A reportagem do Diário foi atrás das respostas e descobriu que na prática não seria tão simples.

Segundo a diretora do centro de reabilitação, a médica Regina Chueire, o hospital tem sim capacidade técnica e profissional para atender esses pacientes, mas o início do tratamento depende antes de uma triagem e da demanda reprimida. Atualmente, são 27 crianças e 70 adultos que aguardam na fila atendimento em diversas áreas. O tempo médio de espera gira em torno de três a seis meses.

A unidade de reabilitação abrange pacientes de aproximadamente 140 cidades e ano passado teve orçamento executado de R$ 9,2 milhões, segundo o Portal da Transparência, do governo estadual. Regina explica que qualquer pessoa encaminhada por médicos da rede pública na região tem direito a tratamento. “Só não dá para passar quem chega por último na frente daqueles que já estão aqui esperando”, disse.

Ainda segundo a diretora, antes de falar em custos e dinheiro, ampliação ou contratação de pessoal, é preciso determinar qual será a demanda a ser atendida com a dispensa de pacientes da AACD. Hoje o hospital tem 50 profissionais, divididos em 13 áreas da saúde e social. Em 2013, realizou 45 mil sessões de reabilitação entre outros procedimentos.

Além disso oferece alguns serviços, como exames laboratoriais e de imagens em parceria com o Hospital de Base, que a AACD tem mais dificuldade de obter. “São videolaparoscopia, exames de sangue e até uma ressonância magnética)”, enumera. Entre os procedimentos médicos, ela cita ainda aplicação de toxinas e bloqueio de dor que no ano passado, juntos, somaram mais de 1,2 mil casos.

Ao contrário do que disse o governador pela manhã, a ala de internação do centro de reabilitação ainda não está em atividade. Segundo a diretora, o serviço deve ocupar o oitavo andar do prédio, mas o espaço poderia abrigar os atendimentos oriundos da AACD. “Ou podemos transferir para lá a área administrativa que hoje está no térreo e abrir mais duas salas para atender as crianças”, afirma.

A médica acredita que a maior dificuldade de adaptação seria com os atendimentos nas áreas de fisioterapia, terapia ocupacional, fono e outras áreas da saúde que possuem número elevado de sessões de reabilitação.

Corte começa na próxima semana

A direção da AACD confirmou que a suspensão do atendimento deve atingir aproximadamente 1,2 mil pessoas, entre crianças e adultos, que vêm de outras cidades – são cerca de 280 municípios, alguns de outros estados. O corte começa na próxima semana, dia 15. Atualmente de Rio Preto, que continuarão a ser atendidos, são 519 pacientes.

Ontem o gerente financeiro da associação, Aluizio Achcar, disse que o corte de R$ 100 mil mensais da Prefeitura vai provocar a redução de todos os serviços prestados pela associação. De seis fisioterapeutas, por exemplo, apenas dois devem ficar. Ao todo, dos 42 funcionários, 14 vão ser dispensados.

Mais uma vez, Achcar lamentou a redução nos recursos e rebateu apresentando balanço da entidade que, segundo ele, mostra a eficiência na aplicação do dinheiro. “Em cinco anos, triplicamos os atendimentos, de 700 para mais de 2.000, e ampliamos o número de funcionários de 32 para 42, ou seja em 30%. E sempre recebendo os mesmos R$ 150 mil da Prefeitura. Isso é interessante e ninguém vê”, falou.

Segundo ele, a proposta da Prefeitura que além dos R$ 50 mil de subvenção ofereceu mais R$ 30 mil mensais do SUS para pagar os atendimentos é inviável. “O SUS paga entre R$ 2 e R$ 10 por procedimento, muito pouco.” Achcar explica que, em média, cada procedimento custa para a AACD cerca de R$ 48,22. Ao todo, são 200 atendimentos por dia.

Além da subvenção da Prefeitura, a AACD conta com doações voluntárias. O valor gira em torno de R$ 20 mil por mês. Atualmente, entre os pacientes atendidos, a associação tem 1,9 procedimentos na demanda reprimida.

A presidente da associação, Adriane Albuquerque, viajou ontem para São Paulo para uma reunião com a direção estadual da AACD na tentativa de buscar uma solução para o impasse. Para quem vai perder a assistência, a situação é lamentável. “Não dá para acreditar”, afirma a veterinária Maria Paula Brandemarti, 33, que há dois anos leva a filha Julia, 3, três vezes por semana para atendimento. Elas moram em Mirassol e a menina trata de uma paralisia cerebral.

 

Guto Pereira – Diário da Região

0 Comentários

Deixe um Comentário

Login

Bem vindo! Faça login na sua conta

Lembre de mim Perdeu sua senha?

Lost Password