Publicado: qua, jul 23rd, 2014

A ‘vida’ na palma da mão

A palavra já tem um ano desde sua criação, pouca gente conhece ou ouviu falar, mas aqueles que têm acesso à internet no celular provavelmente já praticaram-na inúmeras vezes. O ato de ignorar o resto do mundo por conta do aparelho ganhou o nome de “phubbing”, junção de “phone” (telefone) e “snubbing” (esnobando).

Entre as prioridades dos “phubbers” está a atualização do status e a troca de textos com outras pessoas conectadas. O comportamento se traduz na atualização constante de comentários e compartilhamentos de fotos e vídeos em grupos fechados de redes sociais como o Facebook e aplicativos como o Whatsapp.

O conceito, formalizado pelo jovem australiano Alex Haigh, tem como ideia chamar a atenção para esse hábito cada vez mais comum e tentar desestimulá-lo. Para buscar mais força, Haigh até criou o site “Stop Phubbing” (www.stopphubbing.com) com dicas para as “vítimas” e orientações aos praticantes para que valorizem mais a interação humana presencial.

A princípio, uma das fortes razões está no próprio vício nas redes sociais, mas também na fuga da interação olho no olho, afirma a psicóloga e escritora Andrea Pavlovitsch, de São Paulo. “Como estamos cada vez menos conectados com a gente mesmo, estar na frente de alguém e conversar de verdade, como falar sobre problemas ou coisas realmente importantes, é difícil. É mais fácil mandar uma mensagem escrita do que interagir.”

Tudo isso está relacionado à transformação dos hábitos que, mesmo que lentamente no começo, tomam proporções somente percebidas depois. Foi assim com o acesso ao telefone fixo, quando tudo era interrompido para atendê-lo, o que ficou mais intenso com os celulares. “A internet móvel, com as redes sociais, piorou ainda mais o quadro. Hoje, não ficamos mais inacessíveis e, inclusive, tememos isso.

A curiosidade faz com que interrompamos coisas importantes para atender algo, precisamos estar conectados. Outra questão é que esquecemos como viver sem distrações, como é viver em silêncio, que hoje nos faz sentir desconfortáveis”, explica a psicóloga Márcia Regina Orsi, especialista em Terapia Familiar, do Instituto Terapia Sistêmica.

A profissional reforça que as pessoas atualmente sentem vontade de fazer alguma coisa. Sempre. Não conseguem ficar paradas. Querem espantar o tédio ou tranquilidade observando a movimentação on-line.
Outro ponto, que também está envolvido nessa problemática, é a exposição associada à cultura da felicidade. É como se os momentos ruins não fossem mais permitidos e, por isso, precisam ser evitados a tudo custo.
Tudo o que não é bom fica escondido, afinal, cara a cara, a tristeza e as dificuldades são mais difíceis de serem disfarçadas. “Ninguém faz ‘check in’ indo fazer quimioterapia ou em uma audiência para ver quem vai ficar com as crianças em um divórcio. As pessoas querem mostrar que são felizes, ficando tudo artificial, e este vício nas redes sociais só reflete isso. Se não conseguem controlar, é porque estão fugindo da interação humana”, destaca a psicóloga paulistana.

Zona de conforto virtual

Um ponto que torna a interação humana virtual mais atrativa é por ser confortável. As conversas olho no olho exigem o deslocamento para a presença física, mas também deixam à mostra reações de tristeza, alegria, descontentamento, ironia, entre outras. Esse comportamento, alheio à vida que nos cerca, traz como consequência o enfraquecimento das relações sociais, garante a psicóloga Andrea Pavlovitsch.

Com o passar do tempo, a frequência desse hábito preso à conexão dos telefones móveis só intensifica esse vício que interrompe o contato humano. “As relações ficam empobrecidas, fracas. Não é a mesma coisa.” A psicóloga Márcia Regina Orsi concorda, pois acredita quem um relacionamento precisa de tempo e intimidade. Embora os sites de relacionamento tenham diminuído distâncias e minimizado a solidão social, acabam aumentando a “solidão emocional”, afirma ela.

“Amigos de verdade mantêm um relacionamento biológico, e, biologicamente, quem consegue se relacionar com mais de 150 amigos?”, questiona. Da mesma forma, é comum manter contato com centenas de pessoas, sem conhecê-las pessoalmente. Apesar disso, há medo de conversar com quem está sentado ao lado no banco do ônibus ou na fila do supermercado. Há o medo da exposição, quando, na verdade, ela acaba sendo bem maior no mundo virtual. “É interessante, porque tudo isso passa uma sensação de bem-estar e falsa proteção, e é justamente o contrário”, destaca Márcia.

Desligue-se por um tempo

Embora a maioria das ferramentas virtuais seja reconhecida por sua importância de (re)aproximar pessoas, é preciso ficar atento com as próprias reações. “Precisamos superar nossos medos, e um dos nossos medos primordiais é de sermos descobertos na nossa fraude de ‘perfeição’. Não vou desmerecer as redes sociais e a tecnologia, mas existe uma linha – do medo da intimidade real – que não pode ser ultrapassada”, argumenta a psicóloga e escritora Andrea Pavlovitsch, de São Paulo.

Tudo isso pode alimentar o vício de continuar conectado a uma vida virtual, ignorando a verdadeira e real e todos os elementos presentes ao redor. Uma dica para sair desse ritmo é começar a deixar o celular no bolso. “Até faça o ‘check in’, mas guarde-o. As memórias são o que conversamos e o que passamos, e não milhões de fotos sobre isso. Se for bom, não esquecerá, e se quiser mostrar para os outros, perceba o quão patético isso é”, orienta Andrea.

Mas se seu amigo é um “phubber” e você é vítima desse comportamento, fale sobre esse desconforto. Uma ideia colocada em prática por muitos grupos de amigos que já manifestaram estranhamento por esses vícios é separar-se do celular. “As pessoas dão o celular para um dos membros do grupo (o menos ‘viciado’), que só devolve ao final. Se acontecer uma emergência, aí pode atender. É preciso aproveitar o tempo, e isso é importante”, destaca a psicóloga paulistana.

Evite o ‘phubbing’

:: Controle e não seja controlado

:: Não esteja sempre disponível. Desconecte

:: Aproveite os encontros pessoais ao máximo, sem interrupções

:: Tente desligar o celular por 2 ou 3 horas diariamente

:: Use as redes sociais para contatos profissionais

:: Promova encontros pessoais com amigos e familiares

:: Utilize o Whatsapp e as redes sociais para recados, não para longas conversas

:: Escreva cartas. Existem pessoas que nunca experimentaram a sensação de receber uma carta escrita com a letra e perfume da pessoa querida. Ela pode ser guardada depois de anos para ser reencontrada mais tarde

:: Lembre-se que, pessoalmente, é sempre mais gostoso. Há abraço, beijos, sorrisos, flores e lágrimas

Fonte: Márcia Regina Orsi, psicóloga