Publicado: qui, jul 6th, 2017

Quantos anos você tem? Artigo de Orlando Ribeiro


Está “correndo” na internet, um texto que fala da resposta de Galileu Galilei, quando lhe perguntaram: – Quantos anos o senhor tem?”. A nossa tendência é contar quanto tempo se passou desde o nosso nascimento e o momento presente, porém, Galileu, respondeu que teria entre 8 ou 9 anos. Por quê? Simples, ele preferiu dizer quanto tempo ainda teria para viver. Algo tão lógico, não é verdade? Esses anos que se passaram, claro que já não os temos mais, se foram, pertencem ao nosso passado. Deixaram apenas um questionamento: foram anos bem ou mal aproveitados? Diante disso, como Galileu, quando lhe perguntarem “quantos anos você tem?”, responda: – Espero ter muitos anos! Claro, como é que a gente não pensou nisso antes? Pelo menos, eu não havia pensado, o leitor, talvez, sim. Os próximos anos sãos os que temos de concreto, pois, como diria Ângela Rô Rô, “só nos resta viver” e são nestes tempos vindouros que ainda hoje depositamos nossos sonhos e esperanças.
Os anos que passaram serviram para nos deixar mais reflexivos, entendendo um pouco mais do valor da vida, do tempo e das oportunidades. Só que o envelhecimento não é tão ruim, não são apenas rugas, perdas, memória fraca, passos mais vacilantes e corpo mais pesado. Significa que persistimos. Teimamos. Descobrimos que não existem montanhas inacessíveis, obstáculos inultrapassáveis ou desafios impossíveis. Perdemos algumas ilusões, isso é fato, mas ganhamos muitos certezas, a principal é a de que não podemos nos acovardar diante da vida, que é preciso lutar contra a insensibilidade, contra a indiferença, a falta de amor, de compaixão e de liberdade. Descobrimos, até hoje, que envelhecer não é envenenar-se e morrer. Apesar de as folhas secas já se desprenderem da árvore de nossa vida, levadas pelos muitos outonos já vividos, ainda restam algumas flores que se agarram ao tronco com tenacidade, na ilusão tão útil da perenidade.
Amor, compaixão, liberdade, sensibilidade, harmonia, tolerância. São essas coisas que os anos futuros ainda podem nos trazer. Vivamos por elas, lutemos com elas. Vale a pena. Restando poucas folhas no calendário, é hora de dobrar o valor de cada instante, voltar a ler bons livros de poesia, meditar muito, orar mais. O tempo que já vivemos escancarou as nossas janelas da alma e a já conseguimos notar o balançar das folhas quando um vento assobia e dispersa o pó da nossa vaidade. Já descobrimos que o silêncio têm poder de cura. Para ter paz nos anos que ainda nos restam nesta passagem, é preciso ter a serenidade de um corredor de mosteiro e a paz para ouvir o lamento de um riacho, quando se espreme entre as rochas da margem. Quero me deitar em paz, como fazia quando era ainda uma criança, e proteger o meu tesouro: as pessoas que amo. Já que meu passado se tornou longo e o meu futuro será breve e viverei menos do que já vivi, quero mais é celebrar cada dia com a delicadeza que ele merece. E, se os anos que me restam serão poucos, prometo a mim mesmo que eles serão sensacionais.

Orlando Ribeiro/ Diário de Votuporanga